Um grande guarda-redes
1. Se é verdade que o guarda-redes precisa tanto de tempo como de agilidade, reflexos e coragem; se está obrigado a adquirir, por acumulação de experiência, sobriedade, serenidade e indiferença face ao exterior, sem danificar sonho, ambição e prazer de jogar; se a disponibilidade para aprender e o talento são armas poderosas para se enquadrar com o jogo e com a realidade em que está inserido, então José Moreira é, aos 21 anos, um dos melhores guarda-redes europeus da sua geração e candidato a marcar o futebol português nos próximos dez/quinze anos. Conta para isso com a vantagem dos predestinados: perfil técnico e psicológico para defender a baliza de uma grande equipa. Em condições normais, cumprirá o destino. Mas nem tudo depende dele: ser apunhalado à traição, ao que parece, não está fora de hipótese.
2. Moreira é senhor de equilíbrio emocional desproporcionado para a idade que tem - se não fosse já teria ficado pelo caminho. Não é mero espectador do que se passa à volta mas recusa aventurar-se em terrenos alheios; rejeita a extravagância que aumenta o nervosismo da equipa mas também combate os perigos da inércia; porque precisa de extrair ensinamentos para antecipar os lances e diminuir a probabilidade de falhas, contempla sem se distrair. Ao contrário do avançado, que desperdiça, marca no minuto seguinte e acaba o jogo com as contas em dia, o guarda-redes está obrigado a digerir o erro, mastigá-lo e resistir à tentação de rectificar o que, afinal, não tem remédio. Um princípio fundamental em equipas de topo mas de importância relativa para Moreira: em quase dois anos como titular do Benfica falhou muito poucas vezes.
3. Em plena fase de crescimento, encontrou estilo próprio e estabilizou processos de segurança defensiva; seleccionou os melhores argumentos e concluiu que, pelas qualidades natas, se sente mais confortável debaixo dos postes - onde é muito difícil batê-lo. Porque desenvolveu inteligência táctica, referenciou as principais características e estimulou o sentido estratégico, só em último caso arrisca ser posto à prova no espaço aéreo - onde não se sente tão à vontade. Precisa de melhorar os níveis de autoconfiança nesse particular: sendo raro vê-lo sair mal da baliza, ainda comete falhas por omissão. Agora que está a consolidar níveis físicos e a adquirir rotinas ao mais alto nível, mantém intactos os atributos referenciados na adolescência. É um felino com posicionamento perfeito e notável firmeza de mãos.
4. Definido por qualidade global elevada, Moreira revela pormenores fantásticos. A fazer a mancha, por exemplo, é de uma precisão extraordinária na colocação do corpo; e já repararam que não sofre golos de ressalto? Para ele, ao contrário de tantos outros, o acto de defender não se esgota em impedir a bola de entrar. Por talento tem sempre mais um recurso técnico em situações de dificuldade; por domínio do espaço e visão periférica sabe enquadrar-se com bola, companheiros e adversários, descobrindo automaticamente as zonas de segurança. Já é um grande guarda-redes e o tempo vai ajudá-lo a ser ainda maior. Pensar em substituí-lo - e o Benfica ainda não tem feito outra coisa - é um devaneio sem suporte futebolístico e uma prova de visão limitada do futuro. Mas, pior ainda, é uma injustiça de bradar aos céus.
José Mourinho e o prenúncio para o Europeu
José Mourinho foi eleito pelos visitantes do sítio da UEFA como melhor treinador da Europa em 2003. A interpretação dos resultados é aquela que lhe quisermos dar, não tem valor científico, não foi determinada pela avaliação crítica de outros treinadores, não contou com a reflexão de jornalistas.
Aconteceu e pronto: esmagou a concorrência. Esta distinção constitui, no mínimo, assim de repente, um bom prenúncio para o Europeu. E tem um condão: é justíssima. Eu também votaria nele.
PASSE CURTO
Há ali qualquer coisa...
Makukula, o avançado grande e desajeitado, recurso nos momentos de desespero por antagonismo de características em relação a Postiga, atravessa fase que obriga a reflectir. Representa o Valladolid e já marcou oito golos na I Liga espanhola - menos um que Raúl. Quer isso dizer que há ali potencial até agora pouco reconhecido cá na terra.
Oásis no deserto
Júlio César não é apenas mais um jogador do Estrela. Quando alguém assina sete dos doze golos apontados pela equipa na SuperLiga, é legítimo dizer-se que ele é, sozinho, a quase totalidade do ataque dos amadorenses. Merece melhor.
Se a moda pega...
Uns destituíram os capitães, os outros mandaram calar os jogadores. Se começassem a ganhar depois da indignidade, a moda era capaz de pegar - não se esqueçam de que há gente para tudo. Como empataram... fica para depois.
Uma exibição impressionante
Luís Filipe marcou um golo, Douala fez dois, Hugo Almeida esteve em três. Mais importante que a aritmética inerente ao 3-3 final entre U. Leiria e Benfica foi a impressionante demonstração do ponta-de-lança que o FC Porto emprestou à U. Leiria. Contrariando o perfil trôpego, acrescentou visão e capacidade técnica (excelente pé esquerdo) aos argumentos já conhecidos (muito forte no jogo de cabeça).
