Um espécime a preservar

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1 Jorge Valdano, que mede 1,87m e foi atacante de nível mundial, acredita que tudo quanto lhe faltou como futebolista se deveu ao excesso de centímetros: “Um dos problemas que tem ser jogador de futebol é a distância entre o cérebro e os pés.” Sendo uma teoria como outra qualquer, funciona como suporte ideológico para o preconceito habitual em relação aos atacantes de grande porte atlético, qualificados como toscos, medíocres e sem futuro. O gigante Hugo Almeida é a nova conquista do FC Porto. A sua atitude perante o jogo é depurada pela honestidade, pelo entusiasmo juvenil e pelo desejo de contribuir para a resolução dos problemas colectivos. Apesar dos golos, da juventude e da eficácia suscita as dúvidas do costume.

2 Hugo Almeida tem evoluído ao sabor do vento. No FC Porto por falta de lugar; em Leiria e no Bessa pela necessidade de tirar partido automático das suas qualidades, nunca sentiu amparo pedagógico para se fortalecer técnica e tacticamente. Internacional em todos os escalões (como Bruno Vale e Hugo Viana), tem aproveitado as selecções jovens como refúgio de compreensão e afecto; como sala de aprendizagem e crescimento sustentado; como balão de oxigénio para redescobrir a confiança e a motivação que, ciclicamente, lhe têm faltado. Agora, como titular do FC Porto, dispõe de boa oportunidade para desmontar a ideia de que só é útil em cenários insidiosos de barafunda na área e desespero nas bancadas. Co Adriaanse tem a obrigação de rectificar a imagem de quem chegou a ser visto, apenas, como carne para canhão.

3 Do alto de 190 centímetros e assente na consistência de 90 quilos, Hugo Almeida precisa de crescer sob orientação de um trabalho mais detalhado, capaz de o fazer clarificar competências, acertar as tomadas de decisão e interpretar todas as regras da função que desempenha – faz o que sente mas nem sempre faz o que deve. Só assim poderá melhorar a destreza motora na condução da bola e a capacidade para combinar longe da baliza; só assim estará apto a potenciar a movimentação e a excelência de um pé esquerdo que opera milagres pela via explosiva; só assim poderá aumentar o ritmo de jogo, o tempo em acção e a influência na equipa. E das duas uma: prossegue a evolução e mantém o nível actual (que já é interessante) ou é objecto de um investimento sério e pode atingir patamares excepcionais de qualidade.

4 Seja como for, Hugo Almeida é um animal futebolístico fascinante. Entre a fauna dos pontas-de-lança portugueses, mais do que uma raridade, é um espécime único e, por isso mesmo, demasiado valioso para ser abandonado à sorte ou ao azar das circunstâncias. Nesta fase de indefinição, é imperioso colocá-lo numa espécie de reserva protegida, nas mãos de quem assuma o desígnio de o aperfeiçoar. Para já, sabemos que não é um fruto prematuro do mérito, mas a semente de esperança de um jogador que terá uma palavra a dizer ao mais alto nível. Hugo Almeida é um rio de exuberância física, agitado pela indómita vontade de participar e ser útil; precisa apenas de ser enquadrado por margens que aproveitem a corrente, orientem o caudal e definam um objectivo. Dele já se sabe onde nasce e como corre. Só falta saber onde vai desaguar.

Grande momento de futebol

Foi imediata a percepção de que era um lance para a história da Liga: Sá Pinto pegou na bola, viu sem olhar o avanço do guarda-redes, calibrou o toque subtil e ensaiou o chapéu (teria sido um golo fantástico); Jorge Baptista, adiantado e com os olhos postos na bola, foi surpreendido com a intenção do adversário e teve de fazer um voo extraordinário para trás (a defesa foi assombrosa). Um grande momento de futebol.

A festa do empate

Em Barcelos, Liedson facturou ao cair do pano; iniciou então a tradicional corrida preguiçosa, com a mão na orelha para ouvir os adeptos, sinal de que o empate o satisfazia plenamente. Paulo Bento deu veemência gestual à razão e transmitiu do banco o que aprendeu no relvado: no Sporting é proibido festejar outro resultado que não a vitória. E, como tem mais que fazer, convém-lhe não ter de repetir aquilo que todos já deviam saber.

Um génio chamado Benachour

Impulsionado pelo génio de Benachour, o V. Guimarães está a recuperar. Fizeram bem os dirigentes vimaranenses em esperar pelos resultados, confiando na competência de Jaime Pacheco; percebem agora os adeptos a imprudência dos julgamentos precipitados e a injustiça dos lenços brancos. Face à actual realidade, o tunisino é o rosto da esperança no clube com maior apoio popular a seguir aos grandes. Quando aquela gente orientar melhor a força que tem, será um caso sério.

Sem paciência para aturá-los

Ao contrário do que tentam explicar, o adversário dos árbitros não é o erro, nem a luta desigual contra a evolução tecnológica do Mundo. O pior é quando o disparate se multiplica por 90’, sempre em prejuízo dos mesmos; grave é quando, depois de assinalar um “penalty” vergonhoso, se expulsa um jogador com gestos patéticos de toureiro fora do habitat. Depois vêm dizer que se enganaram; retractam-se e prosseguem a vidinha até próximo escândalo. Um dia destes, porque são jovens e têm futuro, dão-lhes as insígnias da FIFA. Começa a faltar paciência para aturá-los.

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