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Há muito que se sabia que os irmãos Ingebrigtsen já não eram treinados pelo pai Gjert, mas esta semana surgiu um desenvolvimento surpreendente, que coloca a nu a infância que Jakob, Filip e Henrik tiveram. Pelo menos a crer nas revelações feitas pelo trio de atletas noruegueses, numa dura carta aberta enviada ao jornal VG (Verdens Gang), na qual dizem ter crescido "com um pai que foi muito agressivo e controlador, que usou violência física e ameaças" como parte do seu crescimento.
Uma carta, em jeito de desabafo e também defesa, que surge na sequência de vários meses de rumores, que tiveram o seu ponto mais crítico em agosto, durante os Mundiais de Budapeste, nos quais Gjert (enquanto treinador de Narve Gilje Nordas) foi impedido de aceder ao hotel oficial da Noruega por intervenção direta de Jakob. Depois de tantos comentários, tanto 'pingue-pongue' de indiretas, os três atletas decidiram dizer basta e defenderam-se.
"Durante quase dois anos, a imprensa norueguesa escreveu sobre o final da nossa ligação com Gjert enquanto treinador. Tudo foi descrito como um conflito familiar. O que é correto. Por respeito a toda a nossa família, não queremos entrar em detalhes. Tem sido difícil e muito pesado para muita gente, incluindo nós próprios", começa por ler-se na carta escrita pelos três irmãos, que em seguida lamentam que toda esta situação se tenha também tornado um conflito com a federação e Nordas, o tal atleta agora treinado por Gjert.
"Para nós este caso é apenas sobre uma coisa: uma situação familiar muito séria. Quando terminámos a nossa ligação ao Gjert, pensámos que seríamos capazes de lidar com a situação de forma civilizada, sem mencionar outras circunstância. Mas percebemos que não é possível. A situação ficou de tal forma inflamada que sentimos necessidade de esclarecê-la. Só o podemos fazer partilhando a nossa história. Escrever isto magoa-nos, de muitas formas. Magoa-nos porque afeta uma pessoa que significou muito para nós e para a nossa carreira. Porque afeta pessoas que nos são próximas. E pessoas que nunca pediram para ser chamadas a um conflito público. Mas ainda assim sentimos que é importante", continuam, antes de fazer uma revelação chocante.
"Crescemos com um pai que foi muito agressivo e controlador, que usou violência física e ameaças como parte do nosso crescimento. Ainda sentimos desconforto e medo, algo que está connosco desde a nossa infância. De certa forma já o tínhamos aceite. Vivemos com isso e na idade adulta conseguidos seguir em frente. Pelo menos pensávamos nós. Olhando para trás, percebemos que fomos ingénuos. Mas, há dois anos, a mesma agressividade e punição física voltou. Foi a gota de água. Conhecemos o medo de crescer com um pai agressivo, controlador e violento. Quando éramos pequenos, éramos um grande grupo de irmãos que estavam nisto juntos. Agora a situação é insuportável. Devíamos ter parado isto antes... Há dois anos percebemos que estava na hora de dizer basta".
"E foi nesse momento que decidimos terminar a nossa relação com o nosso país, pois era impossível para nós continuar a tê-lo como treinador. No meio disto tudo, tentámos manter os bons resultados. A pressão que sentimos foi desumana em certos momentos. Ficamos sem energia, a alegria de competir tinha desaparecido. Agora apenas queremos focar-nos nos treinso e nas provas. E queremos que os nossos adversários e colegas de corrida tenham o mesmo. Queremos voltar a desfrutar do atletismo e representar com a bandeira da Noruega no nosso peito", acrescentam.
Jakob Ingebrigtsen, como se sabe, é um dos atletas europeus mais fortes da atualidade, sendo o atual campeão olímpico dos 1.500 metros e bicampeão mundial dos 5.000. É também recordista mundial dos 2000 m, duas milhas e 1500 m em pista coberta.
Em resposta, Gjert Ingebrigtsen refutou as acusações num comunicado emitido através do seu advogado, lembrando que toda a infância e adolescência do trio de atletas foi alvo de um 'reality show', que muito sucesso fez na Noruega. "Essas declarações são sem sentido. Nunca usei violência contra as minhas crianças. Que cometi erros como pai, tal como enquanto treinador, é algo que entendi, ainda que demasiado tarde. A nossa família sempre viveu com atenção mediática, tanto que escolhemos que o público entrasse nas nossas vidas através de uma série de televisão, com entrevistas e muito mais. Essa violência nesta família que se tornou pública é algo inimaginável- Os noruegueses viram as nossas vidas, para o bem e para o mal. Estou longe de ser perfeito como pai e marido, mas não sou violento. Esta trágica situação para a minha família, que chega ao ponto de se espalhar mentiras na imprensa, deixa-me muito triste. Como vamos superar isto não sei. Mas temos de tentar".
Por Fábio Lima