Zahovic, Roger e Ricardo Sousa

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1. No palco desenhado e dirigido pelo treinador há um cenário com regras específicas a enquadrar a expressão técnica de cada futebolista. Parte substancial do funcionamento da equipa passa por uma relação assumida nesses termos, gerida e aplicada com mais ou menos rigor, até porque tudo se torna relativo quando o objectivo supremo é a felicidade colectiva. Mas nem sempre o plano prévio, a táctica tantas vezes transformada em ciência só ao alcance de meia dúzia de iluminados, sustenta toda a autenticidade do jogo. Aceitando isto como base dos princípios que regulam o contacto entre a ideia e a sua aplicação, há casos pontuais com origem na qualidade e características dos atletas – o tal direito à diferença elogiado ou punido mediante resultados, conveniências e demais interesses.

2. Quatro exemplos rápidos: há jogadores que são autênticos treinadores em campo – Paulo Sousa é a imagem mais à mão; outros de fácil inserção no conjunto, pela posição que ocupam e também por temperamento – Petit, Nuno Gomes, Pedro Emanuel, Jankauskas, Contreras e Antchouet; outros ainda que, por cumplicidade com o treinador, integram-se em qualquer lugar ou circunstância – Derlei, Nuno Valente e Tiago; e, por fim, os vulgares que, por engano, entram em órbita e atingem o estado de graça – durante uma semana e meia, no Verão de 1990, ninguém sabe como e porquê, “Toto” Schillaci enganou-se e foi o melhor avançado do Mundo. E ainda há os outros, aqueles talentos superiores que se transformam em impulsionadores criativos do colectivo.

3. A incompatibilidade técnica e táctica entre Zahovic e Roger é uma questão antiga, recuperada agora como reacção ao único estímulo válido para a sociedade em que vivemos: o insucesso. Dúvida nenhuma de que estamos perante dois génios do futebol, cuja dimensão vai muito para lá da habilidade, da relação com a bola, das soluções técnicas de cada um. O problema começa quando percebemos que ambos necessitam das mesmas coisas para se expressarem totalmente: têm de ser eles a dar o estilo à equipa; tem a equipa de olhar para eles como a melhor solução para todos os seus problemas; têm todos de aceitar (até nas bancadas) que o maestro seja um e não o outro. Em causa está a opção por um estilo ponderado, racional, perfeito e perfeccionista (próximo do jogador de xadrez que Zahovic foi) ou pela fascinante aventura guiada por um jovem à conquista do Mundo, feita de risco, drible, velocidade e imprevisibilidade.

4. Seguindo o raciocínio, não é de todo despropositado trazer Ricardo Sousa à baila. Em primeiro lugar porque faz parte do trio, ao lado de Zahovic e Roger, dos mais brilhantes esquerdinos da SuperLiga – no âmbito nacional só Hugo Viana o põe claramente em causa; depois porque os caminhos sinuosos até à afirmação plena do talento já não têm segredo para ele. Ricardo Sousa, tal como Roger quando joga à direita ou à esquerda, já sabe que para ficar satisfeito consigo próprio e nós com ele, não pode ser apenas mais um elemento da orquestra, quando não daqueles músicos que ensaia todos os dias e é preterido nos grandes concertos. A dimensão de jogador imenso, confirmada com requintes de malvadez no recente jogo com o FC Porto, passa pelo respeito ao rótulo de maestro talentoso que transporta em cada gesto e pela referência que é para os companheiros. No dia em que o deixarem ser numa grande equipa o que é no Beira-Mar todas as dúvidas serão desfeitas. Com uma pergunta pelo meio: que mais precisa de fazer para justificar um desafio à altura da sua classe?

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