A opinião do jornalista José Carlos Freitas

José Carlos Freitas
José Carlos Freitas Jornalista

Cruyff, o homem que me ofereceu um arenque fumado

Foi algures no verão de 1985 que me cruzei pela primeira vez com Johan Cruyff. Foi em Amesterdão, numa velha fábrica de uma conhecida cervejeira local recuperada e transformada em espaço de convívio. Era altura da apresentação de um daqueles inúmeros torneios de pré-época que na altura se realizavam por essa Europa fora.

Estava ali em trabalho porque o Ajax, onde Cruyff regressara nessa época como treinador, iria defrontar o FC Porto na então Taça dos Campeões Europeus e iria "espiar" a equipa holandesa em jogos daquele torneio, no velho Estádio Olímpico de Amesterdão.

Já depois da apresentação formal do torneio, houve oportunidade para os jornalistas (poucos nesse tempo) beberem uma cerveja com os treinadores e alguns dos jogadores das equipas envolvidas. Cruyff, como bom holandês, pegou num arenque fumado e, como manda a tradição, foi mordiscando o peixe, comendo-o todo, da cabeça ao rabo, com espinhas e tudo.

Confesso que nunca consegui gostar do petisco e na cavaqueira perguntei ao eterno 14 – "Como é que vocês conseguem comer isso?" Ele, tão rápido como se estive em campo, atirou-me com uma gargalhada à mistura – "da mesma forma que vocês, portugueses, comem sardinhas assadas!" Ficamos ali uns minutos, ele a tentar convencer-me das delícias dos arenques fumados e eu, mesmo não gostando de sardinhas assadas, a defender a nossa dama portuguesa.

No dia seguinte, fui no antigo centro de treinos do Ajax, no antigo estádio De Meer, e Cruyff recebem-me com uma provocação: "Então, já provaste arenques fumados? Ou comes um, ou não te deixo falar com ninguém"… Deu-me uma palmada nas costas e foi simpático o suficiente para me deixar falar com o Gerald Vanenburg e o Frank Rijkaard sem me obrigar a comer o tal arenque.

Encontrei Johan Cruyff uma dúzia de vezes mais, sempre de forma fugaz, mas foi só há uns anos, quando estava com o meu amigo Paco Aguilar, do Mundo Deportivo, que ele me reconheceu – "não és o português do arenque?" E deu-me um abraço, por entre uma gargalhada.

E, é verdade, foi o único homem na história do futebol que foi tão grande como jogador e depois como treinador. Mas isso, é outra história. Prefiro recordá-lo naquele fim da tarde a beber cerveja e a comer arenques fumados.

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