Romeu e Julieta marroquinos

Viagem ao Vale de Assif Melloul

Aqui compra-se de tudo e vende-se de tudo. O Moussem de Imilchil é um gigantesco mercado ao ar livre, mas também uma feira de gado e uma feira popular. Um acontecimento anual que leva ao Vale de Assif Melloul, no Alto Atlas marroquino, milhares de pessoas da tribo dos Ait Hadiddou.

O Moussem dos Noivados é uma festa popular cuja origem se perde no tempo, na Lenda de Imilchil, na qual se conta um amor impossível entre dois jovens pertencentes a distintas fações, os Ait Brahim e os Ait Ya’za, que mantinham entre si uma guerra sem quartel. Isli, o rapaz, e Tislit, a rapariga, não conseguiram manter o seu romance em segredo e, quando este foi descoberto, diz a lenda, que se atiraram aos dois lagos, que hoje têm os seus nomes, morrendo afogados. Mas estas mortes não foram em vão, pois as famílias decidiram que nunca mais seriam proibidos os casamentos entre os jovens de cada uma delas.

E assim começou a realizar-se todos os anos, no final do Verão, a Festa dos Noivados, onde os jovens podiam escolher livremente com quem pretendiam casar. Por isso, as raparigas apresentavam-se nesses dias com as suas melhores roupagens e com o rosto especialmente maquilhado enquanto os rapazes optavam por vestir de branco ou de cores muito claras. E quando a ‘escolhida’ dava o sim à proposta de casamento que lhe fora feita, a resposta desta era "Prendeste o meu fígado", já que, na cultura berbere, é no fígado e não no coração que se localiza o amor.

Mudam-se os tempos...

Claro que, com o passar dos anos, o Moussem se foi transformando e, hoje, é sobretudo um festival musical e um gigantesco mercado ao ar livre. Vendem-se cabras, burros, vacas, dromedários, cavalos e todo o tipo de animais caseiros; frutos; produtos agrícolas; alfaias; mantas de tecelagem artesanal; telemóveis e também inimagináveis gadgets "made in China". Os restaurantes, mais ou menos duvidosos, estão sempre cheios. Os jovens vestem jeans rasgados; as jovens envergam cores vivas e sorrisos encantadores. A tradição já não é o que era, mas ainda se vê aqui e ali, entre os mais idosos.

À noite, no Festival de Música dos Cumes – como agora se designa – as praças estão cheias de um público que vibra com os que actuam nos palcos enormes e que pouco ou nada liga aos políticos que, obviamente, aproveitam essa concentração de massas para lhes dar outro tipo de ‘música’.

O Moussem já não é o que era, mas continua a ser um acontecimento inesquecível. E todas as noites – diz a lenda – Isli e Tislit, os Romeu e Julieta marroquinos, continuam a emergir dos lagos para se amarem.

Por Eládio Paramés
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