Sporting campeão? Só mesmo a 1%!
Ao cabo de quase 40 anos a seguir, profissional e ininterruptamente, o futebol, vi o suficiente para perceber que a própria arbitragem precisa de ser regulada. Não pode andar ao capricho, como anda há mais de um século, mesmo em plena era da industrialização do futebol e consequente profissionalização, de “estados de espírito”, influência exógenas ou mesmo de arremedos mafiosos, que apenas têm o condão de aumentar as suspeitas e contribuir para afectar a imagem de uma modalidade a necessitar, urgentemente, a este nível, de um tratamento de choque.
Tenho dito e repetido que o modelo de arbitragem em cada país – fechado, hermético, opaco, nebuloso – é apenas uma réplica daquilo que a FIFA e a UEFA (no caso europeu), com o alto patrocínio da International Board, esse organismo anquilosado, cristalizado e bafiento, aparentemente prisioneiro, em regime de eterna felicidade, de se libertar de uma ideia medieval que não confere em nada com os tempos em que vivemos, de cada vez maior escrutínio, dominados pela velocidade da informação, e por ser exactamente uma reprodução daquilo que a FIFA e a UEFA pretendem – por estar sob controlo –, a mudança é um processo muito difícil, porque apesar de tudo são mais aqueles que, no dia-a-dia, ganham com este sist€ma do que aqueles que perdem...
Nas décadas de 80 e 90, a face do futebol português mudou completamente porque – independentemente dos méritos que se podem identificar na área dos jogadores e treinadores e da sua gestão – houve uma intervenção profunda, voluntária, estratégica, metódica, cirúrgica e territorial no sector da arbitragem, que a muitos comprometeu. Aquilo que o futebol dá a ganhar aos seus “filhos”, uns mais “padrinhos”, outros mais “afilhados”, acaba por constituir à volta da modalidade um “muro de silêncio”, com códigos muito apertados, no qual é muito difícil de penetrar. É por isso que, em certos debates, não se consegue ir para além da espuma – mas todos, ou quase todos, conhecem a realidade... É por isso que, conhecendo as dificuldades em derrubar este modelo (o mundo das classificações, dos observadores e dos árbitros, das promoções e das despromoções, dos relatórios e das nomeações é algo que continua a ser uma espécie de território inacessível e codificado), sou sensível a propostas como as que o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, apresentou recentemente, embora duvide da sua eficácia, não porque as propostas não sejam boas, mas porque é preciso derrubar os alicerces e os vícios sistémicos que têm inviabilizado a mudança.
Otempo o dirá, mas a história do futebol em Portugal tem-nos dado respostas para este tipo de “erupções revoltosas”: depois do ruído, fica tudo praticamente na mesma. Porque, no caso português, os clubes contraíram demasiados compromissos junto das “sedes de poder” e mesmo que estejam de acordo que o actual sistema de organização da arbitragem não é transparente, não têm independência suficiente para saírem de um determinado jugo. Afinal, ainda sobrevivem por causa dele. O poder político não se mete – se o fizer, leva –, e a FPF (dependente, financeiramente, da FIFA e da UEFA), entre declarações de intenção que nada representam, fará tudo para, entre promessas de mudança... nada fazer.
Épor isso que, embora apoiando-as, me confesso muito céptico em relação às propostas do Sporting. Na verdade, ninguém as quer discutir. Nem a Assembleia da República (que incómodo!), nem a FPF, nem a maior parte dos clubes. E pode muito bem acontecer que este ataque que o Sporting está a fazer ao edifício da Arbitragem – o tal edifício sem portas nem janelas e, portanto, sem luz que possa introduzir alguma claridade – se vire contra o próprio Sporting. É, também, por isso que o sorteio dos árbitros é necessário, mas dificilmente irá avante; que a publicação dos relatórios e das classificações corresponda a um processo totalmente claro e aberto, mas com pouca receptividade para ser implementado. E, sendo assim, embora atribua ao Sporting 33,3% de hipóteses de poder aceder à Champions na próxima época, não lhe atribuo mais de 1% de possibilidades de se sagrar, em Maio deste ano, campeão nacional. Porque não há muito tempo o sector da Arbitragem já fez com o Sporting aquilo que não foi capaz de fazer com mais nenhum emblema. E isso diz tudo. Como pode dizer tudo, numa certa perspectiva, a possível nomeação de Pedro Proença para o próximo Benfica-Sporting, que está aí a chegar...
JARDIM DAS ESTRELAS
A dignidade
Ao recusarem-se a disputar o jogo com a Real Sociedad, da Taça do Rei, por não haver solução para o drama dos salários em atraso (três a quatro meses), os jogadores do Racing Santander mostraram a sua força e, com o apoio dos adeptos e sócios, desencadearam um processo que já teve como consequência a queda da direcção e do presidente Ángel Lavín, que recusava demitir-se. Os jogadores e os adeptos apontaram-lhe a porta de saída. Quando os dirigentes não servem para dirigir, não servem para coisa alguma, no futebol.
O CACTO
No fundo
Um relatório da KPMG aponta que 27 a 36% dos direitos económicos dos jogadores da 1.ª Liga portuguesa pertencem a fundos de investimento. Desde 2006 que os ingleses proíbem essa prática, muito em voga em Espanha, Portugal e Brasil. Está agora instalada a polémica em Inglaterra, porque existem documentos a provar que o Chelsea está a trabalhar em parceria com Jorge Mendes e a empresa norte-americana CAA (Creative Arts Agency), que compra os direitos económicos de jogadores que actuam fora da Premier League. O proprietário do Chelsea, Roman Abramovich, é apontado como tendo interesses no Quality Sports Investments e no Quality Football Ireland, interesses esses que parecem ser partilhados igualmente por Peter Kenyon. Há muito para explicar e o debate promete.
