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O ponto mais memorável da história do futebol português foi alcançado no dia 10 de julho de 2016, na cidade de Paris. Portugal vencia o seu primeiro título internacional em seleções "principais" ao derrotar a França por 1-0 e conquistava o campeonato da Europa. Éder foi o herói ao marcar o golo da Selecção Nacional no prolongamento.
Pré-jogo:
A França entrava em jogo na tática que Didier Deschamps utilizou nas fases mais avançadas na competição. Puxou Griezmann das alas para o meio para obter o maior rendimento do melhor marcador do Europeu, recuando Pogba e Matuidi, tendo estes jogadores mais liberdade para construírem a partir de zonas mais recuadas. Payet é um jogador que é uma incógnita, porque varia a sua forma de jogar durante o jogo, apesar de aparecer preferencialmente em terrenos mais interiores. Já Sissoko é um jogador mas forte fisicamente que Payet e menos tecnicista. Depois, Sagna e Evra apareciam muitas vezes em terrenos mais avançados, tentando colocar bolas no jogador alvo Giroud.
Portugal usou a tática mais comum de Fernando Santos. Com a ausência de um ponta-de-lança que oferecesse garantias, Nani e Ronaldo deixaram de jogar como extremos e passaram para jogadores soltos na frente do ataque. João Mário e Renato Sanches aparecem nas alas mas criam muitos desequilíbrios com movimentos interiores e trocas com os homens mais da frente. Adrien Silva é um típico box-to-box que constrói desde trás e apoia os homens mais da frente. William é o pêndulo defensivo da equipa, Guerreiro e Cédric aproveitam o espaço deixado nas alas pelos movimentos interiores de Mário e Sanches.
Fase inicial do jogo:
A França tentava colocar a bola num dos seus laterais (mais frequentemente Evra) e procurava movimentações dos extremos e de Griezzmann para furar a primeira zona de pressão portuguesa. No entanto, esta tarefa tornou-se muito complicada pelo trabalho de Adrien Silva, William Carvalho e de Nani/Ronaldo. Como foi dito anteriormente, Matuidi e Pogba procuravam construir a partir de trás, mas o espaço que tinham era muito curto. Marcações individuais de Adrien Silva e Nani/Ronaldo aos dois médios centro franceses foram a solução. Assim, a França começou a construir a partir de Evra e Sagna, que não eram pressionados por Sanches e João Mário, fazendo então contenção à espera do erro no centro do campo. Como consequência, William Carvalho aparece muitas vezes no caminho de Griezzmann, uma vez que os restantes jogadores estavam individualmente marcados.
Portugal tinha uma construção rápida e preferencialmente direta. Com a bola a partir sempre de alguém mais recuado, muito devido à pressão alta da França que se transformava numa autêntico 4-4-2 a defender, com as linhas muito subidas, Ronaldo ou Nani procuravam aproximar um defesa da linha de meio campo para abrir espaço nas costas, evitando assim o fora-de-jogo. Nani teve uma boa oportunidade neste tipo de lances logo no arranque da partida
Nesta fase inicial Portugal defendia bem e as oportunidades dos gauleses resultaram de perdas de bola na saída do meio campo português (tal como o cabeceamento de Griezmann). Fernando Santos escolheu bem como entrar em jogo. O 4-4-2 que muita vezes se transformava num 4-1-4-1 resultou muito bem porque os dois blocos estavam juntos o suficiente para não entrarem muitas bolas entre linhas. Giroud nunca teve capacidade de seguir os movimentos de Griezmann e preferiu ficar sempre junto dos centrais portugueses, deixando William seguir Griezmann sem ter de se preocupar com o outro avançado.
Pós lesão Ronaldo
Minuto 24: Cristiano Ronaldo sai com uma lesão no joelho. Com a entrada de Ricardo Quaresma, Portugal passou a jogar num 4-3-3 mais clássico, trazendo Renato para perto de Adrien e deixando Quaresma no lado direito. Nani tinha agora uma função diferente, aparecendo muitas vezes perto da área a tentar tabelas. Portugal procura agora jogar mais curto e abrir espaço nas alas para cruzamentos ou movimentos interiores de Quaresma ou João Mário. Guerreiro e Cédric começaram a aparecer mais perto dos extremos da sua equipa, sendo que Adrién ou Renato apareciam perto de Nani.
A defender, Adriéen e Renato colavam em Matuidi e Pogba, enquanto William seguia Griezmann. Guerreiro e Cedric perseguiam Sissoko e Payet até que estes saiam da sua área principal de influência (moviam-se muito para o interior ou em direção ao meio campo).
Portugal demorou alguma tempo a encaixar neste novo sistema, especialmente João Mário e Quaresma. Quando se encontraram, a França deixou de criar grandes oportunidades de perigo. Portugal crescia ofensivamente aos poucos.
Terceira fase do jogo:
A França trouxe a jogo Coman e Gignac no decorrer da segunda-parte mas não trocou nada em termos estruturais e isso foi um dos problemas de Deschamps. Poderia ter tentado a entrada de Martial mais cedo, podia ter tentado colocar mais músculo no meio-campo e desenvolver para um 4-3-3. Mas não o fez. Quem mexeu foi Portugal, com a entrada de Éder. Moutinho entrou também por Adrién, mas numa função de troca por troca. Fernando Santos irou Renato Sanches, um homem de meio campo, e colocou o "patinho feio da Seleção" na frente. Nani foi para a ala direita, Quaresma veio para a esquerda.
Coman trouxe problemas através de lances individuais. Como um todo, Portugal continuou a crescer em todos os sentidos. Renato e Adrien mostraram um entrosamento bastante bom. Era espectável que o prolongamento fosse equilibrado, mas a maior frescura (ou talvez vontade) dos heróis do mar mudaram o plano francês. Deschamps nunca soube mexer na sua equipa e no prolongamento pagou bem caro por isso. O 4-1-4-1 continuou a resultar e a França cresceu um pouco com Gignac porque começou a criar espaços entre linhas que Giroud nunca criou.
Prolongamento:
Chegamos ao prolongamento com um 0-0, apesar de uma maior superioridade da França. Mas os franceses acusaram o desgaste de um jogo de pressão alta no prolongamento e num lance individual pagaram o preço. Minuto 109: Éder recebe a 25 metros da área, liberta-se de Koscielny e atira para o golo que fez vibrar todos os portugueses no mundo. Se analisássemos apenas o prolongamento, era de esperar que este golo surgisse. Éder e Raphael Guerreiro já tinham criado perigo.
Portanto, Portugal venceu a batalha tática e teve alguma sorte. Não permitiu grandes chances de golo à França, obrigando-a muitas vezes a manter a bola no seu meio-campo defensivo sem progressão. Soube anular as principais peças francesas (Pogba e Griezmann estiveram muito aquém das expectativas) e, mesmo sem o seu capitão, conseguiu capitalizar numa das poucas oportunidades que criou. Justiça no futebol é algo subjetivo e o trabalho defensivo português faz valer este título. O esquema do Engenheiro Fernando Santos tem imensas parecenças com um jogo de estratégia. Anulas as peças do adversário e esperas que as tuas resolvam. E não é que foi a peça que menos esperámos a resolver este jogo?