Um calmante para o medo
No primeiro dia que cheguei a Madrid, um dos funcionários do Atlético Madrid deu-me um conselho que me deixou muito assustado: "Nunca andes no centro da cidade entre as sete e as dez da manhã. É o horário mais propenso a atentados terroristas." Tinha 21 anos mas percebi que estava numa sociedade completamente distinta daquela que conhecera em Portugal. No bom e no mau sentido. Por um lado, a nível geral encontrei uma mentalidade mais aberta, pessoas mais efusivas e animadas; por outro, uma nação com problemas e medos de coisas que não existiam no nosso país: o terrorismo.
Vários dias depois de chegar aconteceu um dos mais sangrentos atentados da ETA. Foi em Barcelona, a 19 de junho de 1987 - 21 mortos e 45 feridos com um carro-bomba que estava no estacionamento do centro comercial Hipercor. Entrei em pânico. Não podia acreditar nas imagens que estava a ver na televisão. Era um autêntico inferno, com várias crianças mortas.
Naquele dia nasceu um medo que desconhecia dentro mim. Um atentado 'etarra' era uma lotaria que podia acontecer a qualquer pessoa quando menos esperasse. Os anos foram passando e o meu medo e a minha preocupação triplicaram quando os meus dois filhos eram adolescentes. Acho que a frase que mais lhes disse nessa altura foi: "Estão proibidos de irem a centros comerciais." Por um lado, o medo do desconhecido mas, por outro, o ódio e a raiva que ganhava a cada atentado destes assassinos.
Como se não bastasse a ETA , anos mais tarde chegou aquele maldito 11 de setembro de 2001. Talvez o dia mais horroroso da humanidade. Começava um novo terrorismo brutal, com atentados suicidas - com a Al-Qaeda e o seu líder Bin Laden nenhum ser humano estava seguro neste planeta. O ódio e o medo aumentaram.
Foi uma época horrível, com muitos atentados, em que o pior da Europa foi em Madrid . Na manhã do dia 11 de março de 2004 dez bombas explodiram em quatro comboios: 191 pessoas morreram e milhares ficaram feridas. Uma barbaridade. Nem em Portugal, que felizmente é um paraíso neste aspeto, me senti seguro, quando no verão do Euro'2004 a Al-Qaeda ameaçou o nosso país. Recordo-me que muitas vezes passei na Ponte 25 de Abril e, ao pensar eu que aquele era um alvo apetecível para os terroristas, as minhas pernas paralisavam de medo.
O último atentado mortal da ETA foi em 2010 e pelos comunicados que têm feito tudo indica que os 'etarras' acabaram de vez. Com esta grande notícia, juntamente com a morte de Bin Laden em 2011, o medo e o ódio começaram aos poucos a desaparecer. Finalmente (pensava eu) podíamos viver em paz, todos aqueles anos de terror faziam já parte do passado; só que tudo isso não passava de um sonho demasiado perfeito. Após os brutais atentados da semana passada em Paris por parte do Estado Islâmico voltou o pesadelo, o ódio e este medo horrível. E pior ainda fiquei quando vi o vídeo de propaganda de jihadistas portugueses. Eram meus compatriotas, não podia acreditar.
Mas na última quarta-feira, quando li a carta de Antoine Leiris aos assassinos da sua esposa, toda esta ira acalmou. A mulher e mãe do seu filho de 17 meses, Hélène Muyal, de 35 anos, estava no concerto no Bataclan e foi uma das 129 vítimas dos atentados de dia 13 em Paris. O texto tornou-se viral nas redes sociais e nos media e a mim não foi indiferente, tocou-me na alma.
Começa assim: "Vocês não terão o meu ódio. Na noite de sexta-feira vocês roubaram a vida de um ser excecional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho, mas vocês não terão o meu ódio. Não sei quem são e não quero sabê-lo, vocês são almas mortas. Se esse deus pelo qual vocês matam cegamente nos fez à sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher foi uma ferida no seu coração. Por isso eu não vos darei o prazer de vos odiar. Vocês procuraram-no, mas responder ao ódio com a cólera seria ceder à mesma ignorância que vos fez ser quem são. Querem que eu tenha medo, que olhe para os meus concidadãos com um olhar desconfiado, que sacrifique a minha liberdade pela segurança. Perderam. Continuamos a viver da mesma maneira."
Este é apenas um excerto do texto escrito pelo Antoine Leiris, estas palavras impressionantes deste homem que perdeu a sua mulher, que perdeu a mãe do seu filho de 17 meses, foi um calmante para o meu medo e ódio. Quando terminei de ler a carta comecei a ser novamente otimista. Era quase impossível acabar com a ETA ou Bin Laden mas foram derrotados, e pelo mesmo caminho irá o Estado Islâmico. Desde estas linhas apresento os meus mais sinceros sentimentos a todos os familiares das vítimas do atentado de Paris e especialmente ao Antoine Leiris, pois após esta autêntica lição tudo farei para o conhecer pessoalmente.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
A única derrota
Fim de semana de Taça de Portugal e logo um com um dérbi entre duas grandes equipas. Recordo-me que a única vez que perdi no mítico Estádio das Antas nos meus três anos como jogador do FC Porto foi num clássico contra o Sporting, também para Taça, e apenas no prolongamento. Acabou 0-1, com um grande golo do brasileiro Mário. Eram as meias-finais da Taça e foi no dia 10/5/1987. Éramos um plantel de ganhadores e moralmente foi duro para todo o balneário perder aquele jogo. Mas recuperámos rapidamente o moral e 17 dias depois entrámos na história. No dia 27/5/1987 , aquela mítica equipa do FC Porto acabou por ser campeã da Europa!
NÓS LÁ FORA
Mourinho e Espírito Santo
Depois das grandes épocas que os dois treinadores portugueses fizeram nas suas equipas o ano passado, as coisas não começaram nada bem para ambos, que não têm tido a vida fácil. Mas após a tempestade vem sempre a bonança. Bastam duas vitórias consecutivas para voltar a confiança aos seus jogadores e para as duas equipas entrarem numa dinâmica positiva, começando assim a recuperar o tempo perdido até aqui. Força para os próximos jogos, campeões!
CALDEIRADA DA SEMANA
O caso Neymar
Depois de todo escândalo que envolveu a transferência de Neymar do Santos para o Barcelona, o pai do jogador fez estas declarações esta semana: "Nunca tivemos problemas fiscais desta dimensão no Brasil, mas mal chegámos a Espanha os ataques começaram e agora alastraram ao Brasil. Respeitaremos o contrato que ele tem com o clube, mas não queremos uma renovação sem ter paz de espírito." Com estas palavras, tudo indica que vamos ter uma grande novela e porque não caldeirada entre o Neymar e os culés nos próximos meses!
