Uma palestra para a história
"Estão a 45 minutos de entrar na história!" Estas foram as palavras que o treinador Artur Jorge nos disse e que iriam mudar as nossas vidas para sempre. Estávamos no intervalo da final da Liga dos Campeões, em 1987. FC Porto contra Bayern Munique. Os alemães eram uma das grandes potências do futebol europeu. Eram favoritos para ganhar este título. Marcaram um golo ainda na primeira parte e foram para o intervalo em vantagem. Apesar de estarmos a perder, sentíamos que tínhamos todas as condições para ganhar. Mas o nosso futebol não nos estava a sair. Entrámos no balneário e baixámos a cabeça. Desmoralizados por estarmos a perder 1-0 contra uma equipa que não tinha sido melhor do que nós em toda a primeira parte, mas que tinha sido mais eficaz. Nestas alturas, é preciso uma voz de liderança. Alguém que saiba motivar-te. Alguém que te faça acreditar que é possível! Nessa altura Artur Jorge foi isso tudo. Ele entra no balneário com o seu fato e gravata. Despe o casaco, tira a gravata e arregaça as mangas da camisa. Depois diz as palavras mágicas, palavras que nunca mais irei esquecer: "Meus senhores, levantem a cabeça e olhem para mim. Têm 45 minutos para entrar na história. Isto não é um sonho. Isto está a acontecer e é a realidade. Vocês são melhores do que eles." Faz um pausa e repete: "Estão a 45 minutos de entrar na história. Por isso, vamos dar a volta a isto e vamos ganhar o jogo, olhem bem para mim." Olhámos todos para ele e ele repetiu mais umas quantas vezes em voz alta: "Têm 45 minutos para entrarem na história!"
Quando ele acabou de falar e saiu do balneário a energia entre todos nós era mais do que positiva. O estado anímico péssimo que tínhamos todos cinco minutos antes daquelas palavras mágicas desapareceu. Voltou a confiança e o otimismo. Nos três anos em que fui jogador do FC Porto, a frase de guerra e de motivação que dizíamos uns aos outros antes de cada jogo e ao intervalo era sempre "Vamos comê-los, c......!". Naquele momento juntámos a esta expressão: "Porque só temos 45 minutos para entrar na história, e não podemos falhar!"
Enão falhámos. Entrámos na história graças àquele discurso de 4-5 minutos do nosso treinador Artur Jorge. Foi o discurso de motivação mais genial que ouvi em toda a minha vida como profissional de futebol.
Recordo tudo isto porque na sexta-feira foi o sorteio dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, e ao FC Porto tocou o Bayern Munique, para muitos o grande favorito para ganhar esta edição. Por este motivo, nas últimas 48 horas aquela mítica equipa do FC Porto que ganhou a final ao Bayern Munique, sendo os alemães os superfavoritos e ninguém apostava um tostão por nós, foi notícia a nível mundial. Durante estes dias, nós, os campeões de Viena, não parámos de dar entrevistas, uma sensação bonita. No próximo dia 27 de Maio faz 28 anos o famoso "calcanhar do génio Madjer" e da jogada genial em que o mesmo craque partiu completamente os rins ao lateral-direito alemão e finalizou com um cruzamento perfeito para o Juary fazer o segundo golo. Faz também 28 anos da minha jogada à Maradona. E, claro está, do banho de bola que demos aos alemães na segunda parte. Felizmente, tudo isto está gravado e muitas destas imagens foram vistas em muitos países nas últimas 48 horas. Pelas muitas entrevistas que dei nestes dias para vários países, sinto que a imprensa mundial nos está a fazer uma pequena homenagem.
Ainda assim, infelizmente, o que não está gravado é a palestra do Artur Jorge ao intervalo. Ele tinha razão. Já passaram 28 anos da sua mítica frase "Têm 45 minutos para entrarem na história!", e o mundo está a falar em nós. Dentro de 30 anos, quando existir outro FC Porto-Bayern, o mundo irá sempre falar daquela mítica equipa do FC Porto e recordar que na final da Taça dos Campeões Europeus de 1987, em Viena, o David ganhou ao Golias.
GRANDE CALDEIRADA
A cláusula do medo
Uma vez mais houve caldinho sobre a questão dos emprestados (e jogadores com outras ligações) defrontarem ou não o clube com o qual têm contrato. Tozé jogou pelo Estoril frente ao seu FC Porto. Marcou um golo que retirou dois pontos aos dragões na luta do título. Deyverson e Miguel Rosa não jogaram frente ao Benfica; agora é a vez de Tiago Rodrigues, do Nacional, não jogar frente ao FC Porto. Não percebo como ainda existe tanta guerra e não se faz como em Espanha, em que a equipa que recebe o jogador emprestado, se quiser que este jogue contra a equipa "mãe", tem que pagar uma certa verba. Em Espanha chamam-lhe a cláusula do medo.
NÓS LÁ FORA
Monaco
Depois de perder as suas megaestrelas no último verão, Falcão e James, era uma missão quase impossível ver o Mónaco nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Mas para o Leonardo Jardim não há impossíveis. Uma vez mais, está a fazer um trabalho incrível. Os meus parabéns a ele e, claro está, aos craques portugueses Ricardo Carvalho, João Moutinho e o menino Bernardo Silva!
DO MEU ÁLBUM
Sorteio
Na sexta-feira, no sorteio para os quartos-de-final da Champions League, estava um pouco nervoso. Nas oito equipas estavam o FC Porto e Atlético Madrid, duas que me marcaram em todos os sentidos. Estava a torcer que não jogassem entre elas e que tocasse a Juventus ao Atlético e o Monaco ao Porto. Felizmente não vão jogar um contra o outro, mas infelizmente tocaram-lhes dois tubarões: Bayern Munique e Real Madrid. Vai ser difícil, mas não acho impossível que estas duas equipas que tenho no meu coração estejam nas meias-finais.
