Velha tática virou moda
Uma das novidades táticas deste Mundial tem sido o ressurgimento em força do sistema de três centrais, uma estratégia que estava a cair em desuso, mas que voltou agora aos escaparates no Brasil, muito por força das duas derrotas da Espanha perante equipas (Holanda e Chile) que utilizaram, precisamente, o 3-5-2 para superar o campeão do Mundo.
Com a exceção de algumas equipas italianas, entre as quais a Juventus é a mais ilustre representante, a utilização de três defesas deixou de recolher a preferência dos treinadores ao longo da última década, dada a dificuldade em manter a posse de bola com este sistema, já que o meio-campo é povoado com menos jogadores, e a eventual fragilidade nos flancos, onde o lateral poderá ter a oposição de dois jogadores, um extremo e um defesa.
No entanto, perante o surgimento de equipas cada vez mais obcecadas em controlar a bola, tentando replicar o tiki-taka espanhol e atingindo níveis de posse de bola próximos dos 70%, o 3-5-2 está a afirmar-se como uma resposta venenosa ao sistema dominante, sustendo a força ofensiva do oponente e abrindo espaços para um jogo mais direto. Durante a 1.ª ronda da fase de grupos, as cinco equipas que usaram esta tática acabaram, curiosamente, por vencer.
AHolanda abdicou do tradicional 4-3-3, tantas vezes replicado, para se afirmar com a surpreendente goleada sobre a Espanha e com a vitória sobre a Austrália. Na hora de defender, os dois laterais têm criado uma defesa sólida de cinco elementos, participando depois nas rápidas transições ofensivas, a lançar Robben e Van Persie.
Neste grupo, o Chile venceu igualmente os dois jogos com três elementos mais recuados. Frente a Austrália e Espanha, vimos uma equipa estruturada e compacta, com jogadores habilidosos, que promete surpreender nas eliminatórias. E será muito interessante verificar como se irão encaixar Holanda e Chile no duelo entre as duas seleções na próxima jornada.
Asegurança defensiva do México também se notou no triunfo frente aos Camarões e no empate com o Brasil. Através deste esquema, o conjunto mexicano, que tem um belíssimo guarda-redes, não deu terreno ao habitual virtuosismo dos avançados brasileiros e conseguiu neutralizar a máquina pensadora do escrete, o médio Oscar, que pauta o jogo brasileiro.
Com uma vitória surpreendente sobre o Uruguai, consolidada por uma grande exibição do seu guarda-redes, Keylor Navas (designado melhor guardião do campeonato espanhol na última temporada), o esquema da Costa Rica contemplou cinco defesas e teve sucesso. Curiosamente, a seleção do Uruguai, que normalmente joga em 3-5-2, apresentou outro sistema nesta partida e… perdeu.
Por seu lado, a Argentina venceu com três centrais, mas não convenceu. A ligação entre a defesa e o ataque não funcionou, o que travou a dinâmica de jogo, com pouca fluidez e sem profundidade atacante. Porém, a equipa de Messi saiu vencedora e foi mais uma a confirmar o 3-5-2 como uma tática da moda que, face ao seu sucesso, no decorrer desta prova, poderá vir a ter outros intérpretes, como é o caso da Itália, já rotinada com o sistema que levou o Brasil a vencer o Mundial de 2002.
Estará aqui o segredo do futuro campeão? Futebol de posse ou de transição? Os duelos táticos vão animar a competição e prometem novos episódios. Este 3-5-2 trouxe algo de novo ao futebol atual, nomeadamente, a beleza estética de um futebol rápido e eficaz. E com uma leitura perfeita dos executantes, poderá fazer a diferença.
O CRAQUE
O verdadeiro Herrera?
Um dos principais protagonistas do bom momento do México tem sido Héctor Herrera. Depois de uma época de estreia em Portugal abaixo das expectativas, o portista tem mostrado outra cara ao serviço da sua seleção. Atuando como médio-interior-direito, Herrera tem-se destacado pela grande disponibilidade física, a defender, a lançar os ataques mexicanos e a tentar o golo com remates de meia-distância. São indícios de que tem mais valor para mostrar no Dragão e que a próxima época poderá ser de afirmação ao serviço do FC Porto.
A JOGADA
Um legado para o futuro
A introdução da tecnologia da linha de golo (Goalcontrol) no Mundial é claramente um dos pontos positivos da prova. O Goalcontrol veio ajudar a decisão dos árbitros com total eficácia e sem margem para erros, como se comprovou na validação de um golo da seleção francesa, que sem esta tecnologia seria certamente alvo de polémica. Também o spray para marcação dos locais dos lances livres e colocação das barreiras está a mostrar-se uma medida com bons resultados. Neste capítulo, o Mundial’2014 deixa um importante legado para o futuro do futebol.
A DÚVIDA
A queda dos deuses
A eliminação precoce da Espanha foi apelidada na manchete de um jornal italiano como “a queda dos deuses”. A metáfora não podia ser mais feliz. Depois de um ciclo de seis anos de pleno domínio no futebol de seleções, esta geração dourada espanhola chega ao fim, mas guarda o seu lugar no Olimpo, ficando na memória de todos como uma das melhores equipas de sempre. Segue-se agora uma fase de renovação, que com a matéria-prima existente, recheada com jogadores campeões das camadas jovens, tem tudo para voltar ao sucesso. Voltará a Espanha ao Olimpo?
