Valdano morde
Em Madrid, dois gigantes digladiam-se com uma só arma de arremesso – o pobre Benzema. Valdano foi um jogador inteligente. Avançado, disfarçava a menor habilidade com empenho, velocidade e, na seleção argentina, Maradona. Depois estudou, tentou treinar sem grande êxito, escreveu brilhantes crónicas – só em Portugal tem mais imitadores do que uma fábrica de anéis chinesa. E assentou praça no Real Madrid como o teórico útil.
Útil a quem? A qualquer presidente que não queira expor-se demasiado às volúveis paixões das massas. Com Valdano à mão, o presidente faz de juiz, e não de parte, entre o técnico reivindicativo ou perdedor e o sábio diretor. Um Valdano torna-se imprescindível quando o Barcelona está demasiado forte.
Neste choque entre o engordado teórico, que cada vez se alimenta mais dos seus aforismos redondos, e José Mourinho, a braços com uma carência grave no centro da área, a decisão parece caber a Florentino Pérez.
Mas o facto, o verdadeiro facto, é que o dilema a desfazer, essa sentença que irá em breve abanar Madrid – se até final do mês vier um avançado, ganha Mourinho. Se não vier, ganha Valdano; e Mourinho estará de saída no final da época – está a ser ditada, isso sim, pelas botas de Messi e companhia, onde quer que o Barcelona aterre a superioridade futebolística exaltante. Mourinho pode ter conseguido o feito de colocar aquele bando de modelos umbiguistas a jogar como uma equipa. Mas não tem ainda tempo nem matéria-prima para contrariar o superlativo de futebol semanalmente escrito a azul e vermelho.
A derrota por 5-0, em Barcelona, abriu caminho a Valdano para descer ao vale relvado em busca de vingança no sangue da presa ferida. E a fera de papel e TV não usou ainda o seu mais dilacerante ferrar: o Real evita ir ao mercado de Inverno, por o próprio José Mourinho custar mais ao clube do que qualquer ponta-de-lança disponível.
