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Francisco Guimarães: Escala do sucesso via Índia

Aos 20 anos, o sonho de atingir patamares elevados obrigou o português a fazer as malas e a aceitar o convite de integrar a equipa técnica do Delhi United

Em março de 2013, quando Jorge Jesus perguntou, na Faculdade de Motricidade Humana, num auditório com cerca de 300 jovens, quem queria ser treinador, praticamente todos levantaram a mão. Nessa sala cheia de sonhos estava Francisco Guimarães, na altura com 15 anos. Também ambicionava o mesmo e, por isso, percebeu que tinha de se diferenciar dos demais que seguiriam o percurso normal. Depois de pensar muito e ter já dado os primeiros passos nas camadas jovens como treinador adjunto, acabou por aceitar o convite para acompanhar Hugo Martins, com quem já tinha trabalhado no 1º de Dezembro, e integrar uma equipa técnica na... Índia! Embora frise que dizer sim ao projeto do Delhi United não foi fácil.

"Confesso que não foi uma decisão tomada de ânimo leve e foi muito dura e exigente. O facto de ter de sair de casa pela primeira vez, para um país tão longínquo e tão diferente, fez-me pensar bastante. Mas o facto de confiar muito no Hugo Martins e de gostar muito de trabalhar com ele, pela qualidade que tem como homem e como treinador, fez-me aceitar este convite, sem medo do que poderia encontrar", conta Francisco Guimarães, explicando como acredita que tal possa contribuir para evoluir enquanto técnico: "Durante a minha ainda curtíssima carreira tenho tentado construir um caminho diferente. Comecei a treinar aos 15 anos, aos 16 era adjunto da equipa sub-19 do Estoril, aos 19 era treinador principal dos juniores do 1º de Dezembro e adjunto dos seniores. Essas experiências fizeram-me construir um caminho invulgar para um treinador e, por isso, senti necessidade de continuar a escrever essa história e pensei que uma aventura, com 20 anos, num país com uma cultura tão diferente, onde a adaptação ao contexto tem de ser constante, não traria nenhum mal. Bem antes pelo contrário, poder ter esta aprendizagem tão novo é uma bênção. Trabalhar com pessoas tão distintas, treinar no profissional pela primeira vez, a forma camaleónica com que tenho de agir, tem sido uma aprendizagem muito grande e penso que sairei daqui muito mais preparado. Confesso que é duro, mas obriga-me a sair de mim mesmo e isso tem sido ótimo. Nunca estou demasiado confortável", sublinha o jovem.

Três meses depois, Francisco Guimarães faz um balanço positivo, mas nem tudo é um mar de rosas: "Tudo é invulgar para um europeu. O trânsito, a língua, a higiene, a comida, a forma de estar na vida. Por isso, além de crescermos em termos profissionais, podemos ter aqui a oportunidade de ganhar mundo. Isso é incrível, juntar o crescimento profissional ao humano. Não tenho dúvidas que sairei um homem diferente daqui." *

"Jogadores estão sedentos de aprender"

Francisco Guimarães está a ajudar no tremendo desafio de apoiar os indianos a desbravar o mundo do futebol, o qual até há uns anos era perfeitamente insignificante, mas o jovem de 20 anos acredita que tem tudo para correr bem. E sustenta essa ideia com a mentalidade que encontrou.

"O futebol indiano precisa de tempo. Ainda está tudo muito no início. O que nos faz acreditar no futuro do desporto é a mentalidade dos jogadores. Estão sedentos de aprender, têm uma humildade fora do comum e trabalham imenso! E, podem não acreditar, mas há talento por aqui. Se houver desde cedo condições e qualidade de treino na formação, têm tudo para se desenvolverem e ambicionarem outros patamares", assinala, contando o sacrifício que muitos fazem em busca do sonho: "Por exemplo, em treinos de captação que fizemos, onde avaliámos quase 100 jogadores num dia, apareceram alguns que tinham feito 12 horas de viagem apenas para treinar. Alguns desses tiveram de ser rejeitados, visto que não podíamos ficar com todos os jogadores. A primeira reação deles foi agradecer a experiência e a oportunidade de se poderem mostrar. O mesmo se passou com jogadores que foram dispensados. Levamos estalos de verdadeira humildade."

Apesar de todo o esforço que Francisco Guimarães reconhece existir, salienta que nem sempre tudo corre bem: "Vivemos situações muito caricatas. Uma vez, após ter montado todo o aquecimento, antes de um jogo oficial, obrigaram-me a aquecer fora do campo para não estragar a relva. A comunicação também se torna uma barreira. Por exemplo, um jogador, cinco minutos antes de começar o jogo, perguntou-nos qual seria a nossa forma de pressionar. Isto após termos treinado durante toda a semana a nossa estratégia com vídeos e exercícios. Temos de saber gerir todas essas questões com alguma mestria."

Hugo Martins é parceiro de viagem

O percurso de Francisco Guimarães confunde-se muitas vezes com o de Hugo Martins, que o escolheu como adjunto na equipa técnica do 1º de Dezembro e de quem recebeu o convite para trabalhar na Índia.

"A existência do Hugo nos últimos tempos da minha vida tem sido fundamental, o que me leva a agradecer diariamente ", sublinha Francisco, antes de explicar de onde vem esta longa ligação: "O Hugo Martins foi adjunto do Luís Norton de Matos na seleção sub-17 da Índia, antes de ser o técnico de juniores do Estoril, onde eu era adjunto. Passado uns meses, o Hugo foi para o 1º de Dezembro e convidou-me para trabalhar com ele na equipa principal e foi nesse momento que também surgiu a hipótese de ser o treinador principal dos juniores."

A estada do Hugo Martins na seleção indiana levou ao passo seguinte. "A competência dele fez com que fosse convidado para treinar o Delhi United e perguntou-me se eu queria acompanhá-lo nesta aventura", lembra Francisco Guimarães.

Hipótese de continuar será equacionada

Não foi fácil arrumar as malas, despedir-se da família e rumar até a um país longínquo por seis meses. Francisco Guimarães tem viagem de regresso marcada para o final de maio, mas avisa que não coloca de parte voltar de novo à Índia para dar continuação ao trabalho.

"Não estou nada arrependido de ter dado este passo. É bom ajudar e ver estes jogadores crescerem diariamente, pelo que não digo que não voltarei. Será tudo uma questão de oportunidade e das propostas que surgirem", começa por salientar o treinador adjunto do Delhi United, embora não esconda que as saudades já se fazem notar: da família, dos amigos e também da comida, nomeadamente "da carne de vaca".

Numa realidade totalmente diferente daquela a que estava habituado, o jovem católico que até já foi à missa na Índia acompanhado por um jogador, tem feito tudo em busca do sonho de chegar a patamares elevados no que ao treino diz respeito, está "grato por tudo" o que tem vivido. E, quando lhe pedimos para exprimir tudo aquilo que está a viver, acaba citando uma frase do épico filme ‘O Clube dos Poetas Mortos’: "Sinto-me a ‘sugar o tutano desta vida’."

Decisão até nos equipamentos

O Delhi United é o clube que confiou em dois portugueses para ajudar a equipa a subir ao primeiro escalão do futebol indiano e a esperança é tanta, que até a escolha da cores dos equipamentos passou por Hugo Martins e Francisco Guimarães. "Ele é o treinador principal da equipa sénior e eu sou o seu adjunto. A relação que o Hugo tem com o presidente faz-nos ter um envolvimento total em todos os aspetos do clube, desde as escolhas dos equipamentos até à decisão sobre todos os jogadores do plantel. E isso é riquíssimo. Obriga-nos a fazer coisas de que não estamos à espera e para as quais não estamos vocacionados e estas ‘funções’ acarretam uma aprendizagem constante", refere o jovem técnico, antes de se mostrar orgulhoso por assistir já " a um notório crescimento da equipa".

Intromissão no reino do críquete

Num país onde o críquete ainda é o desporto-rei, o futebol ainda tem muitos passos a dar e foi esse o desafio apresentado e que está a tentar ser ultrapassado com o apoio português. "O facto de o críquete ser o desporto principal não ajuda em certos momentos, como por exemplo nas condições dos campos. Mas essa adaptação constante é desafiante. Estamos a tentar trazer uma nova metodologia ao futebol e os jogadores têm tido uma enorme aceitação. Queremos ascender à primeira divisão, apesar de sabermos da enorme dificuldade por tudo aquilo que não conseguimos controlar", relata Francisco Guimarães.

Por Valter Marques
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