Tacuara versus Cha Cha Cha

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Tacuara versus Cha Cha Cha
Tacuara versus Cha Cha Cha

Um é cavalheiro em terra de predadores, o outro é um pragmático implacável para as feras que o cercam; Cardozo transmite a imagem mentirosa de homem inofensivo, o outro é uma espécie de Jack(son), o Estripador.

1 - Tal como o corredor depende do cronómetro e o saltador não engana a fita métrica, o avançado-centro jamais terá sossego se mentir eternamente ao golo. Sendo o futebol um jogo coletivo, no qual cada elemento deve pensar e agir de modo a resolver problemas em conjunto, o golo tem assinatura, logo é obra de um homem só, mesmo quando, em boa verdade, não devia ser. O golo é suscetível de criar heróis num dia bom ou mártires para toda a vida num dia mau. Por isso, o individualismo, defeito de qualquer futebolista, é virtude atribuída aos homens do último toque, caracterizados por confiança insolente nas suas capacidades, que os torna obsessivos, resistentes ao tédio, à solidão e quantas vezes às recriminações que começam nas bancadas e se refletem, mais cedo ou mais tarde, nas páginas dos jornais.

2 - Oscar Cardozo é um caso cada vez mais raro no futebol moderno, porque resiste à inatividade mantendo a concentração em níveis altíssimos; por ser um predador que exerce em parcela de terreno reduzida (grande área e suas imediações) e nunca se deixa levar pela tensão do momento; porque observa e procura o instante de intervir, sustentando a ação num jogo posicional perfeito, qualidade com que atenua os efeitos de uma certa passividade perante os acontecimentos. Tacuara não participa no desenho ofensivo da equipa porque não tem espírito guerreiro e reconhece as suas limitações fora do habitat natural; mas por detrás daquela capa desinteressada e fria vive um atirador temível, com precisão sublime no uso de armas que mantém escondidas até ao último instante.

3 - Jackson Martínez não é uma peça solta da engrenagem. Faz parte dela. Marca como um especialista e ainda participa na construção do jogo como se fosse um operário; tem todos os sentidos orientados para a baliza mas dá-se ao luxo de rejeitar o egoísmo. É um ponta-de-lança com estilo mais próximo da época em que vivemos – mais abrangente e imprevisível, justamente por ter mais soluções na chegada à área. Se Cardozo marca quase tudo de pé esquerdo (8 em 12 golos na Liga, nenhum deles obtido com o direito), o colombiano dá nome às celebrações das mais variadas formas: de pé direito (4), de pé esquerdo (3) e de cabeça (4), com o bónus precioso de uma acrobacia inesquecível frente ao Sporting, concluída com extraordinário golpe de calcanhar.

4 - Tacuara assemelha-se a um cavalheiro da alta nobreza em terra de predadores, Cha Cha Cha é um pragmático implacável, ainda mais perigoso e temível do que as feras à sua volta; um transmite a imagem mentirosa de homem inofensivo, gentil e bem-educado, o outro é uma espécie de Jack(son), o Estripador por toda a frente de ataque; um parece indolente e distante, sem beliscar a pontaria infalível, o outro é ágil, implacável e solidário, sem perder de vista a baliza adversária. Em causa está a diferença entre requinte e suor; especificidade e abrangência; frieza e emoção. Ambos têm soluções personalizadas para cada problema e representam formas antagónicas no modo como satisfazem as mesmas exigências (o jogo), cumprem o mesmo requisito (o golo) e são intérpretes sublimes do mesmo espetáculo (o futebol). Estão condenados a ser figuras do grande clássico.

A autoridade que Luisão traz

Há futebolistas que são muito mais do que jogam: são também aquilo que representam.

Mais do que um central de fiabilidade quase absoluta, Luisão traz agregada a autoridade como líder da equipa e a representação das ideias do treinador em campo. O brasileiro não é tecnicamente perfeito, mas um defesa não precisa de íntima relação com a bola para exercer. O capitão não tem (nunca teve ou terá) a classe dos artistas mais deslumbrantes; mas há muito que o grande central não é o mais brilhante na resolução de problemas, para depois as intervalar com todo o tipo de imprecisões. O melhor é aquele que não comete erros. E Luisão comete poucos, mas mesmo muito poucos.

Três minutos em dois meses

O russo pode jogar na Luz pela segunda vez na vida. A primeira foi pela Rússia no Euro’2004.

O físico de Marat Izmailov é o seu principal obstáculo para atuar no clássico. Tendo James lesionado e Atsu na CAN, Vítor Pereira dificilmente abdicaria do ex-leão num dos flancos do ataque portista. Mas a situação é anormal porque, desde 4 de novembro de 2012 (titular em Setúbal, na estreia de Vercauteren), o russo participou em apenas 3 minutos (com o Benfica). Estar já em condições de competir adensa o mistério. Indício de que duas partes ficaram a ganhar com o negócio (FC Porto e jogador) e a outra nada perdeu (Sporting) – esta porque há muito apostava numa estrela sempre indisponível.

Génio da bola que se despede

Tudo aponta para que Aimar abandone o Benfica ainda este mês, com destino ao Oriente.

O tempo é fundamental para interpretar a história, logo não é este o momento certo para medir a importância definitiva de quem parte. El Mago está de saída e as longas ausências por lesão sugerem que a sua falta será relativa para o Benfica e até para o futebol português. Não é de todo verdade. O 10 encarnado tornou-se num dos estrangeiros mais extraordinários que passaram pelos relvados nacionais, uma daquelas figuras ímpares só comparáveis aos maiores craques do passado. Podia ter sido ainda mais marcante, mas o que fez é suficiente para todos o declararmos inesquecível.

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