Maratona da Europa: A experiência de João Veiga

Quando a 3 dias da prova a vomitar, algo está mal.

O meu maior objetivo é terminar maratonas, e mesmo treinando pouco esta era para levar mais a sério. As 24 maratonas que levava com 30 anos, permitiam-me estar confiante que mesmo com lesões e constipações ia chegar a dia 28 e cumprir o planeado pelo mister Armando Monteiro e fazer pelo menos um dos meus melhores tempos. Mas como comecei por dizer, se a 3 dias da prova vomitas, algo está mal.

Depois de uma primeira hesitação de algumas horas meti-me com o meu grupo no carro e entre passeio e viagem chegamos ao Luso e eu continuava mal e agora com febre. Dia 26 finalmente a chegada a Aveiro, pouca comida na mesma, levantamento de dorsais e na cabeça a triste ideia de que tinha acabado ali, não ia poder arrancar para a prova. Dia 27 e uma ligeira melhora e um post de uns tais de Iron Brothers leva-me a avisar lá por casa que ia arrancar para a prova, mesmo sem forças, mesmo sem quase comer nos últimos dias, ia arrancar com eles, dizer-lhes que são os maiores e depois encostar e esperar por eles na meta porque eles sim iam acabar.

Para quem não conhece os Iron Brothers são dois super-heróis, o Miguel e o Pedro. O Pedro tem uma paralisia cerebral mas um coração do tamanho do mundo e convenceu o Miguel o ajudar a terminar uma série de provas e ajudar a dar destaque à APCL.

E assim no dia antes avisei o Miguel que ia com eles...depois disso foi tentar dormir já depois das 2 da manhã com o corpo a dizer não vás e a cabeça a dizer vai com eles.

Mas vamos à prova?

Logística de preparação feita e vamos para a partida. Entre desejos de boa sorte aos amigos do Correr Lisboa e Run 4 Fun, tentava descobrir os 2 manos, que teimavam em estar escondidos.

Encontrei-os no meio de amigos como não podia deixar de ser, e tal qual uma equipa ajudámos as duas cadeiras a chegar ao seu local de partida...sim duas...havia lá um José Gomes, outro super-herói de cadeira que teimava em animar a malta com a sua boa disposição.

Sorrisos para a câmara e vamos lá embora.

Inicio difícil com muito caminho para abrir para as duas cadeiras, mas mesmo assim os Kipchoges de duas rodas teimavam em ir acima do ritmo combinado. O grupo ia grande e eu levava com sinais contínuos de que provavelmente quando voltássemos ao centro devia parar e encostar, o corpo não queria correr.

Aviso o Pedro que tem uma claque privada à espera e depois do momento de enorme alegria o primeiro contratempo...salta a roda. Então e agora? "Eu mesmo correr não me ajeito quando mais dar em mecânico" penso eu...já o Miguel estava em modo F1 a colocar tudo no sitio e a dar indicações de como ajudar.

E se o pitstop foi rápido o arranque também parecia de um monolugar das corridas...saímos disparados a tentar recuperar caminho e, mesmo sabendo que era loucura, fomos como nos sentíamos.

Pouco depois deste esforço apanhamos a bandeira das 4h e a Inês. Mais uma amiga dos Iron Brothers que se estava a estrear e que animou bastante o Pedro. Fomos com este grupo animados mas tanto eu como o Miguel e eu começámos a acusar o esforço...eu pela doença dos dias anteriores, o Miguel pelo arranque e porque empurrar uma cadeira parecendo que não custa.

Começamos a abrandar, a Inês a olhar para trás e eu disse-lhe "Vai que vou com eles até ao fim", e a partir daí estava prometido.

Foram kms a gerir algumas vezes a andar, outras a correr, até que num minuto dois acontecimentos nos levaram ao colo.

Primeiro um speaker a lançar a música e eu e o Miguel a cantar a plenos pulmões "We Are The Champions" com o olhar do Pedro a acompanhar, e depois mais dois amigos que aparecem para nos ajudar até ao fim.

Entramos na cidade entra tudo em festa...amigos e mais amigos a gritar...fotografias...curva e contra curva...os pais dos manos heróis...a mulher e o filho do Miguel...e mais amigos...

Heis a desejada meta...pergunto ao Miguel se fazemos o combinado e ele acena cansado que sim...e quando nada o fazia prever a cadeira para...levantamos o Pedro e ele corta a meta em braços com o irmão...de pé como todos os outros atletas da prova. E o tempo? Sinceramente ninguém quer saber.

A seguir o que se viram foram amigos a chorar...abraços de amigos e de pessoas que há algumas horas nem se conheciam.

Faltava o meu prémio, não aquela bonita medalha que nos deram mas 2 obrigados e uma frase. O primeiro obrigado foi do Miguel num abraço sentido, o segundo da Inês que ficou tão descansada de eu ir com eles que fez uma prova enorme e por fim a frase da mãe dos manos, que ao meu comentário de "Tem uns filhos enormes" me responde com "Se são, é porque se rodeiam dos amigos certos"...e isto não tem preço e fica mais que comprovado na foto que vai ser para sempre uma das fotos da minha vida.

E como comecei por dizer, se a 3 dias da prova vomitas, algo está mal...ou então é só um sinal que vais fazer a tua melhor maratona.

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