Um apelo

O seguinte texto é mais de uma reflexão pessoal, é mais do que um testemunho, é, sim, um pedido de ajuda!
Hugo Miguel e Luís Godinho. São estes os nomes de dois seres humanos que são acompanhados 24 horas por dia por segurança privada desde o jogo da final da Taça da Liga entre SCBraga e o FCPorto...

É neste estado que está o nosso futebol, é esta a influência que o simples facto de ser árbitro tem no dia a dia de muitos seres humanos como nós! 

Isto não tem a ver com clubes, tem a ver com decência, com respeito, com humanidade, princípios muito mais importantes do que qualquer jogo de futebol.

Tenho muito orgulho em pertencer ao lado que estes dois senhores pertencem, o lado da seriedade, do compromisso, da imparcialidade. O lado daqueles que nobremente desempenham o papel mais difícil do nosso futebol e que são os mais desprotegidos, apesar dos erros que cometem e que não escondo. Mas não são estes erros que decidem campeonatos, não são estes erros que minam o nosso futebol. Essa é a imagem que os líderes dos maiores clubes nos querem passar, escudam-se dos erros próprios nos eventuais erros de arbitragem. Trata-se de enganar os sócios dos clubes, os adeptos dos clubes, os adeptos do futebol! É hora de dizer basta!

Por favor! Por favor! Governo, autoridades judiciais, Conselho de Disciplina da FPF, Liga de Clubes... olhem para estes pobres seres humanos e dêem-lhes condições para fazerem o que melhor sabem, dêem-nos a todos nós condições para que possamos de facto ser o futuro do futebol e o futuro da arbitragem. Eu quero ser árbitro! Eu quero contribuir tal como eles para a justiça, imparcialidade e qualidade do futebol português! Mas não assim! Não com a minha vida posta em causa. Não com a minha segurança e da minha família posta em causa.

Por tudo isto faço um apelo desesperado as autoridades competentes para que de uma vez para sempre, tenham uma mão firme perante situações como as que ocorreram este fim de semana e que não se poderão voltar a repetir nunca mais! 

Errar é Humano! Eu erro todos os dias, inclusive nos meus jogos! Não podemos continuar a aceitar que de cada vez que a decisão de um árbitro contrarie os interesses de alguns clubes, os árbitros sejam alvo de perseguição e de atentados à sua dignidade enquanto seres humanos, lesões da sua honra, do seu caráter e que, como se vê, afeta o dia-a-dia destes e de outros árbitros!

Urge a necessidade de se castigar com severidade todos aqueles que atentem física, verbal ou moralmente contra as equipas de arbitragem, contra os jornalistas, contra aqueles que, por bem, fazem parte do nosso futebol. A situação já ultrapassou os limites da justiça desportiva!

Eu só gostava de vestir a minha camisola de árbitro e sentir me seguro com ela, fazer o que aprendi e com os princípios que me foram transmitidos desde a nascença. Será que isto vai ser possível algum dia? 

Por fim, dizer apenas que o que se tem passado nas últimas semanas me enoja como árbitro, como ser humano e como adepto de futebol! Se nada for feito, acreditem, dentro de poucos meses ou anos uma equipa de segurança para cada árbitro não será suficiente. Já estivemos mais longe de ver, em direto, uma agressão ou algo mais grave contra um árbitro. Contra um jornalista já todos vimos esta segunda-feira! Lamentável, miserável, repugnante!
Eu, por momentos e em profundo sobressalto, pensei que o veria também contra Hugo Miguel em Moreira de Cónegos no final do jogo. Felizmente para todos tal não aconteceu, mas fica o aviso, o sério aviso, ao que pode vir a acontecer daqui em diante!

Ao dia de hoje, não sou ainda um árbitro de primeira, mas sofro com eles todo este clima que corrói o nosso futebol. Mais do que sofrer por eles, começo sim, a ter medo por eles. Alguns deles são meus amigos, outros exemplos daquilo que eu desejaria ser um dia!

Eu só queria um futebol com equipas, com paixão, com gozo pelo fenómeno do futebol, com adeptos corretos nas bancadas, com erros de arbitragem (poucos de preferência e erros aceitáveis). Erros aceites por aqueles que os veem, aceites como naturais, porque o são quase sempre! Errar é humano e sem erros, também não haveria futebol.

Infelizmente, pouco disto depende de mim. Se as autoridades não atuarem, não adianta o clamor nem os pedidos de ajuda. Muitos jornalistas, dos diversos canais e jornais, têm feito a sua parte. Mas também têm família como eu, também temem por eles como eu e, como se viu, têm motivos para isso.

 Também para esses uma palavra de gratidão, mas também uma opinião muito pessoal. Não adianta falarmos na qualidade dos nossos árbitros, enquanto não resolvermos todos os problemas em redor do futebol. Nenhum árbitro do mundo conseguiria, neste clima e neste ambiente, ficar imune e desempenhar o seu trabalho com a tranquilidade que necessitam. Nenhum árbitro do mundo teria condições psicológicas para atuar neste permanente sufoco, como se de um campo de batalha se tratasse. A atmosfera do futebol é irrespirável, todos querem ganhar a sua parte. Mais do que gostarem dos seus clubes, muitos dirigentes (felizmente não todos como é obvio) estão preocupados com as consequências que os resultados negativos das equipas possam ter nas suas contas bancárias. A Super Liga Europeia é exemplo disso e todas estas atitudes são prova inequívoca disto.

Eu tenho 21 anos. Estou a terminar o 3º ano em Medicina. Para além disso, sou Nadador-Salvador e sou, orgulhosamente, árbitro de futebol da AFBraga e membro da direção da Associação de Árbitros de Futebol de Braga (digamos, a APAF distrital). Tenho 21 anos de história e de histórias em que sempre lutei pelo bem estar dos outros e por um mundo melhor! Será que não posso sonhar em, para além de médico, ser árbitro profissional por ter medo do que isso pode significar para a minha vida e para a vida daqueles de quem gosto? Será que este clima de medo que dura há 3 ou 4 décadas vai perdurar para sempre e impedir que o nosso futebol se possa tornar, também, uma referência?

Sinceramente começo a perder a esperança. O futebol, o desporto e o espetáculo rei, que movimenta e motiva milhões no nosso país, poderia ser o exemplo, um bom exemplo para o resto da sociedade, mas é precisamente o contrário. Não pelos árbitros, não pelos jogadores, não por alguns treinadores, que juntos são os intérpretes de um jogo de futebol.

Termino este longo testemunho com duas perguntas que não me saem da cabeça:

Como é possível que os principais protagonistas e que deveriam ter o papel principal, acabem por ficar subvertidos à imagem daqueles que gravitam em redor do futebol?

Será que poderei e deverei continuar a lutar, em paz, pelo meu sonho?

Era só isso que queria, ver futebol, gostar de futebol, ser árbitro e ser um jovem normal, como todos os outros… que sonham!

Autor: José Miguel Gonçalves 

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