Um passageiro de outro mundo
1 - Quando chegou à porta da locomotiva do grande futebol, poucos o levaram a sério – e só entrou por ser o menino que mostrava os dentes como expressão de felicidade e se comportava como malabarista que inventava truques inofensivos a cada instante. Ainda que os princípios da genialidade já estivessem definidos, o primeiro instinto foi apontar-lhe desfasamento competitivo, leveza nas intenções e superficialidade no estilo. Quando entrou no majestoso teatro de Camp Nou, Ronaldinho limitou-se a fazer o que sabe (jogar segundo as suas próprias regras) e a beneficiar dos favores de uma plateia que, por herança histórica, sabe reconhecer os seus ídolos. Na carruagem de luxo em que viajam os craques da bola, já todos se curvaram perante a magia daquele passageiro de outro mundo.
2 - Ronaldinho é único pelo assombro que provoca, pelas diferenças que estabelece e pela expressão exuberante da arte imensa guardada no corpo franzino e maleável. Impulsionado por agitação permanente, faz explodir a lógica e chega até a sugerir desenquadramento com a realidade: dribla onde não pode e remata de onde não deve; trava em campo aberto e acelera em zonas congestionadas; fala sozinho e com os companheiros mas também com a bola e com Deus – prova de que tudo serve para alimentar os rituais que estimulam a inspiração. É um bailarino que dança com o corpo todo (até com os dentes) e vai acumulando milagres ao longo de hora e meia. Não vale a pena tentar perceber se é melhor ou pior do que os outros; façamos a justiça de reconhecer que é diferente de todos.
3 - Ele é a imagem de um futuro perfeito mas porventura inatingível, tendo por base os valores mais antigos do jogo, com origem no talento natural, na relação com a bola, na liberdade da rua e nos códigos éticos gerados na infância. Pela fidelidade a princípios que jamais traiu, tornou-se reserva espiritual do futebol que pertence ao povo, assente nas emoções que lhe deram a grandeza de fenómeno social e o tornaram veículo de felicidade. Sendo corpo estranho à máquina trituradora, Ronaldinho constitui permanente desafio às leis da física; o fantasma que aparece e desaparece num estalar de dedos; a luz que ilumina, reclama atenções e desperta os melhores sentimentos entre a assistência. Pelo meio, devolve pureza ao espectáculo degradado pelo negócio e dá ao recreio o surpreendente bónus da eficácia.
4 - Ronaldinho Gaúcho representa, afinal, a quinta dimensão do jogo. Sendo já um dos mais extraordinários jogadores do planeta, vive à margem (talvez acima) das mais elementares regras do senso comum; por se situar noutro plano de entendimento das coisas, não integra a corte terrena liderada por Zidane, Figo, Deco, Lampard, Shevchenko, Nedved, entre outros. Ronaldinho exerce, neste futebol prefabricado, o efeito do desenho animado que corrompe, com humor e imprevisibilidade, filmes de “gangsters”, “cowboys”, marcianos, polícias e ladrões. Agora, só precisa que Barça e selecção do Brasil não o abandonem nesta cruzada de altíssimo risco e o amparem com os títulos imprescindíveis para atingir aquilo a que tem direito: um lugar entre os maiores génios futebolísticos de todos os tempos.
O golo não passou de um bónus
Quando recupera o orgulho de ser futebolista e compromete-se em absoluto com a equipa, Geovanni realça a faceta de verdadeiro craque. No Dragão, foi espantoso pelo modo como pressionou, como abordou os adversários directos e foi criando-lhes problemas com fintas, toques e tabelas sucessivas. Em pleno processo de reabilitação, o golo não passou de um bónus.
Assinar uma obra-prima colectiva
O desperdício estava a minar-lhes a confiança mas não afectou o raciocínio. Ao minuto 65, meia equipa do Nacional iniciou bordado em terreno proibido, junto à área vimaranense; a bola foi tocada com malícia e precisão até ao remate de Adriano; o goleador desastrado percebeu que estava em causa não só o empate como uma obra-prima colectiva que era crime estragar. E pôs-lhe a devida assinatura.
Já é tempo de o reconhecer
A cara de menino assustado, que não combina com a exuberante robustez física, é apenas um paradoxo que desvia atenções. O aspecto pesado e pouco elegante desfoca a essência de um enorme futebolista, na recta final de época absolutamente fabulosa. Manuel José é um jogador de todo o flanco direito, que defende e ataca; que vai, vem e ainda apresenta armas para decidir nas bolas paradas. Já é tempo de o reconhecer como uma das maiores figuras da SuperLiga.
Essa coisa de ganhar jogando mal
Escreveu Johan Cruijff no “La Vanguardia” de anteontem: “Cada clube tem a sua missão e esta vai ao encontro do que pretendem os seus adeptos. Quando sabes o que desejam os teus, não há debate possível. Se não dás à tua gente aquilo que ela quer deixam de ir ao estádio. Tão simples quanto isto.” Mesmo sabendo que, sobretudo em grandes clubes, ganhar pode não ser suficiente, Peseiro afirmou que jogar bem não basta e o importante é vencer. Esperemos que o súbito ataque de pragmatismo não nos roube a equipa que melhor futebol pratica em Portugal.
