As loucuras da quarentena: das maratonas no 'quintal' às sete de seguida na passadeira

Portugueses também se desafiam e fintam os condicionamentos da melhor forma

O período de confinamento pode ter travado a realização de provas um pouco por todo o Mundo, mas nem por isso levou os corredores a pendurarem as sapatilhas e encostarem-se no sofá à espera de que a tormenta passasse. Já aqui tínhamos dado conta de algumas loucuras vividas noutras paragens, mas a verdade é que também por Portugal há quem tenha decidido fintar as condicionantes e mesmo assim levar àvante o seu desejo de superação.

Foi o caso de André Gouveia, um corredor natural de Coimbra a viver em Lisboa, que no espaço de pouco mais de mês e meio viu duas provas alvo irem por água abaixo. No seu calendário estavam a Maratona de Tóquio e a de Londres, mas também sonho de completar o circuito World Marathon Majors e receber a tão desejada medalha das seis maratonas mais importantes do Mundo. Um sonho que estava ali à distância de pouco mais de 84 quilómetros, mas que o coronavírus decidiu travar (ou apenas adiar). Na altura, assume, a ideia do cancelamento de ambas as provas lhe custou - especialmente Tóquio -, mas agora, a frio, considera que a melhor decisão foi mesmo a que foi tomada.

Ora, sem Tóquio e Londres, este director financeiro de 40 anos não quis deixar o seu primeiro semestre sem uma maratona, nem que isso significasse fazê-la... à porta de casa. Foi no domingo, precisamente no dia em que se deveria ter realizado a de Londres, mas a escolha da data teve também um outro significado. "A 26 de abril de 2015 fiz a minha primeira maratona em Madrid. Fazer Londres (depois de Tóquio) e completar as seis Majors exatamente cinco anos depois da primeira maratona teria sido algo bastante especial para mim. A partir do momento em que Londres passou a estar em vias de ser adiada ou cancelada pensei logo em tentar comemorar a data de alguma forma. Fazer uma maratona nesse dia foi algo que comecei logo a pensar. Fazê-la em casa, sozinho, surgiu pelo desafio pessoal e por poder assinalar essa data com uma prova que será para sempre especial", explicou.

A ideia surgiu e, quase em 'segredo', decidiu levar àvante o seu desafio. Domingo, logo pela fresquinha (às 6h30), lançou-se à aventura, completando os 42,195 quilómetros da maratona num circuito que não teria mais de 200 metros. Ao todo, contas feitas por alto, André Gouveia terá dado mais 200 voltas à sua pista improvisada, algo que admite ter sido "a maior dificuldade, devido ao constante vai e volta", já que no plano mental assume que já "estava preparado para um número bastante elevado de voltas".

Mas não se pense que fazer uma maratona à porta de casa não teve coisas boas. É que, por estar logo ali, os abastecimentos estiveram sempre à mão de semear - águas, três geis e uma banana - e houve ainda direito a uma claque especial com a presença da mulher e dos filhos, que no final até estenderam uma fita na linha de chegada para receber o pai naquela que foi, mesmo que não-oficial, a sua 17.ª maratona. A 18.ª, se tudo correr bem, será em Londres, mas por agora o objetivo é superar toda a situação em torno do coronavírus e voltar a ter uma vida normal.

Passadeira também serve...

Para além de André Gouveia, esta última semana ficou igualmente marcada por um feito de assinalar por parte de Bruno Miguel Maia, um militar de 44 anos que ao longo de sete dias completou sete maratonas em cima de uma passadeira. Ao todo, este corredor natural da Moita esteve 25 horas e 47 minutos em ação, concluíndo o desafio com um registo médio de 3h40m56 horas por cada maratona (uma média de 5'14/km), sendo que curiosamente a mais rápida acabou por ser a última: 3h19m29, a um ritmo médio de 4'44/km.
 
No final, ficou "uma sensação de alívio, uma superação concluída e um grande orgulho por ter noção que fiz um pouco de história", assume Bruno Maia, que durante esta jornada viveu um percalço 'daqueles'. "Na noite de quinta-feira apanhei uma alergia, que me fez ficar mais debilitado devido ao mau descanso que comecei a ter nos dias seguintes. Fiquei com receio de não conseguir concluir esta aventura", admite.

Mesmo assim, e apesar dessa dificuldade adicional, o segredo para superar as dificuldades foi claro: "a resiliência, o trabalho feito anteriormente na resistência e muita cabeça, acima de tudo. O corpo não quer, mas a mente comanda!"

E depois deste desafio, o que se segue? "Agora é descansar, tirar ilações sobre o que foi feito e começar a preparar com afinco um dos meus objetivos, o Pt281+ Ultramarathon, isto se não for cancelado...".



Grupo ASICS FrontRunner realizou maratona em estafetas a 25 de abril

A loucura das maratonas não se ficou pelos dois desafios acima. No sábado, 25 de abril, o grupo ASICS FrontRunner Portugal decidiu juntar-se à 'onda' e, com elementos de norte a sul do país - e até um no Brasil - completou à distância também uma maratona. Uma não... duas! É que um dos elementos decidiu correr a 'prova' completa a solo, finalizando os 42,195 quilómetros no seu quintal, ao passo que os restantes seis elementos fizeram a sua parte em estafetas dentro das suas casas, fosse em passadeira ou simplesmente a correr... no corredor.

No final, feitas as contas, foram várias as centenas de quilómetros feitos à boleia deste desafio, já que para lá dos sete elementos do grupo (que no total fizeram perto de 85km) se juntaram ainda mais cerca de cem atletas um pouco por todo o país (e até do estrangeiro). Tudo para mostrar que, com maior ou menor dificuldade, é possível contornar as limitações e atingir os objetivos neste tempo de crise.

Por Fábio Lima
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