MIUT 2019: A experiência de Cláudia Abreu

MIUT 85km, estava escolhido o desafio para este ano. Seriam várias experiências novas, além da distância, da altimetria, o numero de horas, nunca tinha passado a barreira das 9 horas em prova. Será que consigo comer ? vou ter sono ? e correr de noite, bem já corri uma meia dúzia de vezes! Ainda vou passar mal com o frio, nos Picos deve estar muito frio, as dúvidas eram muitas, mas pensei " eu treinei bem, não só para terminar a prova, mas para a fazer de modo a desfrutar ao máximo, mesmo que com algum sofrimento, e nisso eu estava confiante, estava preparada, quanto ao resto…. é o que torna esta aventura uma loucura!

Nesta longa preparação pude contar com a  ajuda, do meu amigo e treinador Alexandre Pinto, que já tinha participado nesta prova na distância dos 115km e que me acompanhou nestes últimos meses, definindo o plano de treino, dividido entre muitas horas na serra e ginásio, um plano adaptado ao meu horário, que muitas vezes me impede de treinar nos fins de semana, foi mais uma vez uma ajuda crucial. 5 meses depois do início desta viagem lá estava eu em São Vicente âs 7:00 da manhã, na tão desejada linha de partida, focada e segura parti juntamente com o meu amigo Alexandre Andrade, combinamos seguir  juntos até onde fosse possível, disse me para seguir no meu ritmo e ele acompanhava me, assim foi, puxamos um pelo outro durante toda a prova e seguimos juntos até a meta .

Os primeiros quilómetros acompanharam o nascer do dia, e a cada passada a imponente paisagem da ilha da Madeira com as suas montanhas a tocarem as nuvens faziam me sentir cada vez mais pequenina, num misto de respeito e entusiasmo. chegam os primeiros degraus, os famosos degraus de que tanto se fala nesta prova, e foram milhares….foi quando pensei "estou no Miut" isto está mesmo acontecer, vamos lá que eu consigo subir degraus até ao céu…." neste momento concentrei me realmente em tudo o que tinha treinado para estar ali, pensei nas palavras do Coach e lá fui eu.

Aproxima se a descida ao curral das freiras, as descidas eram a minha preocupação, com o cansaço acumulado estava um pouco apreensiva, mas esta correu lindamente, senti me segura, ia descontraída, aqui os treinos de descidas foram decisivos, foi das poucas vezes que tinha adorado uma descida, isso fez com que chegasse ao Curral das Freiras super feliz.

Aqui na base de vida, aproveitei e troquei de roupa, comi, reorganizei a mochila, o controlo da prova não deixava sair nenhum atleta com menos de 1litro de água, eu levei 1,5l para enfrentar a próxima etapa, que nos levava ao maciço central da ilha, estava um calor abrasador...

Foi uma das etapas mais difíceis de toda a prova, mas também a mais bonita, um verdadeiro paraíso, a tão desejada chegada ao Pico Ruivo, onde estava mais um abastecimento, daqui seguimos até ao Pico do Areeiro. O percurso entre os dois picos é indescritível, um sobe e desce de escadas, túneis, trilhos que percorrem a montanha em curva e contra curva, com as nuvens aos nossos pés, etapa muito emotiva fiquei com as lágrimas nos olhos.

Daqui seguimos até ao Chão da Lagoa, estavam feitos praticamente 50km e 4000D+ eu sentia me ótima, alimentação estava a correr bem, sentia me bem fisicamente, estava animada.

Saímos em direção ao Ribeiro Frio uma descida muito técnica, por entre um bosque lindíssimo atravessamos as nuvens, continuamos a descer entre trilhos que me lembram a minha querida Serra de Sintra, mal terminou a descida, estávamos de novo a subir, esta era última subida da prova, aqui senti uma pequena quebra, com o final do dia aproximar se , estava arrefecer e o abastecimento no Poiso nunca mais chegava…

Chegada ao Poiso, sentei me, só me tinha sentado no curral das freiras, comi, bebi um café que me soube pela vida e seguimos. Faltavam aproximadamente 30km (a prova teve 92km mais 6 km do que o previsto ) Há muito que não olhava para as horas, o tempo que idealizei na minha cabeça, tinha ficado para trás, agora era chegar a Machico.

Os Próximos 9km a descer levavam nos até a Portela, lembro me de ter ouvido, antes de sair deste abastecimento, que era preciso juízo na última descida, eu que já tenho receio das descidas, ouvir aquilo deixou me nervosa, por outro lado imaginei qq coisa de terrível, o que acabou por não acontecer, foi difícil porque nesta altura já íamos com longas horas de prova, mas não como tinha imaginado. Finalmente o Larano, o último abastecimento, daqui até a meta, 12km com todas as emoções ao rubro, e que pareceram uma eternidade, lembro de ir a correr na vereda do Larano, ouvir o gerador que alimentava as luzes que iluminava parte do trilho, e pensar " bolas ainda consigo correr" seguiram-se as levadas do machico e uma última descida onde me fartei de dizer asneiras... a cada passada uma "facadinha nas pernas" até entrar no alcatrão que nos levava até a meta!!! , 21h depois da partida, com 92km e 4900D+. Machico

Estava feita minha primeira ultra maratona, um carrossel de emoções e sensações ! È muito dificil para mim escrever sobre uma prova, muito menos descreve-la, como se no momento da partida entrasse em outra realidade. Aqui partilhei 1% do que foi esta viagem para mim, os outros 99% só vivendo.

Obrigada a todos , ao meu marido e filhos, na meta à minha espera já de madrugada‍, aos meus amigos e família, as minhas colegas de trabalho, ao Alexandre que foi a minha companhia durante esta jornada, ao Alexandre Pinto, obrigada por todo o apoio antes e durante a prova, foi brutal, obrigada a todos por me ajudam a ser feliz nas montanhas!

Tenho ainda que agradecer a todos os voluntários, organização que foram de uma simpatia incrível  sempre dispostos ajudar, muito obrigada.

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