Sporting e a coacção no futebol português
“Coacção” foi o substantivo da semana, mas a verdade é que a coacção faz parte da história do futebol português, mesmo quando não se lhe reconhece esse papel nas mudanças que foram impostas na bola indígena nos últimos 30 anos. A coacção exibe-se e interpreta-se, curiosamente, num momento em que Sporting e FC Porto apresentam as suas divergências, depois do corte de relações institucional ocorrido pouco tempo depois de Bruno de Carvalho ter tomado posse como presidente do clube de Alvalade. A coacção e as suas variações não são, pois, um epifenómeno sazonal; constituem um fenómeno histórico sobre o qual é preciso (re)agir. Com debate, com coragem, mas sempre e apenas com a força da razão.
Estamos a cerca de um mês da comemoração dos 40 anos sobre o 25 de Abril de 1974 e a democracia ainda não chegou ao futebol. É curioso verificar que, enquanto a sociedade portuguesa, depois de quase meio século de obscurantismo e de perseguições, apenas pelo simples facto de se pensar diferente e de não se pactuar com o regime da censura e do medo, foi fazendo a adaptação a uma vida em democracia, o futebol não achou a sua revolução, conservando tiques e práticas autocráticas dos quais não se consegue livrar.
O centralismo é indesejável como forma de impedir o desenvolvimento regional e mitigar as assimetrias de um país. O centralismo é indesejável como forma de impedir o crescimento do interior em relação ao litoral. Sempre vi o centralismo como a projecção de um país que viveu tempo de mais numa ditadura. Nunca vi o centralismo como uma forma premeditada de marginalizar, discriminar ou hostilizar o norte e muito menos a cidade do Porto. Entendo, ao invés, que deu jeito gerar e amplificar essa ideia, porque era o modo de se criar coesão territorial e, com ela, identificar o “inimigo” e colocar-lhe o rótulo persecutório. Sempre achei que se tratava de uma ideia descabida e muito perigosa.
Portugal tem tudo o que muitos não têm para afirmar a sua coesão e solidez nacionais. O processo de inversão dos efeitos do centralismo, no futebol, só foi possível pela perseverança e até pela obsessão com que Pinto da Costa, utilizando a boa-fé de milhares de portistas, naturalmente ávidos de conquistas, protagonizou esse processo. Ninguém mais do que Pinto da Costa soube manobrar tão bem essa ideia. E isso só foi possível, durante anos, até se entrar numa fase de controlo quase absoluto do poder (agora, a esgotar-se e daí as tensões que saltam à vista), porque o poder político não quer nada com o futebol (tira partido e tem medo) e porque a oposição clubística (lisboeta) foi sempre confusa, frágil e, por isso, praticamente inexistente.
Foi assim que o FC Porto se instalou. E foi assim, durante cerca de 30 anos, até... Bruno de Carvalho chegar ao futebol. Pelo meio, “batalhas” com sete presidentes do Benfica e dez do Sporting. Bruno de Carvalho chega ao futebol e a Alvalade “fresco e viçoso”, na fase final do regime de Pinto da Costa. E chega num momento em que o homólogo do Benfica, Luís Filipe Vieira, não pode deixar de acusar algumas “nódoas negras” resultantes da refrega com o presidente do FC Porto. Vieira precisa de se redimir para se afirmar. Bruno de Carvalho procura a afirmação (quase) instantânea. E assim estamos chegados ao clima de conflitualidade do momento: Bruno de Carvalho tenta explorar a erosão do regime de Pinto da Costa, sem hostilizar o Benfica de Vieira (nesse confronto específico). Mas sempre com o cuidado de não passar para as “bases” (de onde emana) uma certa subserviência ao rival da Luz. É um equilíbrio difícil de manter, comparável àquele que a UE tenta manter com a Rússia por causa da... Crimeia.
Este clima de permanente pressão – coacção? – sobre os árbitros só é possível num futebol sem rei nem roque. Um futebol dominado pelo medo, pelas cliques e pelas claques. Num futebol desregulado por uma Federação e por uma Liga sem força e por uma tutela político-governamental que só se apresenta na hora da medalha e do croquete. O nível de linguagem a que se chegou (vide “O Cacto”) é típico de um país subdesenvolvido, que despreza as mais elementares regras de civilidade. Isso acontece porque os clubes, ao contrário, não querem que haja justiça desportiva. Querem justiça contaminada. Querem justiça clubitizada. Querem justiça calendarizada.
É aqui que nasce a coacção. Veja o que acontece na Liga. Os representantes dos clubes ofendem-se e não chegam a discutir nada. Afastam quem não se presta aos servicinhos. Afastam a quem obstaculariza o “sistema” que eles próprios geraram (pela omissão).
Saúdo o Sporting por ter recuperado a ideia “Pela Verdade Desportiva”, o nome que demos ao movimento que protagonizou a petição apresentada na Assembleia da República há quatro anos, em defesa da introdução das novas tecnologias no futebol. Acredito na força da razão e não na razão da força. Há muita coisa a mudar: o medo não se combate com... mais medo.
JARDIM DAS ESTRELAS - ****
Quaresma, já!
Grande exibição de Quaresma em Nápoles, coroada com um golo magnífico!
Já sabemos que Paulo Bento gosta de manter na Selecção uma espécie de “espírito de grupo”. Uma espécie de “plantel” interdito a grandes mexidas. Só assim se compreende a inclusão (sem critério) de Nani, quando se achava em má “forma”. Não há volta a dar: há jogadores que podem estar “em grande” nos respectivos campeonatos (Duda, Eliseu e Danny são exemplos flagrantes), mas basta (não) fazer qualquer coisa que desagrade ao seleccionador para não entrar na lista dos eleitos. Quaresma é um desses casos. Mas há limites para esse “culto de família”. Não cabe mais do que um ego na Selecção? Tem de caber! Porque aquilo que Quaresma pode dar à Selecção no Mundial é, em tese, sempre superior àquilo que são os detalhes de personalidade, observados de forma menos positiva. Com Cristiano Ronaldo, Quaresma e Adrien (no miolo), a Selecção fica mais forte.
O CACTO
Educação
Vejo e oiço os protagonistas do futebol português e, independentemente das razões que lhes possam assistir, chego à conclusão de que, de um modo geral e como dizia o Eça, lhes falta a basezinha. A basezinha é a educação. O baixo nível a que se chegou, no plano do discurso, é um problema cultural e de falta de educação. Tão simples quanto isto. Lamentavelmente.
