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Real Madrid vs Barcelona: O maior vs o melhor

Real Madrid vs Barcelona: O maior vs o melhor
• Foto: reuters

O Real Madrid vs Barcelona ou o Barcelona vs Real Madrid (para não ferir susceptibilidades) é sem dúvida o clássico mais mediático da história do desporto. É o confronto desportivo mais visto no Mundo a seguir à final dum Mundial de Futebol. No sábado, segundo as estatísticas mais de 600 milhões de pessoas (1 em cada 10) viram a equipa blaugrana esmagar o eterno rival merengue na sua própria casa por contundentes 4-0.

Um resultado com este desnível num jogo que alimenta tantas paixões por esse mundo fora, é sem dúvida um óptimo pertexto para reflectirmos sobre a história e a actualidade destes 2 colossos Mundiais.

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De um lado temos o MAIOR clube do Mundo. O clube com mais fãs no Mundo, o clube mais mediático, com mais notícias, o clube com mais títulos internacionais, um clube que é o sonho de quase todos os meninos que em tenra idade sonham ser futebolísticas. O Real Madrid é conotado como o topo da carreira para quase todos os futebolistas… Mas se perguntarmos porquê? A resposta é cheia em títulos e vazia em valores. O Real Madrid é o clube com mais títulos, com mais prestígio, mais conhecido. Enfim é o MAIOR. Raramente vemos alguém dizer identifico-me com a cultura do Real Madrid ou simpatizo com o Real Madrid.

A história de um clube, que tal como a cidade foi construído com base na força adquirida. Madrid foi uma cidade criada para ser a capital de Espanha. O Real Madrid foi um clube que foi criado para ser o maior da Europa. Sem sacríficios e sem esforços com ajudas e com intervenção política. É impossível dissociar a história do Real Madrid à monarquia espanhola. Basta conhecer um pouco da história da Espanha, para perceber a forma como a política fez nascer um colosso. Desde a nomeação do Rei Afonso XIII de Real ao Madrid FC, às ajudas que o clube teve no fim da guerra civil espanhola. O Real Madrid cresceu a partir da monarquia da Espanha. Por isso talvez, desde sempre, o importante era ganhar, não interessando nada o caminho para chegar lá. Por isso talvez, o Real Madrid tenha feito em meados dos anos 50, aquilo que fazem hoje as grandes equipas do futebol Mundial, contratar os melhores jogadores, alguns com intervenção política do regime, para ganhar, ser o maior. E foi assim numa altura em que o Real Madrid estava 40 anos à frente do seu tempo que construiu a melhor equipa da história do futebol, onde pontificavam Puskas e Di Stefano conquistando 5 títulos europeus consecutivos. E assim, nasceu o mito do Real Madrid. O clube com mais títulos, mais prestígio. Mas ao longo da história vários são os episódios que mancham este clube fora das 4 linhas. Mais recentemente a despedida de Iker Casilhas, espelha bem o vazio de valores que nutre o clube mais titulado do Mundo. Um clube que não respeita, nada nem ninguém, apodera-se de tudo e de todos para crescer, não valorizando quem no reverso da medalha faz tudo pelo clube. O facto de um jogador como Cristiano Ronaldo ter revelado que esteve triste no Real Madrid, as constantes guerras de balneário que tem sido uma autêntica novela mexicana nos últimos 15 anos, espelham bem que não existe uma identidade cultural no clube. Junta os melhores jogadores, para ser o maior, esquecendo-se por vezes que o todo é mais que a soma das partes. E que ter uma equipa imbuída num só sentido, unida, solidária é premissa fundamental para ter um sucesso permanente na Europa do futebol. O Real Madrid valoriza Cristiano para se valorizar enquanto marca, esquecendo por vezes questões mais simples, mas mais importantes. Talvez por isso seja fácil perceber porque mesmo com o melhor jogador da História do futebol ganha tão pouco, 1 título nacional e 1 europeu em 6 anos!

Cristiano Ronaldo é para mim um exemplo enquanto dedicação à causa que ama (futebol). O percurso que fez até hoje é algo que merece a minha mais profunda admiração. Mas tal como todas as criancinhas, Cristiano Ronaldo sempre quis jogar no Real Madrid. Tudo fez para tal… Porque queria jogar no MAIOR clube. Trabalha nos últimos 6 anos e quase 5 meses quase todos os dias para ajudar o Real Madrid a ser um vencedor. Mas ao contrário do seu esforço, da sua dedicação ao Real Madrid, no reverso da medalha o Real Madrid nunca soube compensar Cristiano. Basta comparar o pouco apoio que tem da instituição comparando com Lionel Messi no Barcelona, o ordenado que aufere em comparação com o rival argentino. Enfim…

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Quando no passado dia 9 de Novembro vi o filme da vida de Cristiano Ronaldo, pensei que a sua ida para o Manchester em Agosto de 2003 foi um bom passo na carreira do jogador português, mas talvez não o melhor. É impossível adivinhar o futuro, mas como seria se Jorge Mendes tivesse aguardado um ano e após o estrelato no Euro 2004, tivesse vendido Cristiano Ronaldo ao Barcelona? Clube, que o próprio Jorge Mendes diz que Ronaldo se jogasse lá marcava muito mais golos…

No fundo, Cristiano Ronaldo, infelizmente (porque sou seu fã), tem um castigo merecido pela sua adoração a um clube vazio em valores morais.

O Barcelona é um clube completamente diferente. Um clube que cresceu e solidificou-se como símbolo da Catalunha. Que ao longo da história foi sempre prejudicado pelas intervenções políticas e mesmo assim nunca desistiu de lutar pela hegemonia do futebol espanhol e europeu. Talvez, por todas essas dificuldades só em 1992 se tenha sagrado pela primeira vez campeão europeu. Mas o Barcelona, como diz o seu lema é MAIS QUE UM CLUBE. É um veículo cultural duma região com base em valores construídos e trabalhados e não em valores adquiridos. Talvez por isso o clube seja bem mais que o futebol. Um clube que todos os anos luta para ser campeão europeu de futebol,basquetebol,andebol,futsal e hóquei em patins. Um clube que em qualquer modalidade antes de tentar adquirir os melhores jogadores tenta criar uma equipa, uma unidade, uma identificação, um só rumo. Talvez por isso a aposta na formação e o trabalho extra-desporto em todas as modalidades seja uma pedra basilar do sucesso blaugrana. Qualquer atleta para ser do Barcelona tem de estar imbuído na cultura do clube. Assim, fazendo o trabalho de base, é mais fácil os jogadores nas mais variadas modalidades apoiarem-se uns aos outros, caminharem num só caminho e raramente existirem problemas de balneário, comparando com o eterno rival. Talvez por essa interiorização da mensagem catalã, Puyol se desloque à Alemanha para apoiar a equipa de Andebol a conquistar mais um título europeu. Talvez por isso o Barcelona tenha um espaço comum onde homenageia todos os atletas de todas as modalidades. Mas a cultura e os valores não nascem de um dia para o outro, são precisos anos para se desenvolverem. Talvez por isso só nos últimos 10 anos o Barcelona tenha ascendido ao topo do futebol Mundial. Talvez por isso, mesmo privado do seu melhor jogador (Lionel Messi), conseguiu envergonhar o seu principal rival. Porque o todo é mais que a soma das partes. E num clube tão unido e tão solidificado é muito mais fácil ganhar mesmo sem a sua principal estrela.

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Porque mesmo que a vertente económica seja fundamental, por isso apenas recentemente tem patrocínio nas camisolas, não é o principal. Claro, que querem vender camisolas e fazer sócios e tudo o resto. Mas esse é apenas o reflexo do sucesso desportivo. Ao Real Madrid interessa-lhe ser o Maior, e por isso aposta mais no marketing do que na unicidade do seu clube. Para o Barcelona, ser o maior também é importante, mas é muito mais importante ser O MELHOR!

Talvez por isso se explica como numa época em que a intervenção política no desporto é quase nula comparada com há 50 anos o Barcelona seja nos últimos anos muito melhor que o Real Madrid.

Porque tal como nas histórias das criancinhas, primeiro vencem os maiores, só no final vencem os melhores.

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Parabéns Barcelona! Rumo ao topo da história do futebol Mundial!

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