Um monstro chamado Neuer
1 - Helenio Herrera, um dos treinadores mais influentes de sempre, penitenciou-se pelo dano que causou ao futebol ao afirmar que, quando optou pelo líbero (mais dois centrais), o jogador que idealizou não era o opaco Picchi mas o deslumbrante Franz Beckenbauer, que surgiu pouco depois. El Mago aliviou assim o odioso de ter recorrido a repressão e despudor no Inter Milão campeão europeu dos anos 60: imaginou o melhor defesa da história do futebol, utilizou um jogador contundente que não construía. O mesmo se passará com os senhores do International Board quando obrigaram os guarda-redes, no início dos anos 90, a uma participação mais abrangente. Se sobreviveram até hoje, também eles dirão que tomaram a decisão a pensar num modelo imaginário mas que hoje existe e tem nome: Manuel Neuer.
2 - O alemão é o guarda-redes dos tempos modernos, este em que as equipas são compostas por 11 jogadores e não por dez mais um como foram no passado. É por isso incompreensível que a FIFA diferencie jogadores de campo e guarda-redes. Uma estupidez, porque são todos futebolistas, integrados no mesmo universo mesmo tendo funções distintas. Neuer foi a estrela maior do Mundial, pelo que defendeu mas também pela dimensão dada a todas as vertentes da tarefa. A jogar com os pés confirmou riqueza técnica e visão ao nível de qualquer outro elemento da equipa. É o líbero que antecipa os lances, chega sempre primeiro e tem talento para medir a temperatura dos factos. Nunca se engana em tomadas de decisão com influência na coesão coletiva.
3 - Aos 28 anos, aproveitou as vantagens da experiência e consolidou os ensinamentos de uma vida passada debaixo dos postes. Fê-lo sem perder reflexos, agilidade, instinto, ilusão e coragem, armas juvenis que foram a base para o processo de enriquecimento dos fatores adultos indispensáveis para quem desempenha função tão exigente. Ser guarda-redes é tarefa interdita a menores e até os fenómenos são puzzle que se vai completando aos poucos. O poder de intimidar, por exemplo, definidor de um guardião do templo, aumenta com o passar dos anos. Quando sai ao encontro de qualquer avançado, Neuer é muito mais do que um homem: é um monstro com 1,93 m e 92 kg, que ocupa o espaço, reduz o adversário à insignificância e acaba dono da situação.
4 - Neuer é o melhor guarda-redes dos últimos 25 anos; o mais completo na resposta às exigências táticas e comportamentais de um jogo cuja evolução tem passado também pela credibilização do lugar que ocupa. Personifica a evolução tremenda que os guardiões precisaram de fazer para se adaptarem a um novo futebol, porque se antes só defendiam, hoje estão obrigados a jogar também; porque se antes eram peças soltas da engrenagem, hoje fazem parte da máquina, muitas vezes com funções de liderança, coordenação e orientação da manobra defensiva. Neuer é o expoente máximo como elemento tático relevante nas equipas que representa porque, recusando a prisão da grande área, define se a equipa sai a jogar curto ou longo; depressa ou devagar; em segurança ou risco. É o guarda-redes perfeito. Um dos melhores de sempre.
Prémio de Messi não se entende
Até Leo pareceu incomodado quando soube que lhe atribuíram a Bola de Ouro do Mundial
É incompreensível que a FIFAentregue a elementos de Nova Zelândia, Sudão, Hong Kong, Japão, Nigéria, El Salvador e Jamaica, mais outros que, sendo de países da primeira linha, ninguém sabe quem são (a exceção é Gerard Houllier), a responsabilidade de escolher o melhor jogador do Mundial. De pouco serve agora que Blatter diga que achou estranha a decisão. Podem, todos eles, limpar as mãos à parede. Os dirigentes e os votantes. Se o Comité de Estudos Técnicos da FIFA é composto por esta gente, o futebol está entregue aos bichos.
Uma grosseria de Nicola Rizzoli
Não é fácil tomar, em continuidade, boas e relevantes decisões em centésimos de segundo
Essa é a função dos árbitros, elementos desprotegidos de uma luta sem esperança contra o avanço tecnológico da humanidade. Mas nem isso iliba Nicola Rizzoli na grosseria inqualificável que cometeu na final do Maracanã. Higuaín perseguiu a bola e, à chegada, foi literalmente abalroado por Neuer, que lhe caiu em cima e o atingiu na cara com a perna. Só uma dúvida era legítima: se a falta do alemão foi cometida dentro ou fora da área. O que fez o juiz italiano? Com pedantismo execrável, assinalou falta ao argentino. Que por pouco não era vítima de homicídio qualificado. Um escândalo.
O mito Scolari chegou ao fim
O Brasil caiu com estrondo no Mundial e o fracasso já custou o lugar ao selecionador
Scolari foi o rosto da goleada histórica frente à Alemanha (1-7) e da pesada derrota com a Holanda (0-3). Felipão não estraga o que de bom recebe, mas não tem condições para inverter momentos delicados. E isso porque acredita mais na Senhora do Caravaggio do que no valor do treino e do conhecimento –ainda hoje pensa que levou dez golos em dois jogos só porque teve azar. Disse ele que, em condições normais, mesmo a perder por 5-0 ao intervalo com os alemães, podia ter feito 5-4 no segundo tempo, porque o Brasil teve quatro (?) ocasiões flagrantes. O mito chegou ao fim.
