Um sobrevivente à mediocridade
1. Encostado às linhas, perto da plateia que o adora mas longe da bola que ama, vive um rapaz especial, diferente por estilo, atitude e participação; fora do centro de operações, todos os olhares se concentram, mais tarde ou mais cedo, naquele malabarista que desafia a rotina e introduz ironia em cenários austeros. Ricardo Quaresma é um desestabilizador da ordem, um saudável insubordinado que acrescenta soluções personalizadas a guiões que desaconselham, reprimem e até proíbem iniciativas individuais. No meio de tanta recriminação, tem-lhe sido complicado encontrar o sorriso, enredado num dilema próprio dos grandes artistas: faz sempre o que sente mas nem sempre faz o que deve.
2. Quaresma é um transgressor nato que responde com magia às leis da burocracia e inventa quando a indicação é jogar de memória; porque tem fintas exclusivas, das quais podia até registar patente, só reclama um pouco de liberdade para não ser esmagado pela tirania da táctica. Nos dias em que está bem-disposto e se predispõe a obedecer ao que lhe pedem, roga a todos os santinhos para que a palestra seja rápida e não o atormentem com o arsenal inútil e presunçoso de quadros, setas e desenhos, mais os cuidados com adversários, companheiros, treinadores, árbitros, assistentes, dirigentes, jornalistas, apanha-bolas, vendedores de gelados, queijadas e refrigerantes...
3. Mantendo a irreverência e o perfil do espírito livre que foi, é e será eternamente, deu um passo em frente no caminho que há muito lhe parece destinado. Agora que a tormenta de Barcelona ficou para trás, cumpre a sua parte para viver feliz neste futebol de corte industrial. Sendo certo que jamais se renderá à mediocridade, que nunca aceitará vestir a farda e ser igual aos outros, o tempo e as agruras da vida fizeram-lhe bem. É hoje um futebolista mais consciente e menos ansioso no modo como encara os tempos mortos; tornou-se menos exibicionista e mais prático; aprendeu a criar laços fortes de solidariedade com a equipa e a cumprir com outro rigor as tarefas estabelecidas. Talvez seja menos esmagador nos dribles geniais mas ganhou poder de síntese, objectividade, precisão e eficácia na zona de definição.
4. Ricardo Quaresma foi o primeiro reforço do FC Porto 2004/05 a acrescentar talento e a dar-lhe esperança. No arranque da nova época, foram dele os primeiros golpes dignos do ciclo dourado que devolveu o dragão à glória europeia. Ao contrário do que chegou a suceder noutras alturas, o significado dos desequilíbrios excede a mera diversão. Há quase dois meses que alimenta o colectivo com truques deliciosos - que fazem levantar as bancadas e constituem fonte de inspiração para os companheiros -, mas também com passes reveladores de uma visão cada vez mais refinada; com cruzamentos milimétricos, feitos indiferenciadamente da direita ou da esquerda; com golos em número surpreendente. Agora, para recuperar toda a aura de um dos melhores extremos do mundo, só lhe falta o empurrão da equipa. A história segue dentro de momentos.
O instinto físico de Douala
Em Vila do Conde, onde o Sporting valorizou tanto a vitória que se esqueceu de jogar, Douala seguiu o instinto físico (velocidade) acrescentando-lhe argumentos técnicos (drible e passe). O camaronês cumpriu integralmente as instruções do treinador, encontrando, mesmo assim, alguma liberdade de expressão. Com Pinilla mais feliz no remate, podíamos estar agora a falar de um novo herói leonino.
Respeitar os sentimentos das pessoas
Rui Costa marcou ao Benfica, na Luz, e começou a chorar; Batistuta, no primeiro jogo frente à Fiorentina, fez o golo que ditou o triunfo da Roma por 1-0 e tapou a cara; Larsson visitou Glasgow ao cabo de sete anos inesquecíveis ao serviço do Celtic, fez um golo pelo Barcelona e quase pediu desculpas pela desfeita; Samuel Eto'o regressou a Maiorca, onde permanecerá como deus eterno, assinou dois tentos e recusou-se a festejá-los. Os pragmáticos desvalorizam os pormenores, mas é assim que se defende o futebol: respeitando os sentimentos das pessoas.
A importância de Luisão
Para Luisão, ser um grande pilar do Benfica foi mais difícil do que chegar à selecção do Brasil ou mesmo ser cobiçado por alguns dos mais prestigiados clubes da Europa. O defesa é um bom exemplo da realidade portuguesa, marcada pela urgência de retorno imediato nos investimentos mais ousados. Afinal, o rapaz só precisava de tempo, confiança e enquadramento.
Os golos de Manoel
Enquanto não dá o salto para um clube de maior expressão, Manoel vai cumprindo o papel de goleador ao serviço do Moreirense. Por enquanto é o melhor marcador da SuperLiga, com assinatura em três dos quatro golos apontados pela equipa de Vítor Oliveira nas primeiras jornadas do campeonato. Daqui para a frente, personifica a promessa de dar argumentos à ideia segundo a qual Moreira de Cónegos começa a ser pequena para tanta qualidade.
