Uma equipa fascinante
1 É uma equipa íntima dos adeptos, porque nasceu e continua a crescer à volta da bola, enquadrada por um projecto que não reprime o instinto e faz apelo à criatividade; porque o talento exuberante tem a bênção da juventude, associando ao presente a ideia de um futuro grandioso, transformou-se no alvo privilegiado dos grandes colossos da Europa que, de resto, já anunciaram ter perdido a cabeça pelos seus mais ilustres representantes. Eles são os herdeiros de uma determinada estirpe de jogadores: defensores da grandeza de um estilo; depositários da memória colectiva do futebol português; respeitadores da história que aceitam como parte do código genético e da escola que assumem como referência do seu próprio desenvolvimento. A selecção sub-21 de Portugal é uma das mais consistentes, apetecíveis e fascinantes formações da Europa. Ainda que suportada num título mundial, a "geração de ouro", com o mesmo caminho percorrido, estava mais atrasada na afirmação.
2 A mentira faz parte da sua expressão definitiva. O despudor com que Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo escondem as intenções permite-lhes introduzir a surpresa que dimensiona os efeitos de talento, mudança de velocidade e irreverência. São mestres do drible, imparáveis na progressão, mais eficazes nos exercícios solitários que no jogo combinado; de um palmo de terreno criam um latifúndio, com uma simples simulação arrastam todo o estádio para o engano e não só os adversários; confirmam a aptidão para jogar nas linhas, de onde iniciam as acções, mas tornam-se mais perigosos quando chegam à zona central e se associam ao golo. Encontram então outro cúmplice da tramóia, Hélder Postiga, o ponta-de-lança com alma de artista e muito futebol da cabeça aos pés, que anda por ali como se estivesse decepcionado com a vida, de braços caídos, olhar distante e presença dispersa. Outro mentiroso. É um predador que se transfigura na iminência do golo e resolve ser sincero por instantes. Por norma, é nessa altura que faz mexer a rede.
3 Na Eslováquia, Portugal foi obrigado a falar quase sempre verdade, a dar mais importância ao senso comum, ao cumprimento das obrigações, à organização colectiva e à definição de tarefas no meio campo - trabalho linear e rotineiro que explica a quebra de Quaresma e Ronaldo. Ao invés, Bosingwa tornou-se omnipresente: assumiu a segunda marcação, subiu uns metros quando a equipa conquistava a bola, cortou linhas de passe e ainda se insinuou na primeira fase da construção do jogo. Moreira, Bruno Alves e Ricardo Costa, os últimos obstáculos na zona central, recompuseram-se das oscilações frente à Inglaterra e regressaram a casa sem arranhões; Mário Sérgio e Jorge Ribeiro, confirmada a vocação ofensiva, interpretaram bem o papel de defesas. Pena foi que Hugo Viana e Tiago tenham passado ao lado da magia, incapazes de dar à equipa a sua dimensão total. Foram apenas unidades de um todo, têm por obrigação dar-lhe o estilo.
4 Em nenhum momento se encontraram com a inspiração - e Viana ainda se lesionou. Fugiu-lhes o sorriso e assumiram os deveres básicos, salvaguardando a inteligência na circulação da bola e na ocupação dos espaços. Dois dos mais cotados jovens do futebol europeu agiram como funcionários públicos, zelosos do seu trabalho mas imunes ao contágio de quem encarou o jogo com espírito de aventura e assumiu riscos para ser feliz - em Bratislava, Tiago foi apenas um médio cumpridor. Por último, Carlos Martins, número 10 que toca a bola como os deuses, artista feito de golo, coordenação, visão e generosidade. Ele é a súmula perfeita de arte e ciência; intuição e estudo; precisão nos gestos e abrangência territorial; apoio sistemático e amplitude de movimentos. Carlos Martins comete a proeza de dar eficácia ao bom gosto e funciona para a equipa como o cofre-forte onde a bola está a salvo de qualquer assalto. Ainda não teve direito à palavra. Só nessa altura será legítimo prever se conseguirá atingir o lugar que tem reservado para a próxima década.
