Uma fonte que secou
Na passada quarta-feira a UEFA apresentou números preocupantes, informando que os 650 clubes das primeiras divisões europeias de futebol registaram um défice de 1,6 mil milhões de euros em 2010. A instituição revelou também que os desequilíbrios orçamentais dos clubes do Velho Continente terão sido ainda maiores no ano passado, uma situação que coloca em causa a sustentabilidade do futebol.
Feitas as contas, cada clube europeu tem gasto, em média, cerca de 2,5 milhões de euros anuais acima das suas receitas no mesmo período. Estes valores causam alguma perplexidade, quando sabemos que a União Europeia atravessa uma grave crise financeira, estando a contenção de despesas e as medidas de austeridade na ordem do dia de muitos países. Se estivéssemos a falar de empresas com este tipo de prejuízos, certamente, muitas já teriam falido.
Quando se ouve dizer que “a crise não chegou ao futebol”, uma expressão muito corrente, é bom que se comece a ter a noção de que tudo não passa de uma ilusão. A banca, que era, e ainda é em parte, a grande financiadora do futebol, está cada vez mais descapitalizada e tem fechado a porta ao “crédito fácil”, futebol incluído. Aos olhos do mercado financeiro, o futebol pode ser encarado por muitos como um ativo tóxico.
Por exemplo, se fosse hoje, seria improvável que o Real Madrid conseguisse com tanta facilidade o empréstimo superior a 150 milhões de euros, cedido pelo Santander e pela Caja Madrid, que lhe permitiu comprar os passes de Cristiano Ronaldo e de Kaká.
Privados do apoio da banca, os clubes mantiveram a veia despesista e viraram-se para financiamentos alternativos. O crescente peso dos fundos de jogadores no mercado de transferências (cujos reflexos, positivos e/ou negativos, vamos poder constatar num futuro próximo) e a chegada ao futebol de milionários russos e árabes têm sido pequenos balões de oxigénio na tesouraria dos clubes, isto é, cuidados paliativos que estão a adiar um grande problema.
Neste aspeto, as regras do fair play financeiro, que a UEFA colocará em vigor dentro de duas épocas, poderão ter um papel crucial na regeneração e viabilidade económica dos clubes de futebol. A partir dessa altura, só vão participar nas competições europeias os clubes que não tiveram despesas superiores às suas receitas nos dois anos anteriores. Face ao prémio chorudo que vale a presença na Liga dos Campeões, por exemplo, os clubes vão ter de arrepiar caminho para não arriscarem a perda desse dinheiro.
Esta situação vai, necessariamente, impor uma nova forma de estar no futebol. Não foi por acaso que o presidente do Benfica já avisou que os próximos anos serão mais contidos, sendo certo que a solução terá de passar por uma aposta reforçada na formação, complementada pelo já anunciado regresso das equipas B, solução que será adotada por seis equipas nacionais, entre elas os três grandes.
No plano nacional, as dívidas dos clubes ao fisco voltam a ser novamente notícia, em função de um problema chamado Totonegócio, que se arrasta há quase 15 anos e que os dirigentes federativos não souberam solucionar. É que está em causa a sobrevivência do futebol português. Esperemos que os grandes prejudicados deste imbróglio não sejam aqueles que mais gostam da modalidade: os adeptos dos clubes e da Seleção Nacional.
