Uma questão de pudor
PUDOR. Define o dicionário como: sentimento de vergonha produzido por actos ou coisas que ferem a decência, a modéstia ou a honestidade; vergonha; pejo; pundonor.
Define o Código Penal, como tipo legal de crime, o atentado ao pudor, no art.º 171º como sendo “actos exibicionistas” consubstanciados em “quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até cento e vinte dias.
Entende-se por exibicionismo o comportamento de alguém que incomoda outrem através de prática de acto relacionado com sexo.
Os caprichos do devir dos acontecimentos fazem, muitas vezes, com que a sua ocorrência provoque misturas de sentimentos, juízos e “sentenças” que devem, na racionalidade dos comportamentos sociais, ser devidamente distanciados e correctamente apreciados.
Por isso, pensei duas vezes, antes de passar à escrita sobre se abordar a nudez do árbitro do Académica-Imortal e suas projecções mediáticas seria oportuna.
E isto porque os ânimos na Justiça, nas polícias e nos tribunais andam em maré de elevada controvérsia.
Porém, a maior preocupação não eram essas mazelas que são gerais abrangendo todos os sectores do País, mas a simultaneidade com o julgamento e sentença – de mão cheia – que ocorreu nos Açores e que sancionou o réu confesso do hediondo crime de violação e assassínio da pequenita de seis anos cometido há cerca de um ano atrás.
O que aconteceu no Calhabé é do meu desconhecimento. As partes e as autoridades competentes, dado tratar-se de um árbitro e não ter a ver com o “sistema”, encarregar-se-ão de averiguar.
Indo por partes logo se saberá se as “partes” do Bruno, ainda por cima Paixão de apelido, foram exibidas nos termos do entendimento dado ao tal art.º 171º do Código Penal perante as agentes Fátima e por ironia também da Paula, nome, pelos vistos, atreito a casos sexo-futebolísticos.
Ora bom, se é assim, por que razão me introduzo nos balneários do Municipal de Coimbra, catorze anos depois da última entrada neles quando fui lá buscar o Samuel, o Reinaldo e o Quinito para os levar para Viseu onde defrontávamos, dias depois, para a qualificação dos Olímpicos e, vejam bem como o tempo passa, a ex-RDA?
Nessa altura, estive lá mais de uma hora à espera que o Samuel, todo nuzinho vejam bem, conseguisse, passeando-se de um lado para o outro, espremer-se o suficiente para libertar as águas místicas para o controlo “antidoping”. Se fosse agora...
A razão é simples e para mim preocupante. É que tendo nascido em época em que os sexos eram masculino e feminino fui educado no respeito sexual que a orientação católica familiar postulava e quero crer que ainda postula, apesar das manobras trapezísticas de algum clero, que tinha como contraponto a apetência pelo sexo dito, ao tempo, oposto, não se podendo perder pitada do que a mini-saia deixava a descoberto ou que um decote mais atrevido deixava ver e entrever.
O feminismo, de seguida, fez parte da minha adolescência e a apreciação que me suscitou, ao tempo, até por nunca ter tido nada contra as mulheres foi a de que eram um enxame de mulheres feias e frustradas.
Acontecia isto, em Coimbra, onde o tal respeito sexual se compaginava com a presença na casa de banho da Pensão Antunes da empregada de limpeza e dois ou três de nós hóspedes, ao mesmo tempo, a fazer a diversa higiene pessoal.
Lá, em simultâneo, na vida académica assisti, ao vivo, ao “amor livre” ao “Oh Maria concebida sem pecado fazei com que eu peque sem conceber” ou ao “Se a virgindade provou o cancro, então vacina-te”.
Daí para cá não vale a pena escrever porque todos sabem a evolução sofrida nesta matéria e não disponho de espaço.
A minha preocupação, resumidamente, está na difícil convivência com este estado de coisas em que, sumariamente, a mulher quer ser homem e os homens avassaladoramente querem ser femininos nas maneiras e nos comportamentos.
E, a partir daqui, começa a ser proibido apreciar uma mulher e olhar para um homem é, no mínimo, susceptível de lançar dúvida sobre o olhar e sobre quem olha.
Depois, vem a importação da jurisprudência estado-unidense a pôr em xeque os cheques das carteiras com as indemnizações por assédio. Por cá é a AR com os diplomas sobre as uniões de facto.
Quero eu dizer: é um perigo ter “partes”. E como dizia um grande Amigo meu por outras razões e em tempos idos: “Eu já aceito tudo, só não aceito que me castrem, mas amanhã não sei.”
Se calhar, o amanhã, João, chegou e o melhor é castrarmo-nos... mas da cabeça aos pés, porque os atentados vêm de todos os lados.
Por uma questão de pudor.
