Um deus português na Rússia
Ao serviço do Zenit, Danny tornou-se reserva espiritual de um futebol cada vez mais previsível e mecanizado: é a estrela maior de uma liga na qual é o mais aclamado herói, o guerreiro temível com armas de veludo e o mago deslumbrante com truques nos pés. Melhor é impossível.
1 - Pertence à estirpe dos artistas de outra galáxia que não usam catálogos de soluções conhecidas, antes preferem inventar pelo caminho. Quando se faz à estrada, Danny confia no instinto, na imaginação e na capacidade para tomar decisões na hora. As suas deambulações enigmáticas nos arredores da área constituem a antecâmara de rasgos que podem fazer explodir um estádio inteiro. Não sendo bem uma peça solta da engrenagem, é um talento de toda a frente ofensiva, que tanto pode jogar encostado a um dos flancos, com a missão de fazer diagonais que o levam à baliza, como atuar na zona central, no apoio direto ao ponta-de-lança. Quando tudo sai bem, é deslumbrante vê-lo descobrir espaços que se julgavam inexistentes; quando sai menos bem, acumula faltas e cartões, criando agitação geral que também costuma estabelecer diferenças.
2 - Movimenta-se no ataque com a visão e a habilidade de um maestro e joga atrás com a tensão competitiva e a obstinação dos grandes avançados. É um jogador desequilibrante em qualquer ponto do campo, revelando múltiplas conexões na progressão participada de que se torna denominador comum. Danny transforma-se, muitas vezes, numa serpente frenética, inimiga da linha reta, que vai aumentando o perigo à custa de sucessivos movimentos de aproximação ao golo. Esse processo mostra-o comprometido, ambicioso e inteligente na escolha de se deve convocar os outros a ajudá-lo ou se deve, ele próprio, arriscar épicas aventuras individuais que já estiveram na origem de alguns momentos inesquecíveis.
3 - Danny devolve o futebol à pureza das origens, sustentado na tecnologia de ponta que continua a ser a liberdade, o talento, o instinto, a malandrice e a picardia, como estímulo sistemático ao engano e às mentiras contadas com o corpo todo. Ao fim de nove anos longe de Portugal, desenvolveu a arte de abrir portas, derrubar muralhas e pôr carrosséis a funcionar com um só toque na bola. É um visionário que inventa milagres por todo o espaço de ataque, capaz de oferecer, em hora e meia, várias das prendas mais apreciadas pelos companheiros que se movimentam à sua frente: a bola e a baliza adversária. De qualquer modo, essa é só uma parte da verdade, porque os doze golos no campeonato superam, afinal, as onze assistências que já assinou.
4 - Tantos anos na Rússia impediram-no de ser uma referência mundial – pena que só tão longe do país que traz ao peito lhe tenham atribuído o justo valor. Sobrevivente à regra universal de que até os génios estão obrigados a trabalhar como funcionários, Danny nunca permitiu que lhe domassem o ímpeto de encarar o jogo como fonte de criatividade e fantasia. As notícias que chegam de São Petersburgo conferem-lhe o estatuto de reserva espiritual de um futebol cada vez mais previsível e mecanizado; de estrela maior de uma liga cujo brilho o coloca na pele do herói mais aclamado; de temível guerreiro com armas de veludo e mago deslumbrante com truques nos pés. O sentimento que provoca por todo o lado é um hino que só alguns (os do Zenit) veneram mas todos respeitam. O fenómeno atingiu proporção tal que até já lhe chamam deus. Melhor é impossível.
Defender bem e atacar mal
Para lá de espetáculo e indústria que movimenta milhões, o futebol continua a ser um jogo
O ideal de felicidade para qualquer adepto é que a sua equipa vença com sentido estético apurado. Em Madrid, o Chelsea defendeu muito e bem, perante um Atlético que atacou muito e mal – o 0-0 foi, por isso, um resultado aceitável. Em Liverpool, com uma equipa de segundos planos, José Mourinho voltou a exigir dos seus jogadores que defendessem muito mas não lhes negou a hipótese de atacar. O Liverpool foi inofensivo com a bola e ainda ofereceu dois golos. O que ditou o resultado não foi só o Chelsea defender bem. Foi o Liverpool atacar e defender mal.
Grandes lições de Luís Castro
A derrota na meia-final da Taça da Liga selou definitivamente o insucesso portista em 2013/14
Luís Castro é a última imagem do desvario em temporada iniciada a pensar no tetra. Mas não vale fazer tábua rasa de todas as etapas percorridas, desde o início da temporada, e que nos trouxeram até aqui. Os resultados não foram agradáveis, a tendência derrotista manteve-se e, em certos casos, acentuou-se. Mas o treinador deu algumas lições, a começar pelo sentido de missão e a prosseguir com a nobreza que orientou o seu discurso. Isso de falar sempre na primeira pessoa do singular quando perde e na primeira do plural quando ganha tem muito que se lhe diga. Define o caráter.
Falta apenas um golo à Juventus?
A partir de agora, só há uma competição em que o Benfica não é favorito: a Liga Europa
Depois do título nacional, os encarnados jogam duas finais com o Rio Ave, para as quais partem claramente na frente, e a competição europeia, na qual têm uma vantagem: entram para o jogo decisivo, e de maior coeficiente de dificuldade, a ganhar por 2-1. Ao Benfica servem dois resultados (vitória e empate) e até pode haver derrotas que lhe permitam regressar a Turim para o jogo decisivo, com Sevilha ou Valência. Diz o sítio da UEFA que a Juve está a um golo da final? É capaz, depende de quantos golos marque o Benfica. Isto a menos que saibam alguma coisa que desconhecemos.
