Um craque de dimensão mundial

Adicione como fonte preferencial no Google
Um craque de dimensão mundial
Um craque de dimensão mundial

1 - Quando o Inter Milão, a meio da época 1997/98, contratou Paulo Sousa ao Borussia Dortmund, estava implícita a carência de um determinado tipo de jogador, cujas características, de resto, eram sobejamente conhecidas em Itália. Ao fim de poucos dias a trabalhar sob o comando de Gigi Simoni, o internacional português ouviu o treinador dizer-lhe o que esperava da sua contribuição. Que fosse um recuperador e resolvesse os problemas seguintes a esse primeiro passo de duas formas: pontapé para a frente à procura de Ronaldo (Fenómeno) ou galgar terreno pela via de correrias com a bola dominada. O treinador, que tinha Simeone, Zé Elias, Winter e Nicola Berti para cumprir a tarefa, não queria um geómetra; queria mais um para ajudar à limpeza da casa.

2 - A mesma função pode ser desempenhada de formas distintas. Qualquer equipa pode jogar bem e ser eficaz, por exemplo, a partir de médios-centro tão diferentes como Javi García e Matic. Pode organizar-se taticamente pelo posicionamento de uma unidade mais estrita, que assimila e cumpre todos os princípios definidos pelo treinador; mas também pode fazê-lo recorrendo a quem, menos perfeito nessa tarefa, eleve o talento para patamares superiores de excelência, à custa da melhor relação com a bola e das soluções técnicas que levam a zonas mais adiantadas. Jorge Jesus mostrou-nos que um não é melhor do que o outro e que o segredo é definir o modelo de jogo tendo em conta as características do número 6. Disparate foi o de Simoni quando pediu a um dos melhores médios da história do futebol para varrer o chão.

3 - O jogo de Matic tem as marcas da eficácia e é uma constante fonte geradora de emoções, porque preserva a inteligência, apela à superação e é um exemplo de orgulho no que faz. Atingiu tal ponto de maturação de argumentos táticos e de intervenção no jogo que já faz parte das mais extraordinárias obras-primas de Jorge Jesus – e isso traduzir-se-á em números quando chegar o momento de negociar a inevitável transferência. Mas mesmo reconhecendo que a evolução de um jogador está ligada à visão e aos conselhos do mestre, a parte maior de responsabilidade na consolidação de competências tem a ver com o talento e o desejo de aprender do aluno. Matic soube interpretar as causas de um ano como subalterno de Javi García, entendeu que o tempo jogava a favor e tornou-se num fenómeno.

4 - Matic é um jogador abrangente que zela pelo equilíbrio da equipa. Mas essa é só parte de uma verdade mais ampla e complexa. À semelhança dos futebolistas mais extraordinários, não se limita a ser referência coletiva do exército que defende: dita as regras no campo de batalha, administra a guerra, é o dono do espetáculo. Não exerce tirando coelhos da cartola mas cumpre o senso comum com tanta perfeição e intensidade que chega a ser surpreendente e deslumbrante. Matic é o gregário que assume o trabalho sujo mas também veste o fato e a gravata para dialogar com os artistas. Mais do que referência do Benfica e expoente máximo da Liga portuguesa, tornou-se um médio como, de momento, não existe outro na Europa. Seria titular em qualquer dos semifinalistas da Champions. É um craque de dimensão mundial.

Paulo Fonseca recusa milagres

É notável que o Paços de Ferreira lute até ao fim da Liga pela presença na Champions

O futebol sempre foi uma fonte geradora de surpresas. De tal forma que, à falta de argumentos, muitos tendem a explicá-lo como vasta sequência de milagres. Paulo Fonseca cumpre muitos dos requisitos básicos que definem os bons treinadores: sabe escolher (tem olho para ver onde há talento para lapidar) e trabalha de forma a fazer evoluir os jogadores que comanda (todos melhores depois de se cruzarem com ele). O 3.º lugar do P. Ferreira na Liga é surpreendente. Mas não precisamos de recorrer à divina providência para explicá-lo. Basta ver a equipa em ação.

Montanha-russa de André Martins

Há dois tipos de jogadores que não podem suscitar dúvidas: os muito bons e os muito maus

Mesmo contando com o extremo de craques que atravessam maus momentos e de medíocres em estado de graça, não é normal que André Martins viva no Sporting as emoções alucinadas de uma espécie de montanha-russa que inviabiliza a avaliação coerente das suas capacidades. Custa vê-lo tanto tempo fora das opções (sucessivas passagens pela equipa B) mas o mais penoso é pensar que tudo quanto está a fazer agora na equipa principal possa ter, como no passado, o mesmo destino: a indiferença. Jesualdo Ferreira é uma garantia. Com o professor fica mais simples afirmar-se em pleno.

A estrondosa queda do Barça

A eliminação do Barcelona da Liga dos Campeões sugere o final de um ciclo brilhante

A equipa caiu com estrondo aos pés do Bayern Munique e o desastre só teve um ponto positivo: Messi foi poupado à demonstração de decadência daquela que foi a melhor equipa dos últimos 20 anos e uma das mais brilhantes da história. Porém, tirando o peso excessivo dos números e a diferença escandalosa de dinâmica – os catalães foram cilindrados em Camp Nou –, o golpe já tinha sido anunciado, principalmente pelo Real Madrid de Mourinho. O Barça é um clube diferente, que contraria muitas verdades do futebol. Mas não resistiu ao tempo. E à gestão feita por adjuntos sem carisma.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade