Viver no limbo
Vida de treinador não é fácil. O chavão é comum, mas basta olhar para os três grandes esta época para perceber que a frase continua a encaixar. Para ser bem sucedido, há que percorrer um longo e íngreme caminho, onde, perante pressões de todos os lados, os técnicos têm de ter consciência das capacidades (pessoais e da equipa), mas acima de tudo das limitações, potenciando as primeiras e superando as últimas. Vítor Pereira, Jorge Jesus e Sá Pinto, cada um à sua maneira, passaram por este tipo de provações. É talvez uma das profissões mais injustas, onde o elogio vive lado a lado com a crítica. A um treinador exigem-se resultados imediatos. Mas não só. Além de vitórias, a sua equipa tem de dar espetáculo, produzir muitos golos e valorizar jogadores. As condicionantes desportivas e financeiras não são para aqui chamadas. Há que fazer omeletes com ou sem ovos, faça chuva ou faça sol. E tudo fica debaixo do atento escrutínio de adeptos, dirigentes e comunicação social.
Até José Mourinho já passou por isto. O treinador português foi alvo da ira dos sócios do Real Madrid, face a alguns resultados menos conseguidos. E são agora esses mesmos adeptos que o vão consagrar como campeão. Mas para ganhar o campeonato em quatro países diferentes, só mesmo um predestinado que conhece a sua profissão como ninguém.
Por cá, Vítor Pereira será indubitavelmente uma das figuras da Liga. Votado ao descrédito por muitos, teve de rumar contra ventos e marés, levando o FC Porto à liderança do campeonato quando poucos acreditavam. O técnico dos dragões percebeu que o “seu” FC Porto não era o mesmo do ano passado. Com peças diferentes e sem oportunidade de mostrar o mesmo futebol, imperou o pragmatismo. Em Janeiro, Vítor Pereira (e a estrutura do clube) limpou o balneário, apostou em jogadores da sua confiança e assumiu uma faceta mais calculista no último terço de campeonato. Sem tempo para grandes exibições, não falhou nos grandes testes. Os portistas passaram a acreditar mais no seu técnico. Já os adeptos rivais deixaram de fazer chacota dele.
Jorge Jesus também tem vivido dias de céu e inferno. Colocou o Benfica a jogar um futebol bonito e alegre, conquistou títulos em todas as épocas, mas isso não foi suficiente para deixar de ser contestado por alguns sectores benfiquistas, que lhe exigem mais. Este ano, Jesus chegou a falar em “preço do êxito”, referindo-se aos jogos nas várias frentes que as águias disputaram. O problema foi que em determinadas alturas da época, a equipa não conseguiu ser pragmática em detrimento do futebol de ataque e pagou isso caro. Nem sempre vence campeonatos quem pratica o melhor futebol. Faz parte da vida de treinador.
Por seu lado, Sá Pinto potenciou as capacidades do seu Sporting. Encontrou um leão ferido e soube tirar partido do lado emocional dos jogadores para concluir uma ponta final de grande qualidade. No plano tático, conhecendo as limitações e características do plantel, não teve problemas em baixar o bloco defensivo e explorar novas opções. A aposta resultou. Sá Pinto convenceu os sportinguistas e levantou a moral leonina. Merecia a final da Liga Europa, poderá ganhar a Taça de Portugal e, quem sabe, chegar ao 3.º lugar. É um treinador sereno, bem diferente do perfil que tinha como jogador. Na próxima temporada, terá o seu exame final, onde terá de mostrar mais argumentos na Liga e tentar elevar o Sporting a outro patamar competitivo. A cobrança ser-lhe-á feita.
