Uma referência da SuperLiga
1 É um actor discreto, que observa, analisa e executa sempre na perspectiva da operacionalidade colectiva; por lhe faltar a magia dos artistas, nunca será candidato a Óscares, mesmo que, a partir de inteligência, equilíbrio e ponderação, se torne figura aglutinadora da longa-metragem sportinguista. Coisas sem explicação imediata mas que a história recente ajuda a entender. O Real Madrid de Figo, Ronaldo e Raúl está em jejum desde a saída de Makelele; Zidane e Henry viram desmoronar a França campeã do Mundo e da Europa mal Deschamps se afastou; Rijkaard (Milan de Sacchi) e Guardiola (Dream Team de Cruijff, em Barcelona) eram iguais a Gullit, Van Basten, Romário, Laudrup e Stoitchkov no peso que exerciam nas duas mais extraordinárias equipas dos últimos vinte anos.
2 Custódio pertence à estirpe daqueles que estudam a partitura, levam trabalhos para casa e no dia do concerto não gostam de surpresas. Como sabe música e actua com a pauta à frente, recusa-se a tocar de ouvido; como conhece e aprova os princípios, a ideologia e o objectivo do que vai interpretar, só se realiza quando o espectáculo reproduz na íntegra os ensaios efectuados durante a semana. Por ser um clássico, cuja noção de conforto obedece às regras específicas de uma orquestra, age como depositário da obra original; tendo idade para se render à sedutora liberdade do jazz ou à força esmagadora do rock, prefere deixar esses devaneios para outros, mais dados a improvisações geniais, mais reconhecidos e adorados pelo público, mas também menos adultos e responsáveis.
3 Médio com vastos recursos tácticos defensivos, Custódio é exemplar a assumir marcações interiores, intuitivo a interceptar linhas de passe e um verdadeiro prodígio a compensar movimentos dos companheiros. Zeloso do seu espaço, é um fanático da arrumação, que detecta toda e qualquer anomalia no funcionamento global: antecipa-se e evita, atrasa-se e remedeia; põe o pé e corta, levanta a cabeça e joga; corre para atacar a bola e desliza para defender a posição. Por mais estranho que pareça, continua a provocar espanto. A época extraordinária com Fernando Santos foi quase indiferente para a Selecção Sub-21 que esteve no Europeu. E não chegou para convencer logo José Peseiro, que demorou dois meses a rectificar a ideia preconcebida de que estava perante um jogador limitado.
4 Se o bom futebol precisa de pontaria para gerar unanimidade, também só faz todo o sentido quando acrescenta segurança à inteligência e harmonia à expressão artística individual. Porque o talento só estabelece diferenças tendo como pano de fundo os pressupostos de organização clara e funções bem definidas, Custódio é o mestre que une pontas dispersas e multiplica as probabilidades de êxito. Com ele em campo, o futebol do Sporting ganha eficácia nas acções defensivas e diminui o risco de acaso na procura do golo; aumenta o equilíbrio em busca da bola e dá coerência à primeira fase do processo ofensivo. É essa estabilidade processual que o torna tão valioso. É o modo perfeito como interpreta o papel de defesa mais avançado e líbero dos atacantes que lhe confere o estatuto de referência da SuperLiga.
Flanco direito
A solução estava em casa
Enquanto Jaime Pacheco dizia, por outras palavras, que andava a caçar com gato, o Boavista alternou pragmatismo, luxo e descalabros. Mostra agora que a solução para questões pendentes estava em casa. Diogo Valente trouxe eficácia ao jogo axadrezado; Pacheco sugeriu um canhoto com golo e imaginação ao futebol português. A história segue dentro de momentos.
O que Wilson tem ainda para oferecer
Abordou a veterania resignado à indiferença escandalosa a que foi votado, mas sempre comprometido com o futebol. Quando o Belenenses abanou após a saída de Marinho Peres, Wilson foi dos primeiros a ceder – e era o melhor líbero da SuperLiga. Com nove jogos consecutivos como titular, devolveu à defesa azul o que um craque de 35 anos tem ainda para oferecer: classe, autoridade, segurança, saber, experiência e maturidade. O Belenenses sofre menos golos? Outra coisa não seria de esperar.
Por debaixo da timidez
Por debaixo do ar tímido e da expressão assustada, habita um dos mais excepcionais médios da actualidade, grande revelação de 2004/05. João Alves (o nome também ajuda…) tem tudo para se impor ao mais alto nível: inteligência, elegância, visão, técnica, orgulho, espírito de sacrifício... Pega bem na bola, conduz com critério, remata bem – e tenho a certeza de que me esqueci de alguma coisa.
