TAS aqui
Não surpreende a decisão do TAS em relação ao castigo imposto pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) ao ex-selecionador nacional, Carlos Queiroz. A anulação da suspensão de 6 meses de toda a atividade desportiva reforça a convicção de que um organismo tutelado pelo Estado não observou, com rigor, aquilo que estava sob escrutínio, decidindo em causa própria e sem condições “ab initio” para se colocar acima de quaisquer interesses pessoais e corporativistas. A decisão do TAS foi uma resposta ao despotismo e à promiscuidade.
Sempre defendi que o comportamento de Carlos Queiroz tinha sido inapropriado e que, perante ele, deveria ser sancionado, no máximo, com uma pena leve. Sobre as palavras proferidas pelo ex-selecionador, independentemente do enquadramento em que elas foram ditas, nenhuma dúvida: foram excessivas.
Não era isso, todavia, que estava em causa. O que estava em causa – e constou do acórdão da ADoP – era a acusação segundo a qual o ex-selecionador nacional havia perturbado a recolha das amostras do controlo antidoping efetuado na manhã de 16 Maio de 2010, uma acusação grave porque deixava implícita a ideia de que Carlos Queiroz se colocava nos antípodas daqueles que se consideram os guardiões da batalha contra o doping no desporto. Nada de mais farisaico e falacioso.
Este é um bom “caso de estudo” para se perceber como podem ser atropelados, sem dó nem piedade, os direitos de qualquer cidadão.
Os falsos moralistas e as virgens ofendidas deixaram o “caso” fechado na gaveta até se tornar conveniente colocá-lo em cima da mesa, com as deturpações que se conhecem.
Ainda hoje alguns acharão que o ex-selecionador não merecia outra coisa, misturando o que não deveria ser misturado. A ignorância está sempre pronta a dizer bem de si própria. A insídia, também. O que não pode ser tolerado é que a ignorância seja utilizada por titulares de cargos públicos ou personalidades que representem outras formas de poder para, abusivamente, empolarem aquilo que achem conveniente empolar e relativizarem aquilo que entendem por bem relativizar.
Não estava em causa a capacidade do ex-selecionador em escolher jogadores. Não estava em causa a apetência do ex-selecionador em preparar os atletas para a competição. Não estava em causa o modelo de liderança. Não estava em causa a o juízo, sempre subjetivo, da escolha das táticas.
Nada disso estava em causa, nem o comportamento desportivo da Seleção Nacional no último Campeonato do Mundo. O que é grave é que pessoas supostamente responsáveis como deveriam ser o secretário de Estado do Desporto, o presidente do IND, o presidente da ADoP e a Direção da FPF, montados em cima dos poderes que manobram o futebol português, viciado na sua falta de independência e contando com sectores da comunicação social ao serviço de interesses nunca confessados, aceitaram tudo misturar apenas porque decidiram que tinha chegado a hora de apear o selecionador nacional. Ironia ou não, a queda das máscaras coincide com a queda do Governo.
