Tiba veio de outro planeta
1 A principal vantagem do ensino académico é permitir conquistar etapas com segurança na construção de um jogador. O risco é que, levada às últimas consequências, a aprendizagem pela via científica pode danificar o instinto e afetar a liberdade criativa, sagrado valor para que o crescimento se adeque à sensibilidade de cada um. O futebolista pede respostas e solicita ao treinador sentido de orientação. É verdade que a base do jogo continua a ser a qualidade individual mas o êxito depende da coordenação de todos os elementos em causa. É essa capacidade para adaptar o talento a um projeto coletivo e melhorar o produto final, entendendo a complexidade do que o rodeia, que faz de Pedro Tiba um caso sério. Também pelo indomável desejo de superação que o caracteriza.
2 Menos de dois anos depois de jogar no Campeonato Nacional de Seniores, é extraordinário que um jogador possa triunfar ao mais alto nível, não apenas pela habilidade traduzida em soluções avulsas mas pelo entendimento global do futebol; não só pelo modo como finta as armadilhas que vai encontrando pelo caminho mas pela capacidade de antecipar o que vai suceder três passos à frente; não por invenções momentâneas mas pela gestão da vasta cadeia de acontecimentos cuja gestão deve ser feita sem surpresas. Tiba é um autodidata que se tornou líder (por presença, fiabilidade e exemplo) de uma das melhores equipas do futebol português. No Sp. Braga, ao lado de Danilo (um dos melhores médios da Liga) e Ruben Micael (o maestro incompreendido), está a exceder todas as expectativas.
3 Tem intensidade e abrangência; é influente, solidário e versátil, o que lhe permite zelar pelo equilíbrio atrás e ser fonte de explosões à frente. Tiba possui técnica refinada e visão escandalosa; é forte, rápido e resistente, articulado na condução e perfeito a lançar à distância. Vê-lo em campo sugere que decorou toda uma enciclopédia de como se joga futebol. Por intuição assimilou os princípios que sustentam e orientam uma comunidade; por inteligência despertou os sentidos para assimilar a lógica do funcionamento coletivo a partir do local onde tudo começa: a zona central do terreno. Sinal de que, antes de receber os ensinamentos de quem geriu o impacto com o novo meio (José Mota e José Couceiro), recolheu toda a informação possível nas peregrinações menores que marcaram o percurso até chegar ao V. Setúbal – Valdevez, Valenciano, Limianos, Tirsense e os gregos do Kastoria.
4 Paradoxo de uma carreira em que tudo lhe aconteceu tão devagar, aos 26 anos tem de apressar-se: já não tem todo o tempo do Mundo para chegar onde merece. Precisa agora de apetrechar-se com argumentos táticos adequados ao patamar onde chegou, mantendo a confiança em Sérgio Conceição e no trabalho detalhado levado a cabo para clarificar competências e depurar o acerto nas decisões que toma. Pedro Tiba é um rio deslumbrante, guiado pelas margens seguras do conhecimento de quem o orienta; o caudal gigantesco da água tem a força suplementar da indómita vontade e da convicção inabalável de quem luta para ser alguém na vida. Já percebemos como nasceu, estamos rendidos à corrente que o leva, falta saber onde vai desaguar. Basta que o destino não se distraia, porque tem encontro marcado com o patamar mais elevado do futebol português e europeu. É um jogador que veio de outro planeta.
Génio mascarado de gente normal
Poucas situações causam tanto incómodo no adepto como ver um génio roçar a vulgaridade
Nani não perdeu apenas inspiração desde que se lesionou no Bessa, há mais de dois meses – às vezes parece mesmo ter esquecido princípios elementares da ação. Não está em causa o compromisso que mantém com a equipa mas o efeito quase nulo do seu talento na produção coletiva. A indiferença já é penalizadora para um jogador com tanta responsabilidade; mas o pior são os movimentos errados, os gestos técnicos imperfeitos e as decisões sem sentido que o mascaram de gente normal.
Fábio Sturgeon para lá do físico
As qualidades mais visíveis ligam-no a emoções provocadas por esforço, dedicação e entrega
Fabio Sturgeon está muito para lá do físico. É um futebolista inteiro, com excelente relação com a bola e enorme capacidade para interferir no jogo: passe, receção orientada, velocidade e articulação motora; ocupação do espaço, colocação perfeita do corpo nos duelos individuais e obstinação no modo como persegue os adversários. A técnica refinada e a entrega incondicional conferem-lhe perfil de grande jogador. Quando melhorar a relação com o golo, assinando ele próprio a obra ou criando condições para que outros o façam, completará o quadro como grande reforço do futebol nacional.
Samaris com caminho livre
Há quem demore a adaptar-se ao novo meio que vem encontrar e à equipa que o espera
Samaris só agora agarrou o papel que Jorge Jesus lhe reservou. O grego já cumpriu quase todas as etapas para assumir a herança de Javi, Matic e Fejsa; assimilou os princípios ideológicos impostos pelo treinador; conhece melhor os caminhos que percorre e acerta quase todas as decisões que toma. Falta-lhe moderar os ímpetos, tantas vezes descontrolados, nas lutas corpo a corpo, cuja consequência tem sido o elevado número de cartões amarelos recebidos. Concluído o período de aprendizagem, tem caminho livre para ser o 6 do campeão nacional.
