Stop ao excursionismo
Lá fomos então, com o folclore do costume, rumo ao Euro’2012. Partimos em ambiente de festa e euforia, como se tivéssemos chegado com um troféu na bagagem. O circo montado, com o melhor pano na tenda, e o país pendurado na asa do avião. Não é só em Portugal, mas é excessivamente em Portugal. Coisa de pequeno país e de país pequeno, com a Presidência da República envolvida e a cumprir o protocolado da praxe. Futebol tem esse poder de bestialização. Também nos tempos modernos. Também em democracia. Também com mais preparação e informação. Com Salazar ou Tomaz. Com Eanes ou Soares. E com os presidentes mais recentes. É tão bestial que até o Cristiano Ronaldo consegue transformar a eminência Cavaco Silva em Aníbal. Porreiro, pá, não se passa nada, são horas a filmar o vazio, com mais ou menos educação, com a Pátria, amante de todos nós, em pano de fundo. E de fado. Foi também assim que chegámos à crise, empurrados por uma Europa demasiado centrada no seu umbigo. O umbigo é a Alemanha, já se vê, que sempre olhou para a periferia com um certo desprezo, e nem sequer foi com a chegada do euro, a moeda, com o marco já era assim...
Querendo ou não querendo, já tínhamos de levar com a senhora Merkl (Cristiano, se encontrares a senhora Merkl não a trates por você...), pelo que foi “um azar do caraças” ter de levar ainda com o Mertesacker, o Lahm, o Khedira, o Boateng, o Kroos, o Müller, o Schweinsteiger, o Özil, o Podolski, o Gomez e o Klose.
AAlemanha é forte na Europa e no euro. Não vale a pena escamoteá-lo. A Alemanha não tem o melhor jogador do Mundo nem o melhor treinador do Mundo a jogar por fora, mas tem uma das mais poderosas Selecções do Mundo – e uma Liga que, em termos de sustentabilidade, está no topo.
Devemos reconhecer mérito aos alemães. Esse é o princípio pelo qual devemos orientar o nosso jogo de estreia no Europeu. Pensar que podemos jogar no nosso esquema normal, com os sectores bem definidos, sem apelo às compensações, é acreditar em milagres. Nani e Cristiano Ronaldo vão ter de ser avançados, mas terão de ser igualmente médios e até defesas. Como o fazem, respectivamente, no Manchester United e Real Madrid. É nestes jogos, de concentração máxima, que precisaríamos de Mourinho para poder persuadir os jogadores que, para vencer a Alemanha, não há outro caminho senão trabalhar, trabalhar, trabalhar. Não há lugar para caprichos ou egos. No meio-campo vai estar a chave do jogo. É preciso trancá-lo. No centro e sobre as faixas. por isso, em missão defensiva, o desempenho dos avançados vai ser muito importante. A defesa precisará de superprotecção. E, na posse da bola, a rapidez e a eficácia serão determinantes. Com a Alemanha não se pode falhar como se falhou com a Turquia.
Eé muito importante que a “limpeza de balneário” feita em nome da total autonomia de Cristiano Ronaldo, dentro e fora das quatro linhas, na Selecção Nacional, produza efeito. Está na hora. Não é fácil combinar excursionismo com profissionalismo. Esta direcção da FPF ainda não fez nada que travasse a ideia de que, para os jogadores, a Selecção Nacional não é mais do que o recreio dos clubes. E a culpa não é totalmente deles, que são induzidos a pensar assim.
