Um eterno regresso à infância

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O meu primeiro sonho foi ser jogador de futebol. Via o meu Pai jogar à bola como um craque, misto de velocidade e técnica, e tentava fazer como ele. Com o tempo percebi que só terei herdado dele metade do jeito, embora grande parte do gosto e da paixão pelo jogo.

Pelo início da adolescência, ali pelos 13 anos, fiz outra descoberta: não valia a pena tentar ser um futebolista mediano, mas a minha vocação para o jornalismo fez-me acreditar que talvez valesse a pena escrever sobre Futebol.

E assim foi.

Comecei no jornalismo aos 15, corria o ano de 1993, ainda "A Bola" tinha formato "broadsheet" e saía quatro vezes por semana. Não foi há muito tempo: foi noutro planeta. Um planeta em que era possível na edição de quinta-feira entrar um jogo que se realizara na segunda ou na terça. Um planeta sem internet, sem redes sociais, em que a TV em Portugal estava a abrir-se aos privados, mas mantinha o monopólio dos "generalistas", a vários anos de distância dos canais por cabo.

Um Campeonato do Mundo de Futebol é um radar temporal que me reencontra com o passado. Nascido em 1978, o Espanha-82 tem para mim memórias muito vagas. Esparsas. O México-86 foi o meu "primeiro Mundial". Tinha oito anos, os jogos que começavam às 23h na nossa hora eram proibidos para ser ver em direto. Lembro-me de só ter sabido do golo do Carlos Manuel à Inglaterra quando acordei no dia seguinte. E também só soube do descalabro com Marrocos no "day after" do fracasso luso. Mas vi em direto o golaço do Josimar, lateral do Botafogo, à Irlanda do Norte, e um extraordinários 4-3 num Bélgica-URSS decidido no prolongamento. E dos dois golos de Maradona à Inglaterra (o "slalom" e a "mão de Deus"), numa tarde televisiva entrecortada entre o Argentina-Inglaterra e um Grande Prémio da Fórmula 1.

Quatro anos depois, no Itália-90, tinha 12 anos e escrevia para mim, em textos batidos à máquina, crónicas dos jogos que via. Os golos de Schillaci, o penálti de Brehme na Final. Em 1994 (nos EUA!) já trabalhava em jornais. Lembro o jogaço em que a Roménia de Hagi eliminou a Argentina.

A cada Mundial de Futebol teremos sempre uma oportunidade de regressar à infância.

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