Um português no trono belga
1. No final de um treino da Selecção, passou por mim triunfante, fez um gesto firme com a mão fechada e falou como se tivesse ganho a Liga dos Campeões: “Mais uma vitória na peladinha. Há 3 anos que não perco uma.” Esse é Sérgio Conceição, o menino que, aos 9 anos, quando foi ao primeiro treino na Académica, já sabia que era extremo e queria ganhar; o rapaz que atingiu o topo do Mundo e vive hoje desterrado na Bélgica, longe dos grandes palcos e, dor maior, dos nossos olhos. Se ao fim de três anos ainda não perdeu rasto à esperança de obter a explicação que merece para o doloroso afastamento, por certo já percebeu que, por cá, lhe fecharam a porta na cara. Enquanto navega nesse mar de dúvida, revolta e incompreensão, rezam as crónicas, alivia a angústia jogando cada vez melhor.
2. Porque a vida nem sempre correu como desejava, adaptou-se às mais elevadas exigências competitivas, impulsionado pela reivindicação constante; porque estimulou o sentido de justiça e reclamou desde muito cedo o direito ao afecto, tornou-se um homem com reacções intempestivas e de uma franqueza ríspida que ainda hoje é preciso saber interpretar e, por vezes, não levar totalmente a sério. Em campo, as rajadas de mau humor que o caracterizam traduziram-se num processo de crescimento futebolístico assente na estética rebelde e no talento exuberante com que contagiou equipas, clubes e até um País inteiro. Inspirado pela vitimização, cresceu, conquistou o seu espaço e, agarrado à memória de uma infância difícil, foi ajustando contas com a vida. A bola seguiu colada ao pé direito.
3. Sérgio Conceição não tem vocação solitária, antes guarda um manual de clareza didáctica assombrosa, concebido para potenciar o colectivo. O seu jogo é feito de constantes explosões à direita ou à esquerda; vai directo à linha de fundo ou faz a diagonal que enquadra com a baliza; é sintetizado pelo centro bem medido ou concluído com tiros mortíferos. Sendo um extremo de referência, não tem dotes de organizador como Luís Figo, nem cumpre os requisitos mágicos de Cristiano Ronaldo e Quaresma; é menos abrangente do que Simão e falta-lhe o perfume que caracterizava Capucho; mas possui articulação motora fantástica, poder físico excepcional e uma precisão sumptuosa no uso das ferramentas obrigatórias para a vida que leva: recepção, finta, passe, cruzamento e remate. É um jogador único.
4. No momento de atingir o trono de melhor futebolista do campeonato belga, Sérgio Conceição abriu um parênteses luminoso na escuridão inconcebível que tem sido, para nós portugueses, a sua carreira no Standard de Liège. Assolado pelo vento da desolação, conseguiu finalmente dar visibilidade a façanhas incógnitas, prova suprema de resistência ao exílio forçado e da qualidade superior com que recusa aceitar a imposição de uma pré-reforma. Quando deixámos de ter notícias dele, era um dos mais fabulosos extremos do Mundo; agora que voltou ao topo do reconhecimento universal, confirma que mantém intactos os fundamentos daquele futebol deslumbrante, musculado, vertiginoso e de execução perfeita. Perdoem a confidência, mas não vejo outra maneira de o dizer: as saudades que tenho de o ver jogar.
O valor da palavra deliberadamente
Os árbitros portugueses resolveram interpretar a lei à sua maneira e quando a bola bate no braço de um defensor em plena área apontam para a marca de grande penalidade. Porque não querem chatices (ou não sabem mais, ou não lhes dá jeito decidir de outra maneira, ou têm de confiar na incompetência dos seus assistentes) riscaram a palavra-chave do problema. Não basta ver se a bola bate na mão de alguém, é preciso avaliar se o acto foi voluntário. O potencial prevaricador só é culpado se o fizer DELIBERADAMENTE. E não é isso que tem sucedido.
FLANCO DIREITO
O nudista acidental
Quando falhou o pontapé e viu a bola na sua baliza, o Mundo tornou-se um inferno; foi como se tivesse ficado nu diante milhares de pessoas, clamando por um buraco no chão para viver sozinho o drama que nem os piores pesadelos conceberam. Mas se a memória vai levar o episódio para a eternidade, que faça um esforço e leve também a informação suplementar: o infeliz chama-se Jorge Baptista e é um dos melhores guarda-redes da Liga.
Um tiro inspirador
Numa equipa feita para atacar a Europa e que, em pouco mais de um mês, se viu a jogar apenas para sobreviver, Silas desempenha papel importantíssimo, com responsabilidade a condizer. Ele é o artista da companhia e o foco desequilibrador do Belenenses. À 19.ª jornada, assumiu finalmente o papel, puxou dos galões e liderou a revolta azul. No fim, coube-lhe pôr assinatura na obra, com um tiro inspirador para o resto da época.
O futebol é um jogo difícil?
Maniche reconheceu imediatamente os cantos à casa, o sítio das mobílias, a arrumação das gavetas, a disposição de mesas e cadeiras – notável sentido de orientação para quem acabara de chegar ao novo local de trabalho. Mesmo com a casa desarrumada pela expulsão de Ricardo Carvalho, agiu como se tivesse nascido e crescido ali, com aqueles companheiros, com aqueles adeptos, orientado por aquelas ideias. Quem disse que o futebol é um jogo difícil?
