Um homem de confiança
Domingo à noite, no “Play-off” da SIC Notícias, dois temas quentes dominaram as atenções, relançando uma questão que parece eterna em Portugal: qual o modelo para a Seleção Nacional e onde está o poder do futebol, ou seja quem manda na Federação Portuguesa de Futebol. No meio de tudo isto, e em particular da opinião expressa por dois dos comentadores, também ilustres colunistas do Record – Rui Santos e António Oliveira, o nome de Paulo Bento surgiu na mesa.
No seu afã para defender Carlos Queiroz – de facto tratado na federação como não se tratam os cães da rua, e aí estamos de acordo – Rui Santos decidiu denegrir a imagem do atual selecionador dizendo, entre outras coisas, que Paulo Bento não tinha qualificações para o lugar. É certo que a campanha de Portugal foi má e a exibição contra Israel péssima mas Paulo Bento tem, em geral, boas provas na Seleção com destaque para a campanha no Europeu 2012 onde montou uma equipa coesa e combativa, conseguindo que jogadores medianos que se destacam mais pelo penteado do que pelos dotes futebolísticos, como Miguel Veloso ou Raul Meireles, atingissem um alto rendimento.
Também, ao contrário do que diz Rui Santos, Paulo Bento tinha trabalho feito quando chegou à federação. Os seus anos do Sporting foram bons em matéria de resultados e, ironicamente, no aproveitamento de jovens jogadores portugueses matéria que, com razão, Rui Santos considera conceptual na Seleção e, depreendo, nos clubes. Mas há, de facto, uma pergunta legítima: se Paulo Bento tem esta visão sobre a formação porque não trabalha ele esse capítulo na Federação? Não tenho uma resposta rigorosa mas acredito que Bento não tem, nem consegue ter, um poder transversal sobre a organização do futebol dos diferentes escalões e que assim sendo prefere fazer o seu trabalho bem feito concentrando-se na Seleção principal.
Conhecendo a personalidade de Paulo Bento também se pode concluir que não é o tipo de pessoa que deixe que os outros pensem por ele e, desse ponto de vista, não negando a existência de lóbis poderosos no futebol em Portugal, dificilmente alguém mandará na Seleção. Basta ver o confronto que o selecionador tem mantido e alimentado com o presidente do FC Porto, de longe a personalidade mais forte do futebol em Portugal.
Para estar a salvo da maioria das críticas Paulo Bento tem de qualificar Portugal para o Mundial do Brasil. Se falhar esse objetivo e após uma fase de qualificação que deu uma pobre imagem do futebol português ele deixará de ter desculpa. E, como é evidente, também não terá futuro na federação.
A ESTRUTURA
Com as seleções em ação, as pequenas e grandes questões dos clubes ficam, por uns dias, atrás das costas pelo menos no palco mediático. Assim é com o Benfica cujo regresso à realidade, já amanhã, vai acontecer com os mesmos problemas que dominaram a vida benfiquista neste arranque de época. Qual é o principal? Do meu ponto de vista é a ausência de uma estrutura de suporte ao futebol que liberte o treinador Jorge Jesus, permitindo que este se concentre no seu trabalho em vez de se desgastar em todas as frentes. A ideia de fazer subir (ou seria descer?) Rui Costa parece a melhor porque o antigo jogador é respeitado dentro e fora do clube e deverá ter neste momento a experiência e a autoridade suficientes para ser o líder do futebol.
O que falta então? Eis a pergunta que não tem uma resposta clara para a maioria dos adeptos que continuam inquietos com a instabilidade do Benfica dentro e fora de campo. Não tenho dúvidas de que o clube tem hoje uma estrutura competente para a gestão das questões correntes mas o que está em falta é mais do que isso, é uma liderança que, em articulação com o presidente e com o treinador, tenha uma visão para o futebol do clube e uma voz que seja ouvida. Resolver esta questão é a prioridade de Luís Filipe Vieira.
O regresso da Bélgica
Nas décadas de 70 e 80, sobretudo nesta última, a Bélgica espalhou o perfume do seu futebol pelos quatro cantos do Mundo. Talvez a expressão perfume seja exagerada porque salvo duas ou três exceções, com destaque para o ítalo-belga, Enzo Scifo, o tecnicismo não era o forte de uma seleção que tinha, isso sim, uma eficácia acima da média baseada num jogo simples e direto.
O tempo passou e a Bélgica desapareceu do mapa, tendo a seleção feito campanhas irregulares que não lhe permitiram na maior parte das vezes chegar aos grandes palcos onde tudo se decide. Agora, entre as 12 equipas já apuradas para o Mundial do Brasil, salta à vista a Bélgica com o seu futebol empolgante onde a brigada inglesa, distribuída pelos principais clubes da Premier League, está em destaque. Numa altura em que ainda não sabemos se Portugal chega ao Brasil podemos ter como certo que a Bélgica entra no Mundial com todos os olhares virados para os seus talentosos jogadores.
A estrela (de) Neymar
Como noutras ocasiões, com outros craques, a mudança de Neymar Jr. para a Europa levantou muitas dúvidas. Será que se adaptaria à sua nova vida? E como iria viver na mesma equipa com Messi se até um observador privilegiado como Johan Cruyff levantava dúvidas sobre essa convivência? Quatro meses depois e mesmo com o caminho facilitado pela ausência de Messi nas últimas semanas, Neymar ganhou a sua batalha.
Seguindo um plano rigoroso do treinador Tata Martino, o astro brasileiro entrou lentamente na equipa, ganhou o seu espaço, viu o seu protagonismo crescer e acrescentou à qualidade do seu futebol uma humildade e uma simpatia muito apreciadas na Catalunha. Esta nova vida de Neymar reflete-se na seleção brasileira, onde ele parece mais inspirado e confiante do que no passado. Um Neymar em pleno é fundamental para o escrete chegar ao título.
