Valha-nos São Mateus...

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Desce o Gil Vicente, desce o Belenenses ou não desce ninguém e sai mais um alargamento "à portuguesa"... Fulano diz não estar em condições de votar, depois já está, entretanto quem votou de uma forma muda de opinião; seguem-se demissões que são aceites, mas dias depois já não o foram. Parece confuso? Não, nem um pouco: é apenas mais um episódio do inacreditável futebol português depois do Campeonato do Mundo.

Não faço a mínima ideia da forma como toda esta "embrulhada" em torno de um desconhecido Mateus vai terminar, mas palpita-me que se prepara uma solução tipicamente nacional, agradando a gregos e troianos, o que desta vez quer dizer a minhotos e lisboetas, situação só possível através de um alargamento.

Já tentei perceber os contornos da situação mas, não está fácil. Segundo a tese do clube do Restelo, o Gil tem de ser punido porque, ao recorrer aos tribunais civis, violou a regulamentação vigente. Vendo assim, a leitura parece correcta. Quando não se pode fazer algo devemos ser punidos se, por esta ou aquela razão, resolvemos ignorar a lei.

A questão essencial, para mim (mesmo sabendo que o Gil diz não ter recorrido, assegurando que tal atitude pertenceu ao atleta), começa exactamente na proibição de um clube poder recorrer aos tribunais civis quando assim o entende. As ligas de futebol, ou de outras modalidades, podem e devem ter os seus próprios regulamentos, mas daí a punirem quem sente a necessidade de se dirigir aos tribunais civis... parece-me aberrante. As leis nacionais e comunitárias não devem ser "abafadas" pelo futebol.

Imagine-se que, no futuro, as empresas informam os seus trabalhadores que, em caso de conflito laboral, os mesmos estão impedidos de recorrer aos tribunais, pois tal procedimento viola a lei x ou o artigo y internos. Seria bonito...

Para mim, impedir alguém de desempenhar a sua actividade profissional será sempre uma atitude condenável. E pouco me importa que, no mesmo ano, fulano tenha sido amador ou profissional. O que interessa é que uma entidade empregadora (no caso o Gil) esteja interessada em celebrar um contrato com um trabalhador (Mateus). O que está para trás é, em meu entender, irrelevante, mesmo que colida com os regulamentos da Liga.

Gostava também que alguém me explicasse o seguinte: como foi possível Mateus jogar algumas partidas pelo clube minhoto? A resposta é simples: porque foi inscrito na Liga! Quer isto dizer que, tal como sucede com todos os atletas de todas as equipas, o angolano foi devidamente inscrito. E creio que ninguém, desde os restantes clubes até aos serviços competentes da Liga, questionou a legalidade da inscrição. Ninguém falou de documentos falsos ou rasurados. Se existiu algum erro, deveria ser a própria Liga a identificá-lo no momento certo. Ou será que ninguém reparou, nessa altura, que o tal Mateus tinha vindo do Lixa onde, pelo que consta, tinha contrato de empregado de limpeza?

Existe ainda uma outra situação que me deixa muitas dúvidas. Porque razão o filho de um ex-vice presidente do Gil Vicente não deve votar num assunto em que o clube está envolvido? Por poder ser parte interessada? Ok, parece-me uma boa resposta. Mas, já agora, nos restantes órgãos da Liga os membros não têm filiação clubística? Serão todos do Mangualde, do Cinfães, do Pampilhosa ou do Oriental? É claro que não! Todos, mais tarde ou mais cedo, são chamados a pronunciar-se em assuntos que, directa ou indirectamente, vão "mexer" com os seus clubes do coração. O melhor é demiti-los todos e, provavelmente, eleger só estrangeiros que não sejam adeptos de clubes nacionais...

Sejamos coerentes. O que interessa é ter pessoas competentes e honestas nos lugares de decisão, mesmo que votem a favor do seu clube ou neles próprios. Ou será que os candidatos a líderes de câmara, do Governo ou da República vão ser obrigados a votar nos seus opositores?!

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