Um fenómeno para a história

Adicione como fonte preferencial no Google

1. Tem a chama dos grandes artistas e a aura que ilumina os deuses; no sumptuoso elenco de que faz parte, e apesar do papel menos ambicioso que desempenha, é tão reconhecido como os parceiros imortais; o seu lugar é mais recatado, ao fundo do palco, do lado esquerdo, de onde poucos ultrapassam a fronteira da vulgaridade. Roberto Carlos é uma excepção no futebol de todos os tempos, porque obrigou o foco da lenda eterna a fixar-se numa zona do campo onde nada de relevante costuma acontecer; e é também uma contradição, porque não há memória de uma estrutura muscular tão robusta e exuberante ser posta ao serviço do jogo com tamanho brilhantismo e eficácia. Todo um fenómeno sobre o qual a História ainda não proferiu a última palavra.

2. Roberto Carlos não é só o melhor defesa-esquerdo do Mundo e candidato a melhor de sempre: é o médio mais consistente e um dos extremos com soluções mais seguras. Uma espécie de 3 em 1 que escapou a todas as previsões e foge a todas as regras. Sendo um futebolista com a imagem explosiva de um corredor de 100 metros ou de um "boxeur" implacável, oferece como bónus o sorriso amável e o comportamento de cavalheiro; no meio de correrias e choques intermináveis encontra sempre disponibilidade para resolver assuntos pendentes com adversários directos - abraços, apertos de mão, palavras de conforto, palmadas nas costas, tudo serve para promover a paz. De tal forma que o desvario do último Portugal-Brasil está condenado ao perdão. Não da implacável justiça desportiva, mas daquela que pertence a cada um de nós.

3. A velocidade assombrosa tem o complemento da precisão dos gestos; a contundência na chegada é acompanhada pela técnica primorosa à saída de cada lance; a dinâmica, ao contrário do que é habitual num meio cada vez mais tolerante com a brutalidade, nunca fica órfã da inteligência. Roberto Carlos chega a parecer sobre-humano quando desarma à entrada da área e conclui, logo a seguir, junto à linha de cabeceira do lado oposto. Pelo caminho corre e diversifica o reportório: acelera, trava, choca, arranca e muda de direcção; leva a bola e dribla; joga curto e longo; resolve sozinho mas não tem vergonha de pedir ajuda. Essas viagens que o aproximam do destino são curtas-metragens inesquecíveis, todas com final assustador: se vai à linha e cruza, instala o pânico; se flecte para o meio e remata, o estádio pode vir abaixo - ninguém, à escala mundial, dispõe de um tiro tão fácil, potente e certeiro.

4. Roberto Carlos é generoso com o adepto porque não trai os princípios da paixão pelo jogo. Pode chegar atrasado, falhar um passe, cometer um erro posicional, pode até marcar na própria baliza; mas nunca se esquece de que está num palco, observado por milhares e às vezes milhões de pessoas; de que há um espectáculo com o qual assumiu obrigações estéticas que passam também por empenho e atitude. Mais admirável ainda que haver um lateral-esquerdo decisivo na máquina de sonhos que é o Real Madrid, é o profundo respeito revelado pelo futebol em toda a sua dimensão. Porque assume riscos e não se acomoda, usufrui do bem mais precioso de um futebolista grande: não ter medo de ser feliz.

Van Nistelrooij entre a terra e o céu

É um jogador do outro Mundo, a quem se atribui a infalibilidade dos goleadores. Com o Arsenal andou entre a terra e o céu. Falhou um "penalty" e, porque o erro é próprio dos homens, mostrou a sua faceta de mortal; nessa mesma tarde foi agredido por três adversários e a todos reagiu dando a outra face - o que é de extraterrestre.

Van Nistelrooij é, também, a figura de uma selecção holandesa condenada ao "playoff" para o Euro-2004. Em nome do bom futebol, não fiquem pelo caminho, rapazes.

O que é mais importante?

Paulo Sérgio caiu mal e perdeu os sentidos; do relvado vieram sinais de uma tragédia que não passou de ameaça. Eu já desconfiava: melhor que vencer é respirar; mais importante que jogar é viver. Perguntem aos jogadores de Beira-Mar e Paços de Ferreira…

Ter crédito

Miguel deu a Derlei o 1-0 para o FC Porto e por muito menos já o crucificaram na Luz; Sané falhou escandalosamente um golo mas o perdão foi automático, em nome dos dois que marcou ao Benfica. É o que dá ter crédito junto dos adeptos.

Faltam aulas práticas

No fim do jogo no Restelo, Augusto Inácio confidenciou que tem alertado para a necessidade de não perder concentração nos lances de bola parada. Não há, por isso, como duvidar das aulas teóricas que tem dado sobre o assunto. Cléber, batido por Carlos Fernandes na marcação de um canto, provou que "só" faltam as aulas práticas.

Avançar recuando no tempo

Lembram-se quando os maestros se perfumavam antes dos jogos e não perdiam o odor? Agora, correm e lutam como qualquer outro da orquestra, sob risco de assistirem às sinfonias sentados na plateia. Neca recuou no tempo e avançou no terreno; cumprido o serviço atrás, foi à grande área e marcou um grande golo de cabeça. Um justo prémio ao sentido de aventura.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade