Chama-se Sérgio Ferreira Carmo, tem 23 anos, é sócio e adepto da União de Leiria, mas também sente o coração bater forte pelo Benfica e Arsenal. Representou Portugal na "Copa Manageria" de Football Manager 2018, organizado pela Sports Interactive na sua sede em Londres e, claro está, esteve à conversa com o Record Gaming para explicar todos os detalhes desta experiência.
Estiveste a representar Portugal no evento "Copa Manageria" de Football Manager 2018. Em que consiste este evento?
A Copa Manageria foi organizada pela primeira vez este ano contando com 16 participantes de diferentes países europeus. Os países foram escolhidos com base no número de jogadores que têm, ou seja, estavam representados no torneio os 16 países que têm mais jogadores de FM, sendo que, acabaram por ficar de fora países muito representativos e que tanto contribuíram para evolução do futebol, como Espanha ou Alemanha. Escolhidos os 16 países, cada país decidiu a maneira como ia escolher o seu representante. Sei que, por exemplo, a Holanda escolheu o seu representante através de votação pelo Twitter tendo sido escolhido o conhecido Guido Merry, gestor da página Strikerless. Portugal escolheu o seu representante através de um passatempo promovido pela EuroGamer. Basicamente a pessoa que demonstra-se que era o maior fã de FM ganhava a oportunidade de participar no evento promovido pela Sports Interactive. No sábado de manhã chegaram todos os participantes à sede da Sports Interactive e depois de almoço começou o evento que durou atè as 8 da noite, altura em que terminou a fase de grupos. No domingo os representantes que passaram aos quartos de final foram a jogo e os restantes jogadores eliminados tiveram o dia livre.
E como venceste o passatempo?
Envio em anexo a minha participação no passatempo para poderes ver como fui eleito o maior fã de FM em Portugal. Foi com um texto sobre o Tenerife.
Como é a dinâmica deste torneio? Fazem uma temporada, alguns jogos?
A Copa Manageria tinha 16 representantes de países diferentes (Portugal, França, Holanda, Itália, Noruega, Polónia, País de Gales, Escócia, Irlanda do Norte, Suécia, Dinamarca, Bélgica, Grécia, Irlanda, Inglaterra, Bósnia). O evento consistiu num torneio com formato de Campeonato da Europa de Futebol jogado no modo DRAFT. No DRAFT, cada participante tinha um orçamento de 500 milhões de libras e tinha que escolher inicialmente 5 jogadores do seu país (escolhi Ronaldo, Bernardo Silva, Bruma, Ruben Neves, Guerreiro e Pepe) e 3 tinham que ser titulares. O plantel tinha que ter no mínimo 18 jogadores e no máximo podia ter 20 jogadores. A ordem de escolha foi aleatória, sendo que, no caso de eu, por exemplo, escolher o Ronaldo mais ninguém o podia escolher.
Estes foram os meus eleitos: Neuer, Rajkovic; Carvajal, Pepe, Vida, Guerreiro, Kongolo, Ricardo Carvalho; Ronaldo, Hamsik, Bernardo Silva, Tolisso, Carrasco, Casemiro, Sisto, Bruma, Ruben Neves, Kluivert; Mattia Destro.
Constituídas as equipas foram sorteados (através de rifas dentro de uma caixa tirados à sorte) os grupos. Fiquei no grupo da Holanda (favorito a ganhar o torneio), da Bélgica e da Irlanda do Norte.
Fiz os seguintes resultados:
a) O primeiro jogo ganhei à Bélgica 2-0 (Guerreiro e auto golo);
b) No segundo jogo perdi contra a Irlanda do Norte 1 (Ronaldo)-2 (Diego Costa e Kyle Lafferty). O Kyle Laferty acabou por ser o herói do torneio ao marca neste jogo aos 91 minutos e ainda a faturar nos quartos de final;
c) No terceiro jogo comecei a ganhar 1-0, mas o holandês empatou e aos 20 minutos fiquei sem o Ronaldo por lesão e acabei por perder 1-3.
Acabei por ser eliminado do torneio e fiquei com domingo para conhecer o estádio do West Ham e comprar uma camisola do Mark Noble.
Certamente tiveste momentos engraçados neste evento. Conta-nos alguns deles?
O mais engraçado foi a oportunidade de partilhar a paixão pelo futebol e principalmente pelo FM. Nunca tinha estado num evento de videojogos e foi de facto uma experiência fantástica. Há uma história que me marcou muito até porque ditou o meu afastamento da competição. O rapaz da Irlanda do Norte apurou-se com um golo do coxo Kyle Lafferty, sim esse mesmo! Desde então, ele passou o resto do fim de semana a cantar uma música do Kyle Lafferty, o que acabou por ser engraçado porque no final do torneio já todos cantávamos essa mesma musica sobressaindo o enorme fair-play vivido durante o decorrer do torneio.
E qual é a tua relação com o FM?
Bem, quase que crescemos juntos! Acho que comecei a jogar por volta dos 7 anos por influência do meu primo mais velho, André Miranda (atual treinador de futebol no Peimari United, equipa finlandesa). Desde sempre que passávamos os fins de semana juntos, a jogar futebol, a jogar PES, FIFA e FM e a ver qualquer jogo que passava na televisão. Era um fim de semana exclusivamente desportivo. Desde que comecei a jogar nunca mais parei tendo perdido muitas horas da minha vida no FM. É um jogo que me fascina, não tanto pelo aspeto tático, mas mais pela capacidade e facilidade de observação de jogadores. Há imensos jogadores que antes de serem conhecidos pelo adepto comum já eu os acompanhava inicialmente pelo FM e posteriormente através de vídeos no Youtube ou mesmo jogos que fossem transmitidos na Internet.
O que te parece a mais recente edição FM 2018? O melhor até agora?
Sou advogado estagiário em LisbonLaw, em Lisboa, e por isso não tenho o tempo disponível para jogar FM que já tive em anos atrás. Por isso, confesso que ainda não tive muito tempo para dar uma opinião segura sobre o FM 2018. Ainda assim vou arriscar numa opinião ainda sem grande critério. Achei interessante o destaque dado à dinâmica do grupo que cada vez mais tem influência no futebol, algo que já vinha sendo trabalhado pela Sports Interactive (ex: em edições anteriores do FM, apesar de estar a lutar pelo acesso à Champions com o hull cheguei a ser despedido devido ao descontentamento de jogadores). Já reparei que ao nível da observação de jogadores, os olheiros elaboram relatórios mais concretos, nomeadamente através da avaliação dos jogadores de 0 a 100 conferindo-nos a possibilidade de saber se aquele jogador é aquele que realmente procuramos. Por ultimo senti que jogabilidade está um pouco melhor apesar de o meu computador não garantir os melhores gráficos [risos].
Uma das features mais faladas foi a cena dos gays se assumirem. Achas importante ou é apenas uma pequena gota no oceano da luta contra a homofobia?
A homossexualidade é um tema bastante atual e que muita tinta faz correr. Na verdade, são muito poucos os jogadores que se assumiram publicamente como homossexuais, pelo que, não sei se este foi um modo da Sports Interactive apoiar a diversidade e o gosto de cada um. Na minha humilde opinião, não considero que seja relevante para o jogo até porque, no jogo, não há noticias sobre a vida dos jogadores, por exemplo "Pogba compra mansão junto de Pep Guardiola. Será que se vai mudar para o City?". Entendo que seria muito mais proveitoso tentar por exemplo enquadrar os agentes no FM. Atualmente os agentes infelizmente quase que mandam no futebol. São eles os responsáveis pela maior parte das transferências e como tal acho que a Sports Interactive lhes devia dar outro tipo de reconhecimento no jogo.
Teres participado neste evento abre-te portas para futuras aventuras? É isso que queres fazer?
Nunca pensei em participar em eventos como este. Aliás o passatempo que ganhei encontrei-o por acaso. A verdade é que é um jogo que gosto bastante. Ao contrario de outros jogadores, nunca partilhei táticas, performances ou evolução de jogadores publicamente, por exemplo, através das redes sociais. Neste sentido, a minha participação em eventos parecidos só acontecerá em circunstâncias semelhantes à minha participação na Copa Manageria.
Então rematamos com aquilo que deveria ter perguntado no ínicio. Quem é o Sérgio?
Chamo-me Sérgio Ferreira Carmo, tenho 23 anos, sou sócio e adepto da União de Leiria, adepto do Benfica e do Arsenal. Sou de Leiria, cidade em que tive oportunidade de representar três clubes nos escalões de formação: SCLMarrazes durante 7 anos (onde o Rui Patricio foi formado), 1 ano na GRAP e 4 no GDRBpavista onde alcancei uma subida de divisão e venci uma taça distrital. Aos 18 anos mudei-me para Lisboa, onde frequentei a licenciatura em direito na Faculdade direito da universidade de lisboa. Em 2016, entrei no mestrado de direito empresarial da Universidade Católica Portuguesa e o qual continuo a frequentar (já acabei a parte letiva e encontro-me a fazer a tese de mestrado). Atualmente sou advogado estagiário em LisbonLaw, me Lisboa, e alem de estar a fazer a tese de mestrador vou começar em dezembro a frequentar as aulas da ordem dos advogados. Apesar desta vida caótica há duas paixões que permanecem intactas, a do futebol.
Muito obrigado. Só falta mesmo colocar aqui o texto que te garantiu a vitória. Obrigado e um abraço!O MEU TEATRO DOS SONHOS
"Vamos, vamos Tenerife, yo te levo dentro de mi corazón"
Dia 14 de outubro de 2017, pelas 04h00, o despertador toca. Não consegui dormir. Nesta noite já só pensava no dia que ia ter pela frente. Sabem porquê? Aquele foi o DIA, o DIA em que finalmente tive oportunidade de conhecer o vibrante e entusiasmante Heliodoro Rodríguez López. "Heliodoro Rodríguez López, o estádio do Club Deportivo Tenerife?", perguntam vocês. Sim, esse mesmo, onde jogaram e treinaram ilustres conhecidos como Robert Enke, Roy Makaay, Oliver Neuville, Mista, Domingos Paciência, Jupp Heynckes e Rafa Benítez!
O melhor é recuar uns anos atrás e explicar-vos a verdadeira essência da conhecida frase "O amor não se explica, sente-se". Desculpem a lamechice. Corria o ano de 2006, ano em que a armada lusitana conquistou um nunca desprestigiante 4º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol disputado na Alemanha, e todos os jogadores de Football Manager aguardavam ansiosamente pelo lançamento de mais uma versão do seu videojogo preferido. Eu, apesar da tenra idade (12 anos), era um deles. Enquanto Leiriense iniciei, como em anos anteriores, um "save" com a União Desportiva de Leiria, tendo em Harison o principal destaque da equipa que me levou, ao fim de três temporadas, à tão desejada conquista da então Bwin Liga. No entanto, alcançados os objetivos com o clube da "terra", como os bons costumes ditam comecei um novo "save". Desta vez, a escolha recaiu sobre o Club Deportivo Tenerife. Foi aqui que tudo começou. A equipa não era brilhante, poucos jogadores se destacavam (recordo-me do talentoso Ayoze), e, no decorrer da primeira época (sem contratações), todos os jogos eram uma verdadeira batalha, tendo ficado a meio da tabela. Não consegui subir de divisão. Ainda assim, sem nenhuma razão plausível (quantas vezes não desisti de um jogo por não ter alcançado os objetivos), continuava motivado e contente em treinar virtualmente o TETE. A nova época trouxe mudanças e alcancei a subida, à qual se juntou, um ano depois, um acesso inédito à Champions League, com uma equipa do Tenerife que contava com Suso, um dos jogadores mais acarinhados pela carismática afición, Frente Blanquiazul, e que compõe o atual plantel. O entusiasmo era tanto que treinei o TETE durante 27 épocas, levando, inevitavelmente, o clube à glória.
A partir desse momento, procurei saber mais sobre o grande clube sito em Santa Cruz. Um clube modesto, sem grande visibilidade e que, só quem o procura conhecer, se apercebe da sua grandeza. E assim foi. Foram 11 anos a seguir o TETE pelo Football Manager (todos os anos jogo um "save" até conseguir alcançar a tão desejada conquista do campeonato), pela internet, pela televisão (sim na televisão, porque em 2008-2009 subi de divisão e tive o prazer de assistir a alguns jogos do TETE na edição 2009-2010 da Liga BBVA, apesar de, infelizmente, ter descido de divisão duas vezes seguidas, facto esse que não serviu de desculpa para deixar de acompanhar a equipa, afinal "Blanquiazul es un sentimiento").
Voltando ao meu Conto de Fadas, sim o MEU Conto de Fadas. Dia 14 de outubro de 2017. São 18h45. Falta uma hora para começar o jogo (Tenerife x Numancia). Tenho que ir comprar a camisola, o cachecol e o bilhete de jogo. "Estou com tempo", penso eu. Começo a chegar às proximidades do Heliodoro Rodríguez López e a Frente Blanquiazul já entoa os seus cânticos. São 19h10. Estou a escolher a camisola do TETE que vou comprar. De repente ouvem-se festejos da afición, golo do TETE. Golo do TETE?? Golo do TETE. Não é que me enganei-me a ver a hora do jogo? O jogo, afinal, tinha iniciado às 19h00. Não acreditava no que, logo naquele DIA, me estava acontecer. Pouco depois, Numancia iguala o marcador. Entretanto já tinha perdido dois golos. Compro a camisola, compro o cachecol e acabo por comprar o bilhete a um adepto local. São capazes de adivinhar em que sítio fiquei? No meio da Frente Blanquiazul!! Sim, eu fui para a claque do TETE. A afición é incrível, durante 90 minutos, nunca pararam de cantar e apoiar o TETE. O marcador permaneceu inalterado até ao final dos 90 minutos. Como foi o jogo? Perguntam vocês. O jogo foi muito disputado a meio campo sem grandes oportunidades, mas, sinceramente, não consigo dizer mais que isto. Estava completamente fascinado com a atmosfera que encontrei no Heliodoro. Em toda a minha vida foi, sem dúvidas, o jogo que mais gostei de assistir. Não pela qualidade do futebol jogado. O encanto, esse, foram as circunstâncias em que todo este sonho de concretizou.
Chamem-me louco por viajar tantos kms para uma pequena ilha, mas o MEU Conto de Fadas concretizou-se. E tudo começou com um "save" de Football Manager. Quem diria, o efeito que o videojogo, sim O V-Í-D-E-O-J-O-G-O (não jogo mais nenhum), pode ter na vida de uma criança. Atualmente, com 23 anos, continuo a mesma criança completamente fanática pelo videojogo, pelo futebol e pelo meu eterno TETE.
"Esta es tu grada, tu grada, tu grada, tu grada la que anima, anima, anima, anima con el alma, el alma, el alma, el alma en la garganta, garganta, garganta, wowwoowww"
Por João Seixas