Uma carreira marcada pelo desperdício
Nunca tem pressa e confia tanto nas suas capacidades que o medo de errar não figura no catálogo das preocupações. Futebolista excecional, que se impõe pela livre expressão de uma arte ligada à bola, ao engano e ao conhecimento de todos os segredos da velocidade, André Carrillo junta fantasia e habilidade a sucessivas expressões relacionadas com travagem, aceleração, mudança de ritmo e direção. Sabemos – ao fim de cinco épocas no Sporting, era o que faltava não sabermos – que o desagrado das bancadas não lhe afeta o rendimento, prova de que, jogando bem ou mal, sendo herói ou vilão, vive com a consciência tranquila. A melhor arma que a técnica lhe concede é ser rápido com e sem bola: ganha terreno em cavalgadas solitárias mas também em associações curtas, através das quais leva, entrega e recebe à frente, método que lhe permite desanuviar o congestionamento do trânsito na via escolhida para levar a água ao moinho.
Em Alvalade, Carrillo raramente foi consensual, porque poucas vezes teve as contas em dia com a plateia. Os adeptos pagam consoante o que recebem e essa retribuição teve, desde 2011, mais assobios e recriminações do que aplausos e juras de amor. O povo leonino afinou pelo diapasão generalizado e, mesmo fora dos hábitos dos manuais do relacionamento entre as partes, aceitou que o artista ficasse em dívida, impulsionado pela ideia de que o perdão hoje seria a manifestação de confiança num amanhã esplendoroso. A grande verdade é que o balanço do peruano com o leão ao peito não é famoso: sim, prometeu o céu quando chegou mas, depois disso, mas tem revelado as oscilações próprias de um talento adolescente, cheio de dúvidas, imprecisões, desvios comportamentais e consistência duvidosa na oferta futebolística. Todas as apreciações se fundamentaram nos mesmos alicerces: “Faz muito disparate mas vai ser um extraordinário jogador.”
O Sporting teve com Carrillo a tolerância e a paciência que lhe faltaram noutras situações. Em nome de uma convicção (tem potencial ilimitado), dirigentes, treinadores e adeptos perdoaram-lhe o profissionalismo duvidoso, a irregularidade exibicional, a irreverência e a leveza do compromisso com a causa verde e branca. Depois da terapia iniciada por Leonardo Jardim e prosseguida por Marco Silva, com quem Carrillo atingiu níveis de excelência, Jorge Jesus preparava-se para lapidar definitivamente o diamante. Foi logo nesta altura em que se intrometeram fatores de agitação como o final de contrato, a escassez de tempo e demais interesses suscetíveis de dar dinheiro fácil a muita gente. Suspendê-lo, instaurar-lhe um processo disciplinar e sugerir que pode até nem voltar a representar o clube foi uma posição de força; resta medir se é a que melhor defende os interesses do clube – não costuma ser boa política abdicar prematuramente de um dos melhores elementos do plantel.
A história está lançada: Carrillo ficará milionário mas desperdiçará nova oportunidade para cumprir o o destino de vir a ser um enorme jogador; estará no centro de grande operação financeira mas adiará, outra vez, a concretização do desejo alimentado na infância, quando imaginou conquistar o Mundo com a bola nos pés. Aos 24 anos, assente num percurso de altos e baixos, no qual a imaturidade tem pesado mais do que talento e paixão, prepara-se para confirmar o futebol como negócio apetecível e indústria gigantesca. A menos de três meses de poder comprometer-se com outro clube e dar outro rumo à vida, de pouco lhe servirá a convicção de que estavam agora reunidas as condições ideais para crescer, consolidar-se no topo e atingir o máximo de si mesmo em Alvalade. Quem lhe orienta a carreira já tomou a decisão. E numa sociedade utilitária e pragmática, romântico é pensar que o mimo e o reconhecimento possam superar o ouro e a fortuna.
João Moutinho virado do avesso
Há jogadores com quem se pode contar em qualquer circunstância
João Moutinho fez tudo ao contrário: costuma fazer-se notar ao fim de 10 jogos, em Belgrado precisou de 20 minutos para ganhar um jogo que começava a perder-se; marcou 2 golos em 79 jogos pela Seleção, em quatro dias fez outros tantos em menos de duas horas; costuma ser ator invisível, notado por um ou outro passe, foi ele o herói final do ciclo de 7 vitórias rumo ao França’2016. Toda uma exceção à regra.
Fernando Santos já fez história
O feito raro do apuramento começou com uma derrota inconcebível
Foi notável a gestão de Fernando Santos para o sucesso da campanha para o Euro’2016: trouxe equilíbrio e bom-senso; apaziguou tensões, resolveu desavenças e pôs todos a remar para o mesmo lado. Esqueceu o desaire com a Albânia e ganhou os sete jogos por um golo, para felicidade suprema de quem reduz o futebol ao resultado. Atenção: jogar mal não é objetivo. O ideal é vencer jogando o melhor possível.
Brasil sem magia desvirtua o ADN
O samba está a morrer aos poucos e eles continuam a não dar por isso
O Brasil abdicou da magia motivado pela receita europeia da tática, da disciplina, da organização… Foi desvirtuando o ADN como reserva espiritual do futebol, passou a jogar pior e, claro, a ganhar menos. O escrete de Dunga corresponde ao acumular de equívocos que o atiraram para o fundo do poço, traduzido na falta de talento em posições nas quais deu ao Mundo alguns dos maiores de sempre. Incrível.
