Uma cruz demasiado pesada

George Orwell escreveu em 1945, que o desporto é "a guerra sem tiros". Convenhamos que é um exagero, mesmo aceitando o seu carater metafórico. Embora a violência associada ao desporto seja tão antiga quanto os próprios jogos e o desporto. É universal e não pertença de uma cultura, de uma época ou de um lugar concreto. Ao estudar-se a história do desporto encontramos em todos os períodos comportamentos violentos dos praticantes, dos espectadores ou de ambos. O que mudou foi o nível de legitimação, grau e tipo de violência bem como se alteraram ao longo dos tempos a apreciação e a legitimação sociais. Querer um desporto sem violência é tão utópico como pretender uma sociedade sem crimes. Não é bonito dizê-lo, mas este é o primeiro passo para combater o problema: percebê-lo.

Quanto mais violenta e agressiva é uma sociedade maior será a tendência a que surjam e se desenvolvam comportamentos desportivos violentos e agressivos. Atualmente a brutalidade da linguagem e a boçalidade cabem no interior do socialmente aceitável. Cânticos obscenos, palavras e insultos xenófobos e racistas, gestos impróprios de gente civilizada, estão dentro daqueles limites. Nas redes sociais usam-se, muitas vezes, termos inaceitáveis. Numa competição desportiva, por mais simples que seja, é habitual serem dirigidas obscenidades a árbitros e jogadores sem que se registe qualquer intervenção policial. Pais de jogadores em competições de crianças e jovens envergonham quem se incomoda com a má educação e os exemplos que se transmitem aos jovens. No futebol, em jogos de maior rivalidade clubista é normal a reposição de bola em jogo por parte de um guarda-redes ser presenteada pela claque oposta por um coro de impropérios à mãe do jogador! De resto, o registo da linguagem dos jogadores às incidências da competição, entre eles próprios, é um exemplo elucidativo do padrão de comportamento. Afinal, o desporto não é para meninos do côro…..

A violência associada ao desporto não se limita à violência física. Esta tem a sua genealogia em muitos comportamentos que lhe são anteriores. Em suporte verbal, gráfico ou gestual. Basta assistir a muitos dos debates televisivos para atestar o estado cultural da coisa. E depois há as claques a "má educação organizada" que o estado democrático legalizou. Existe mesmo doutrina construída que atesta a "pertinência" da medida ao lado de uma extensa produção bibliográfica que documenta que são movimentos liderados por gente e grupos pouco recomendáveis.

Quando os protagonistas do desporto pervertem os seus princípios e valores enveredando numa linguagem que se aproxima mais do mundo desqualificado e sem respeito pelos outros é de temer o pior. Sobretudo quando esses comportamentos vêm de pessoas que pelas suas responsabilidades e o escrutínio público da sua vida cívica não deviam ceder a uma conduta socialmente desresponsabilizante.

Quando a opinião publicada replica, reproduz e amplifica as tensões e os confrontos entre agentes desportivos estamos perante uma narrativa bélica que alimenta posições inflamadas.

A organização de um espetáculo desportivo é, em algumas modalidades, uma verdadeira operação militar. Fardados, paisanos, com ou sem outros auxiliares de segurança, dispõem-se no interior e no exterior do espaço desportivo e controlam os acessos para e do local da competição.Com tanques, armas e bastões. A pé, auto transportados, com cães e a cavalo. Ninguém parece saber quanto custam estas operações. Em despesas com consumíveis, em vencimentos e remunerações acessórias às forças de segurança, em combustível, em equipamentos, em refeições, em material. Alguns lugares, como as "estações de serviço", passam a ter vigilância especial e instituem-se como lugares míticos da violência e da criminalidade gratuita organizada

Este é um problema que ciclicamente emerge quando ocorrem focos de problemas, como este fim-de-semana, sem que se tenha vislumbrado ao longo de décadas uma intenção de romper com este fenómeno de forma séria, determinada e concertada, para além do rasgar de vestes habitual e de pífios discursos proclamatórios.

O moralismo e uma certa crise de consciências reconforta-se com uns quantos lugares comuns numa estereotipada narrativa que "cai bem". A invocação da ética, mesmo que desprovida de qualquer efeito prático, é aceite de forma respeitosa e imperativa. Afinal ninguém está disposto a ser acusado de não contribuir para a causa. Mesmo quando, muitas vezes, pesa o silêncio sobre a violação dos princípios que a ética procura preservar. Esta coabitação entre o que se diz e o que se faz perante o que acontece é singular e preocupante. Porque, como um dia escreveu José Barata Moura, é de saudar a preocupação ética mas precisamos acima de tudo de passar à ocupação ética.

Mudar isto? Sim é possível aumentar o quadro sancionatório que dissuada e puna comportamentos violentos…mas ele só terá sucesso na redução do fenómeno se paralelamente combatermos, pelo exemplo, tudo quanto envolve comportamentos socialmente reprováveis à luz de uma matriz cultural civilizada. Com sistemas desportivos que promovam graus de exigência elevados no domínio dos comportamentos e das atitudes. O desporto seguramente que tem obrigações. Mas é uma cruz demasiada pesada para ser carregada só por ele.

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