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European Running Championships: a experiência de Paula Parreira na maratona
Este ano, os Europeus foram abertos também aos atletas populares
A Maratona são mais do que 42.195 metros. Se alguém vos disser o contrário, desconfiem. Cada passo, cada metro, carrega muito mais do que distância. Tem meses de treino faça chuva, faça sol, haja motivação ou apenas disciplina. Tem suor, lágrimas, sorrisos, decisões de vida (muito) questionáveis (porque fazes isto contigo, Paula Cristina?!?), pelo menos umas três crises existenciais (às vezes em simultâneo, outras vezes a cada 10 km) e aquela vozinha interior que vos pergunta se realmente conseguem, se no mais ínfimo de vocês têm o que é preciso para A conquistar. Seja a vossa primeira Maratona, seja a vossa 21ª como foi a minha este domingo passado (13 abril) na Bélgica.
Pondo em contexto e fazendo aqui um prólogo: não sou atleta, nem tenho aspirações a ser uma máquina de performance. Já passei os 40, sou Mãe de uma adolescente maravilhosa de 13 anos e sou Cientista de profissão e por paixão. A corrida entrou na minha vida em 2015 na forma de uma promessa e acabei por ficar “viciada”. A corrida trouxe-me muito mais do que vos consigo transmitir, mas trouxe-me sobretudo a certeza renovada de que nada resiste ao trabalho e à disciplina. Que se nos dedicarmos e dermos o nosso 100%, havemos de chegar lá, seja o “lá” onde for. Foi assim que cheguei ao meu Boston Qualifier (entendedores entenderão).
Fast forward para a minha 21ª Maratona: sabem aquela sensação de ir nadar para a piscina dos grandes ou de vos deixarem ir à festa dos miúdos fixes? Foi mais ou menos isso que senti quando vi que podia fazer a Maratona incluída nos European Running Championships na Bélgica, indo de Bruxelas a Leuven (nota: sábado 12 corria-se a meia Maratona e domingo também os 10 km em Leuven). Estou a morar na Bélgica temporariamente por motivos profissionais e por isso não tinha como deixar escapar esta oportunidade. O objetivo para esta Maratona era simples: completar e chegar ao final com saúde e feliz (e com os dentes todos). Sei que muitos discordarão desta abordagem que, apesar de parecer, não tem nada de desrespeitoso pela distância, antes pelo contrário. Tenho muito respeito pela Maratona e sei que neste momento não é altura de me meter por caminhos apertados e ir a correr de faca nos dentes.
Sábado, 12 de abril: dia anterior à prova
Apesar de ser possível levantar o dorsal no dia da prova em Bruxelas, achei mais prudente fazê-lo no dia anterior. Assim, sábado de tarde fui a Leuven levantar o dorsal à Sportoase. Confesso que aqui bateu uma desilusãozinha, em muito potenciada por vir de uma Major (Tóquio). Não havia expo, feira, mil ofertas e “all that jazz”. Apenas várias bancas com os números de dorsal onde nos era entregue um envelope com 4 alfinetes e o dorsal. Como me inscrevi com antecedência, o dorsal tinha o meu nome impresso de forma bem visível (e que veio a revelar-se muito importante). Na área circundante do recinto havia uma série de barraquinhas de comida, música e a tenda de merchandising onde, entre outras coisas, era possível comprar a T-shirt do evento, igual para todas as distâncias (10, 21 e 42 km), por cerca de 30 euros. Acabei por comprar porque gosto de ter estas recordações e era de boa qualidade. De Leuven segui para Bruxelas (excelente serviço ferroviário!). Nada de grandes aventuras, comer e dormir e esperar que no dia seguinte a temperatura descesse para o normal Belga.
Domingo, 13 de abril, dia da prova.
O dia acordou cinzento e bastante mais fresco (ufa!). A prova começava às 10h15 no Palácio Real de Bruxelas, o que me permitiu acordar com calma, tomar o meu pequeno-almoço relaxada e ainda fazer uma paragem na esquina da Grand Place e rua Charles Buls para tocar no braço do t’Serclaes e pedir um desejo. Cheguei com algum tempo de antecedência, mas olhando em retrospetiva, devia ter ido com muito mais tempo extra. Nunca desprezem o tamanho da fila para a casa de banho! Mesmo após duas mãos cheias de Maratonas, ainda caio nesta armadilha. Acabei a ir esbaforida para o meu curral, nem tempo de ficar nervosa tive até ouvir o tiro de partida dada pelo Rei Phillipe (um luxo!). Os primeiros metros são em paralelo, mas rapidamente passam a asfalto e a descer (e todos sabemos que a descer todos os santos ajudam) e acabei a fazer os primeiros kms num entra e sai, sobe e desce constante pelos túneis de Bruxelas, de forma mais rápida do que devia. De notar que havia imenso apoio nas ruas, o que me surpreendeu pela positiva. Ao km 6, a primeira subida... 3 km sempre a subir, que a mim me pareceram 10... Valeu pelo apoio e pelo “Allez Paula!!!”. Ao km 9 respiro fundo e penso que o pior já passou (inocente, sabe nada) e foco-me no privilégio de estar ali. Caraças, estou a fazer uma Maratona na Bélgica, nos European Running Championships! Do km 9 ao km 30 fui entretida a ver a paisagem, perdida na minha cabeça e na minha música, num sobe e desce constante por entre parques, florestas, vilas patuscas e cheias de apoio (e wine gums e “Allez Paula!”), num percurso “quebra-pernas” que me fez lembrar Boston. Os abastecimentos? Impecáveis, muitas bancas de água e isotónico em copos de papel, crackers e bananas, quase sempre dos dois lados da estrada. Zero confusão, organização impecável, voluntários simpatiquíssimos (merci à vous)! A partir do km 30 e, apesar de nunca ter sentido o muro ou o “homem da marreta”, há sempre uma dose de sofrimento em todas as Maratonas. As pernas pesam, são só 12 km ou ainda são 12 km...? Nesta fase, acho que pelo km 31/32, cheguei a Leuven. Imensa gente a apoiar, a aplaudir, “Go Paula!”. E agora... são só 10 km ou ainda são 10 km? Os meus últimos 10 km são de conexão comigo, a tentar perceber de que matéria afinal sou feita... O que fica quando as coisas se tornam difíceis e o “bling bling” se apaga? Fico sozinha na multidão a enfrentar os meus demónios, dúvidas e medos. Serei capaz? As pernas pesam, apetece-me uma cerveja. E uma pizza. E uma waffle. Já só faltam 9 km ou ainda faltam 9 km? É um processo de dor e de cura, que me obriga a enfrentar verdades que guardo, sonhos que tenho, tristezas e desilusões que carrego e onde não posso fugir de mim mesma. Ao km 33 encontro o meu marido e paro para lhe dar um beijo. Articulo qualquer coisa como “mas isto nunca mais acaba?!?!” e sigo rua acima. As pernas começam a ameaçar com câimbras, após kms de sobe e desce... O percurso aqui entra num “out and back” e fica muito mais estreito, sendo apenas uma faixa. Não gosto, acabo sempre a olhar para quem vem no sentido contrário. Em alguns rostos, a certeza de que foi um dia bom. Noutros, a desilusão, as mãos na cinta, o olhar perdido ou cabisbaixo enquanto caminham um pouco ou o resto do percurso. São só mais 6 km. Quero uma cerveja, mas acabo a beber mais isotónico. Os últimos kms são a subir ligeiramente (sentido de humor estranho...) e com as pernas sempre a ameaçar com câimbras (calem-se e corram). Vejo a placa do km 41 e penso “vou conseguir!”. As placas com a contagem regressiva... 500 m... 100 m! É já ali, vejo a meta! Cruzar a linha de chegada é indescritível. É sempre uma explosão de emoções, de orgulho, de alegria, de conquista. Eu, esta pessoa com zero talento desportivo natural, cheia de limitações..., mas que nunca se rende, completei a minha 21ª Maratona em 3h 47’ish! Sigo para a medalha (bem gira!) e aqui fica o único ponto negativo que tenho a apontar: a saída da zona da meta bastante confusa, onde apenas deram uma garrafa de água e um bolo estranho (onde está a minha banana ?!?) ... Demoro eternidades (ou assim me pareceu) a conseguir chegar à zona envolvente da Sportoase, onde a festa continua. Música, comida, alegria, fotos com as medalhas, corredores dos 10 km (enorme a nossa Mariana Machado!) e 42 km a festejar a alegria de se terem superado, do privilégio que é poder ter saúde para correr. Dos cerca de 12500 participantes na Maratona, apenas aproximadamente 2000 eram mulheres. Uma % ainda baixa, que espero que venha a aumentar com o tempo.
Não posso deixar de agradecer a quem torna tudo isto possível: aos que me ajudam a chegar à melhor versão de mim (obrigada Tiago, Pedro(s), Nuno, Sancha!), aos que mesmo sem perceber bem o porquê de correr maratonas, mas se me feliz, me apoiam e dão força (Francisca, Guilherme, ...), aos que gritam agarrados a uma aplicação (Magui, you rock), aos que nos sussurram em espírito ao ouvido “tu consegues”. Aos eternos desconhecidos que gritam na rua quando passamos, aos voluntários que nos estendem água e nos oferecem um sorriso de encorajamento. Sem todos eles, nunca chegaria à linha de partida e muito menos à meta. Obrigada!
A Maratona é a minha distância preferida. É a viagem mais crua e intensa ao nosso interior, que nos mostra sempre do que somos feitos. Quem disser o contrário, não entendeu a corrida. Isso e saber que o “nunca mais vou fazer isto” é rapidamente substituído pelo “mal posso esperar pela próxima!”!
Autor: Paula Parreira