Escrevem os leitores

Escrevem os leitores
Escrevem os leitores

Deco: Inteligência em movimento

Anderson Luís de Souza. Deco! O melhor jogador que os meus olhos já viram com a camisola do FC Porto e seguramente um dos melhores que alguma vez pisaram os relvados portugueses. Depois de ter saído para o Barcelona, em 2004, não voltou a haver, na minha opinião, outro jogador com um manancial de recursos tão vasto quanto Deco. E por cá passaram dezenas de jogadores de classe mundial na última década e meia...

Tudo nele era sofisticado. Uma compreensão do jogo singular (e o quanto eu dou importância à inteligência...), que lhe dava a possibilidade de controlar, sem aparente esforço, tudo o que ia acontecendo à sua volta. Quando se diz que um jogador pauta o ritmo de jogo, Deco era o exemplo perfeito disso. Pautar o ritmo é a capacidade avançada de perceber quando deve pausar ou acelerar e com isso colocar a equipa em melhor situação. Deco fazia isso como ninguém, domesticava o jogo ao que lhe convinha. Quantas vezes não se disse, sobretudo antes da chegada de José Mourinho e da plena afirmação do médio brasileiro, internacional português, no panorama mundial, que era lento, prendia o jogo, demorava a desfazer-se da bola, era pastelão? Desculpem?! O Deco pastelão?! O Deco era a inteligência em forma de jogador de futebol... Conciliava a pausa e a aceleração com uma mestria incomparável. Foi isso que o distinguiu. Bons pés há muitos. Capacidade técnica sobra por esse mundo fora. Improvisação não falta por aí aos magotes. Compreender o jogo é outra coisa. É ser rápido e assertivo no pensamento. Pensar antes dos outros. É parar, analisar, perceber contexto e decidir bem. E decidir bem pode ser reter a bola. Atrair para soltar. Conduzir e fixar no momento certo para libertar companheiros. Ou então passar, encontrar o espaço livre e fazer a equipa avançar. Deco era tudo isto e muito mais. Pastelão... Pff... Aquele golo em Gelsenkirchen que abateu o Mónaco de vez... Aquela calma glacial, aquela pausa a deixar o mundo suspenso, aquela classe a escolher o lado para colocar a bola. A iludir defesas e guarda-redes. Com fineza, serenidade, brilhantismo. O golo que o define. Como te atreves, no meio de tantos cavalos selvagens, a marcar um golo com tal delicadeza? Era um bilhete!

Mas Deco não era só inteligência e velocidade de raciocínio. Era criatividade. Encontrava soluções inesperadas e, com isso, surpreendia oponentes e muitas vezes até colegas de equipa. Era perfeição técnica, que materializava o que o cérebro idealizava. Era coordenação motora, passada larga, elegância. E era liderança, muito importante. Deco era um líder, não apenas pela qualidade enquanto jogador, mas também pela sua personalidade. José Mourinho disse que "Deco simboliza o prazer de jogar futebol, mas o verdadeiro prazer, o prazer de jogar, de competir e de ganhar. Deco era uma estrela numa equipa de estrelas, em que a estrela maior era a equipa. Deco era o primeiro a sorrir nas horas grandes, decisivas, possíveis de desfrutar só pelos grandes jogadores. E quando digo grande, digo mesmo grande! Digo grande no talento, na ambição, na liderança, na responsabilidade, na humildade."

Além das suas imensas qualidades individuais, conseguiu fazê-las reflectir com sucesso na sua brilhante carreira. Ganhou tudo a nível de clubes. Duas Ligas dos Campeões, uma Taça UEFA, três ligas portuguesas, duas ligas espanholas, uma liga inglesa, dois campeonatos brasileiros, mais algumas taças e supertaças dos países onde jogou. Na Selecção Nacional, já depois de adquirir a dupla nacionalidade, estreou-se com o golo da vitória frente ao 'seu' Brasil. Participou em dois Europeus e dois Mundiais, em que se destaca o magnífico rendimento no Euro'2004, ajudando, na posição de 'playmaker', a equipa portuguesa a atingir a final do torneio, ingloriamente perdida para a Grécia, no Estádio da Luz. Teve sempre um papel de grande preponderância em todas as equipas por onde passou. No FC Porto, a sua história é conhecida. Era o patrão da equipa, sendo o vértice mais ofensivo de um trio de meio-campo composto ainda por Costinha e Maniche (que incorporava ainda Alenitchev - outro craque - ou Pedro Mendes sempre que Mourinho apostava no 4-4-2). Era quem chamava a si a responsabilidade em zonas de criação e inventava, com a sua genialidade, o maior número de lances de golo. No Barcelona, caiu que nem uma luva na ideia de jogo de Frank Rijkaard, e fez parte daquele que era considerado o triângulo mais influente dos catalães, junto com Ronaldinho e Eto'o. Foi sempre titular e relegou, muitas vezes, o maravilhoso Xavi e o ainda jovem genial Iniesta, para a condição de suplentes (final da Champions de 2006, por exemplo). No Chelsea, após um bom início, começou a dar sinais de um certo declínio no seu rendimento e nunca conseguiu exibir o protagonismo que lhe era devido, tendo, ao fim de duas temporadas algo irregulares, regressado ao Brasil, para terminar em beleza a carreira no Fluminense.

De Deco, fica na memória colectiva de todos os amantes do jogo, a imagem de um pensador soberbo e um executante singular. Um criativo de excepção, que criava como ninguém, ligava e finalizava com a classe dos predestinados. Era o protótipo do jogador completo, no contexto de máxima complexidade em que se tornou o futebol moderno. Era igualmente muito competente no processo defensivo, pois graças à sua cultura de jogo, posicionava-se quase sempre bem e era agressivo, tanto no pressing, como no desarme, quando o portador entrava no seu raio de acção. Parece impossível, mas Deco sempre foi um magnífico recuperador de bolas.

O Futebol ficou a dever-lhe uma Bola de Ouro em 2004. Numa época em que havia divisão do prémio de melhor do mundo entre o FIFA World Player e a Bola de Ouro da France Football, Deco perdeu ambas as votações, para Ronaldinho e Shevchenko, respectivamente. De forma injusta, acrescento eu. Deco foi claramente o jogador cujo fantástico rendimento individual mais contribuiu para o sucesso colectivo nesse ano inolvidável para o futebol nacional. Talvez se Portugal tivesse ganho o seu Europeu, não tivesse havido dúvidas...

Obrigado, Deco!

Autor: Bruno Pinto

Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação deportiva.
  • conteudo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão e-paper do jornal no dia anterior
  • conteudos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.