Sporting-Benfica ou Sporting-Cardozo?
O dérbi de logo à noite tem uma dimensão psicológica acima do normal: se este Sporting ganha, começará a formar-se em Alvalade a convicção de que, com menos recursos financeiros, é possível formar-se uma equipa competitiva e, com ela, desafiar não apenas outros emblemas (que conseguem ser campeões nacionais com uma estrutura de custos elevadíssima), mas “outros Sportings”, incomparavelmente mais gastadores e esbanjadores. Este Sporting, de Bruno de Carvalho e Leonardo Jardim, tem pois um duplo desafio à sua frente – e a possibilidade de se tornar num exemplo para o próprio futebol nacional. Com as limitações e condicionalismos que todos lhe reconhecem, este Sporting tem muito a ganhar e pouco a perder, embora esteja em causa também não permitir a instalação da ideia de que começa a ser normal “não ganhar ao Benfica”. No passado recente do Sporting, não há talvez ninguém que se tenha batido contra esta ideia da “banalização da derrota” como o actual presidente. Essa corrente existe em Alvalade, ainda não cresceu o suficiente e nada melhor do que um triunfo sobre o Benfica para se começar a acreditar, no reino do leão, que é verosímil a mudança de paradigma.
A pressão está toda do lado do Benfica, porque é assumidamente um candidato ao título, porque não há mais margem de manobra para deixar o FC Porto prosseguir na senda do êxito e porque, não obstante os sinais do passado recente que obrigariam Luís Filipe Vieira a aprender com os erros, formou-se a convicção – adensada com a derrota inaugural na Madeira – de que não foi ainda desta vez que o Benfica preparou, com cuidado e profissionalmente, a entrada em 2013-14. Este “caso Cardozo” é sintomático de uma certa desorientação nas hostes encarnadas.
As componentes financeira e desportiva do futebol não podem ser tratadas separadamente. Não basta fixar o preço da venda. É preciso avaliar os custos de uma não venda, sobretudo num caso de latente conflito. O que é pior: não vender Cardozo por um preço inferior a 15M€ ou ter um jogador no balneário que será sempre uma “bomba” pronta a explodir no colo do treinador?
O Benfica contratou, contratou, contratou. Mas sabia exactamente quem estava a contratar? Isso obedeceu a um plano antecipadamente traçado e aceite por Vieira, Rui Costa e Jesus? Não me parece que esta máquina esteja bem oleada e, como sempre defendi, ao não mexer radicalmente na estrutura – de apoio ao treinador e na defesa da própria SAD – o Benfica corre o risco de se trair a si próprio.
O caso foi tão mal conduzido que se chegou ao limite de forçar Jesus à sua própria contradição: como é que um jogador com cerca de 3 meses de paragem se pode apresentar numa condição física... “surpreendente”, ao ponto de poder entrar nas contas do dérbi desta noite?
O Benfica precisa de ganhar o jogo para beneficiar de um novo fôlego, mas para isso – e a avaliar pela última conferência de imprensa de Jorge Jesus – a aposta é agora num certo “sobrenaturalismo futebolístico”. Tudo indica que há na Luz quem acredite que, uma vez convocado e mesmo sem treinos suficientes nem ritmo de competição, Cardozo entre no jogo de Alvalade para marcar o golo da vitória do Benfica.
Depois do que aconteceu frente ao Gil Vicente – sem esquecer os beijos e abraços –, o Benfica parece apostar na emulação psicológica.
A surpresa resume-se ao Benfica ter permitido alimentar a ideia de que, mais do que um dérbi em Alvalade, esta noite se possa transformar num Sporting-Cardozo. E, se assim for, estaremos perante a vitória do infractor.
NOTA – João Capela esteve em foco no Benfica-Sporting da época passada. Prémio: dirigir o jogo de estreia do campeão nacional no Bonfim (V. Setúbal-FC Porto). Hugo Miguel esteve em foco (pela negativa) no Paços de Ferreira-FC Porto, uma partida decisiva nas contas do título. Prémio: nomeação para o Sporting-Benfica desta noite. Conclusão: a FPF, não apenas através do Conselho de Arbitragem, premeia o erro. Edificante.
NOTA 1 – Franck Ribéry foi eleito o melhor jogador da UEFA, 2012-13, por ter sido um dos protagonistas do sensacional Bayern Munique, a melhor equipa europeia da última época. Cristiano Ronaldo (com apenas 3 votos em 53: Portugal, Espanha e Geórgia) faltou à cerimónia e é nestes detalhes – e não nos futebolísticos – que ele perde para Lionel Messi.
A presença na primeira parte do Teresa Herrera serviu de (má) desculpa. Saber perder é a maior virtude que se pode achar entre vencedores.
JARDIM DAS ESTRELAS
Grande Danny e "caso"... Vítor (****)
Os arranques, as explosões e a tecnicalidade dos seus gestos têm feito de Danny, no Zenit, um jogador espectacular.
Não foi por acaso que os russos pagaram, há 5 anos, 30M€ pelo seu passe.
Eis o exemplo de um jogador que, mesmo tendo passado pelo Sporting, passou na “malha” dos treinadores, em Portugal. Foi na Rússia (Dínamo Moscovo e Zenit) que Danny, agora com 30 anos, fez uma carreira. Um caso raro. Um caso raro também de excelência numa liga europeia sem correspondência na Selecção.
Esta semana, Danny esteve em foco no jogo com o P .Ferreira, cuja partida também colocou um outro jogador português: Vítor. Quase a completar 30 anos, como é que este médio de grande talento nunca despertou o interesse dos grandes?...
O CACTO
Gomes patrocina
Um mês e meio depois da condenação do director João V. Pinto por “fraude fiscal”, a FPF não age nem reage, remetendo-se a um silêncio cúmplice.
Tantos estatutos, tantas alíneas de promoção da ética desportiva, tantas incoerências. Este “salve-se quem puder”, promovido pelas mais altas instâncias do futebol e alimentado pelos poderes públicos, é o maior “calcanhar de Aquiles” da idiossincrasia lusa. A pergunta que se impõe: por que razão o presidente da FPF, Fernando Gomes, patrocina o crime? E qual foi também o motivo por que se calou em relação ao assalto às instalações da sede federativa?
