Um rei em terra de cegos

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José Antonio Camacho realizou na época passada um excelente trabalho no Benfica e só não ficou na Luz porque andava de nariz no ar para um regresso triunfal ao clube do seu coração, aquele cuja camisola vestiu numa altura que fez dele uma lenda: o Real Madrid. Coitado, mais lhe valia ter permanecido em Lisboa do que ir para o Santiago Bernabéu ao encontro do insucesso que se conhece. Aliás, veja-se como é a vida de um treinador: Camacho entrou no Real em glória e rapidamente ficou desempregado, enquanto José Peseiro, corrido de Chamartín com Carlos Queiroz – substituídos pelo próprio Camacho e sus muchachos – voltou agora à ribalta com a final da Taça UEFA.

A esta vida de altos e baixos, mais de poucos baixos e muitos altos, não tem escapado o italiano Giovanni Trapattoni, que juntou agora o título de campeão português aos sete scudettos e à conquista da Bundesliga que já regista o seu impressionante palmarés, no qual se podem ainda contabilizar uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças, três Taças UEFA, uma Supertaça Europeia, uma Taça Intercontinental, duas Taças e uma Supertaça de Itália, uma Taça e uma Supertaça da Alemanha. Tudo isto entre 1977 e 2005.

Que fizemos nós para merecer ter connosco uma figura destas do futebol mundial? Como sempre, nada. Calhou. Depois de uma apagada presença em Portugal, no Euro 2004, com a selecção italiana, Mr. Trap defrontou-se com um forte bloqueio da sua carreira: aos 65 anos, já não o deixavam trabalhar mais na Série A italiana. E como Luís Filipe Vieira andava à procura de um substituto para Camacho, a Velha Raposa aproveitou a oportunidade, até porque o seu estilo exigente e astuto assenta nas traves mestras da organização e do rigor, precisamente os pontos fracos do futebol português. E se Trapattoni começou a temporada como uma espécie de rei em terra de cegos, a verdade é que melhor a acabou, com a vitória na SuperLiga.

O sucesso do treinador transalpino tem o acrescido mérito de ter sido conseguido ao serviço do Benfica, um dos maiores emblemas da Europa – mais prestigiado no futebol mundial do que Portugal no conceito dos países europeus –, mas a atravessar desde há muitos anos uma profunda crise de identidade.

O caos financeiro em que mergulhou o Glorioso na sequência de gestões catastróficas – Vale e Azevedo paga a factura por inteiro, mas antes dele houve mais quem metesse o pé na argola – conduziu o clube da Luz a um beco sem saída e, se lá não ficou, foi porque Luís Filipe Vieira teve o engenho de cavar o túnel pelo qual o Benfica voltou a respirar. Esse mérito, como o do título que agora se festeja, não lhe pode ser retirado.

Trapattoni chegou à Luz e enfrentou o destino: 10 anos sem o Benfica chegar ao topo e todos os olhares voltados para Norte, de onde soprava o vento forte da arrogância do vencedor da Champions, que ameaçava continuar a reforçar a sua hegemonia. Mas o FC Porto esquecia-se de dois factores: tinha perdido Mourinho, enquanto o Benfica lograra seduzir Trapattoni. Liga dos Campeões? Taça UEFA? Taça Intercontinental? Campeão nacional? Vencedor da Taça? Todo o espólio portista já se encontrava há muito representado na sala de troféus da casa de Mr. Trap em Milão.

Foi este homem maduro – tão maduro que os portugueses da sua idade já se reformaram pelo menos há 10 anos – quem teve a lucidez de aceitar como adjunto um técnico que não era um dos seus, mas que conhece como poucos os cantos à casa e os truques e as espertezas saloias que foram já coveiros de tantos treinadores. E cedo Trapattoni percebeu não só os desequilíbrios do plantel que lhe deram para ser campeão, como as deficiências estruturais de um clube que lutava ainda para vencer as trevas e onde muitos entendiam de tudo e se mostravam prontos a cobrar. Enquanto o rival Sporting se preparava na moderna e funcional Academia de Alcochete, Trap atravessava todos os dias Lisboa para utilizar as vetustas instalações do Jamor. Davam-lhe setas para lutar contra canhões.

Durante 10 longos meses, e não necessitando de outra muleta que não Álvaro Magalhães para o conhecimento do futebol nacional e dos seus segredos, o italiano teve de recorrer à melhor das artes, a paciência, para armar uma equipa capaz de cumprir os objectivos e conseguir dotá-la da resistência psicológica que lhe viria a permitir ultrapassar a desilusão de tantas derrotas inesperadas e por vezes incompreensíveis. E também aí a raposa foi um mestre.

Cumprido aquilo a que veio, Mr. Trap partiu. Mesmo campeão, deixou morrer esta arvorezinha das patacas. Como já está rico, não quis aturar mais Vieiras ou Veigas, nem ouvir os fanáticos a insultá-lo nas bancadas. Parte como um deus, sabendo que honrou o contrato do verdadeiro profissional: fazer o trabalho.

O Benfica foi campeão porque...

...Tendo o mais “estreito” dos plantéis dos três grandes, alcançou o título com esses jogadores e não com teorias sobre as suas capacidades. Esse trabalho de preenchimento dos espaços no mapa da estratégia, onde era preciso meter talento, calhou como uma luva à experiência e sagacidade de Trap.

Ele acabou com a dança dos centrais e a instabilidade de Luisão, encontrou, enfim, o seu defesa-esquerdo, fez crescer Manuel Fernandes, recuperou o futebol superior de Geovanni, compreendeu a utilidade de Nuno Gomes, fortaleceu a liderança de Simão, arriscou na mudança de guarda-redes, foi feliz no ressurgimento de Mantorras. E depois, teve a inteligência de compreender que, tal como o peixe, que morre pela boca, também o futebol português se perde pela assustadora quantidade de asneiras que todos os dias se atiram ao ar.

A gestão dos silêncios imposta por Trapattoni, e o que isso trouxe de tranquilidade ao grupo de trabalho, foi talvez o trunfo de ouro que decidiu uma época. Em Portugal, o calado é o melhor – até um italiano sabe isso.

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