Um jogador de excepção

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1. Oferece, à partida, diversidade de estilo e amplitude de acção: surge atrás e à frente, na direita, na esquerda e no meio; joga curto, longo e conduz ele próprio a bola; defende e ataca; dribla e remata; trava e acelera; aquece e arrefece. Não é um especialista, razão pela qual não é o melhor em coisa alguma, e não revela quaisquer preocupações de ordem estética; não se esforça por executar com brilhantismo, não dispõe de um discurso fluente, muito menos se mostra habilitado a vender bem a imagem; mas do conjunto das características ressalta a ideia de que nenhum outro jogador em Portugal concentra gama tão variada de qualidades e exerce peso tão determinante no funcionamento do colectivo. Pertence à elite dos que não se limitam a acrescentar talento individual: multiplica o valor da equipa.

2. Maniche possui vastíssimo reportório defensivo, traduzido na forma como adivinha intenções e antecipa movimentos. No seu futebol todo-o-terreno estão indícios de solidariedade no apoio que oferece aos companheiros; de contundência na chegada à bola e aos adversários; da óptima utilização do corpo nos lances divididos. Como domina os segredos e compreende as regras particulares de cada zona do campo, não se inferioriza quando é obrigado a assumir marcações directas e a recorrer à falta; como tem facilidade em detectar desarrumações nas suas costas, é rápido a rectificar posição, recuperando o espaço de forma quase automática. Camuflado sob parâmetros de rara inteligência táctica, habita um extraordinário jogador que esconde boa parte do seu talento no altruísmo e na eficácia.

3. Seguro a conduzir a bola e hábil na exploração de espaços curtos em associações combinadas, Maniche apresenta argumentos técnicos fantásticos. Pela precisão cirúrgica do passe e a exuberância com que executa a longa distância; por se sentir confortável em qualquer zona do terreno e ter visão ampla do que sucede em toda a parte, o factor surpresa constitui eterno aliado - jamais é apanhado em situações para as quais não tenha resposta convincente. Na aproximação à baliza é temível, porque apresenta espantoso arsenal de soluções que intimidam: é explosivo no arranque, intuitivo na desmarcação e perfeito a inventar diagonais para escapar ao fora-de-jogo; define com critério o último passe e não receia aplicar o remate forte que continua a fazer estragos.

4. A imposição de Maniche como figura de um ciclo de ouro no FC Porto e sob o comando de José Mourinho tem a força acrescida da vingança e representa uma vitória sobre a prepotência, a ignorância e a estupidez; encerra um grito de revolta pela injustiça de julgamentos errados e dos silêncios cúmplices de quem não mediu a extensão do crime; é, generalizando, uma reivindicação de respeito dos atletas perante o Mundo que os rodeia e as instituições que representam. A sua história, até se transformar em referência nacional, é a de um futebolista desprotegido, vítima de grosserias inaceitáveis. É uma vergonha que o Benfica o tenha afastado para a equipa B; mas também foi pena que não tivéssemos, todos nós, a percepção exacta do escândalo. Cá para mim, acho que ainda lhe devemos um pedido de desculpas.

Passe curto

A ESTREIA DE POSTIGA - Hélder Postiga está em dificuldade no Tottenham. Enquanto Viana e Quaresma são medidos por critérios subjectivos, para o ponta-de-lança rambém os números começavam a ser inimigos. Acaba de marcar o primeiro golo na Premier League e logo ao Liverpool. Pode ser que os ingleses percebam, a partir de agora, que têm ali um diamante.

PROBABILIDADES - Pedro Barbosa estoirou com as estatísticas: marcou um golo aos 90'+2. Em 99% dos jogos, o capitão já é um espectador por essa altura. Se aguenta 90'? Salvo melhor opinião, a pergunta deve ser outra: há quanto tempo nos enganam com essas conversas da treta?

VER NA TELEVISÃO? - Júlio César beneficiou de um "penalty" frente ao Belenenses. No fim, questionado sobre o acerto da decisão do árbitro, disse que tinha de ver na televisão. Enigma que significa o seguinte: "O shôr Martins é um bacana."

NOTÍCIAS DO BESSA - A quebra colectiva travou-lhe a exuberância Na Luz, Ricardo Sousa retomou a saga e assinou exibição digna de craque: marcou um golo, deu outro e somou preciosidades. Cá ficaremos à espera de mais notícias.

A corrida de Sérgio Conceição

Regressou a casa, ao cabo de cinco anos como figura do "calcio". A época na Lazio não estava a correr bem e a Selecção Nacional parecia cada vez mais distante. Foi a pensar no Euro-2004 que Sérgio Conceição voltou às Antas, reassumindo assim a corrida com os outros especialistas das linhas. Figo, Ronaldo, Simão, Ricardo Quaresma e Boa Morte são concorrentes de peso, todos já referenciados por Scolari. E como convocá-los a todos não faz sentido, alguém vai ficar pelo caminho.

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