PT281+: um primeiro passo rumo à (nova) normalidade

Prova, ganha por Vítor Rodrigues e Patrycja Bereznowska, foi a 1ª a ser realizada no nosso país no pós-paragem

Não bastasse a tarefa hercúlea de levar a cabo uma das provas de ultradistância mais longas e exigentes do nosso país - é a segunda mais longa, apenas atrás da Algarviana -, a organização da PT 281+ teve este ano a missão adicional (e de responsabilidade acrescida) de ser a primeira a colocar em campo a primeira competição em Portugal no pós-paragem devido à Covid-19. Quer isso dizer que, ainda antes de os atletas se lançarem à estrada para correrem os 281 quilómetros na zona da Beira Baixa, num sobe e desce constante com o calor sempre presente, a organização teve de se colocar em campo para garantir que todas as medidas de segurança da DGS eram cumpridas. Uma missão que Paulo Alexandre e os seus pares abraçaram com entusiasmo e que, feito o balanço, foi concluída com sucesso.

"Sentimos que foi dever cumprido. Tudo o que fizemos foi o possível e para além disso. Estamos de consciência tranquila, pois produzimos um evento de qualidade, as pessoas que vieram saem com imagem positiva da região e de Portugal. Para primeira prova em atluras de pandemia acho que demos uma imagem muito positiva do país", explica o diretor da Horizontes, empresa que leva a cabo várias provas de ultradistância nesta região, como por exemplo o OH MEU DEUS - Ultra Trail Serra Da Estrela.

Um sentimento de missão cumprida que ganha mais força perante as dificuldades encontradas. Não tanto pelo protocolo a seguir, que foi aceite pelos atletas sem ‘queixas’ – até porque passava essencialmente por seguir as regras de "distanciamento físico, etiqueta respiratória e higiene pessoal" –, mas antes pelos problemas levantados pelas autarquias. Numa delas, revela, a população não permitiu a passagem e obrigou a mudanças no percurso.

"O protocolo a seguir é muito simples. São três regras. Cumprindo-as tudo é possível ser feito. Foi isso que fizemos. Tivemos custos a triplicar, especialmente nas bases de apoio e alimentação. Tivemos de contratar empresas de catering, porque não podíamos fazê-los como antigamente, numa espécie de buffet. Depois em Lentiscais, por exemplo, a população não nos quis lá. Não cederam nenhum espaço, nem mesmo as sombras para montar as tendas junto à escola. Tivemos de alugar tendas para ficar noutro local, ficando ao sol. Mas os participantes aceitaram o protocolo, já sabiam para o que vinham. Não houve problemas. Aliás, houve até momentos em que começaram a desconfinar demasiado e tivemos de impor algumas regras. Mas não foi complicado, foi fácil", assegura.

Ainda assim, apesar das dificuldades encontradas em alguns pontos, Paulo Garcia faz questão de enaltecer o apoio que considera ter sido fundamental das Câmaras de Proença-a-Nova, Belmonte e Sabugal, autarquias que permitiram levar a cabo uma prova que este ano teve cerca de 100 atletas presentes, mais 40 do que no ano passado. Um aumento de adesão que também se viu no 'tracking' da prova, que logo no primeiro dia chegou aos 100 mil acessos, mais 60 mil do que na edição de 2019... na totalidade.

Exemplo a seguir

Olhando para trás, o organizador da prova assume que a maior mudança a nível organizativo passou pelo reforço do pessoal destacado em 15%, especialmente por causa dos abastecimentos, que passaram a ser feitos, conforme dissemos, de forma individualizada. Ao todo, revela, estiveram envolvidas mais de 100 pessoas, 40 delas de equipas médicas, tudo para que fosse realizada uma prova que espera que sirva de exemplo para outras organizações. É esse o desejo de Paulo Garcia, que diz já ter sido contactado e espera que o caso da PT281+ inspire outras a seguir com os seus planos.

"Faço parte de grupos de organizadores e alguns já nos questionaram do que fizemos para levar a prova em diante. Temos partilhado a experiência e não tenho dúvidas de que nos vão procurar mais. Efetivamente estivemos bem. Portugal não se pode envergonhar pela prova que realizámos", frisa.

Um mea culpa necessário

Ainda que fale com orgulho da prova pela sua equipa realizada, Paulo Garcia não deixa de ser autocrítico e apontar um "grave erro" que acabou por, de certa forma, tirar um pouco de brilho ao fim de semana. Tudo por causa de um problema no ‘tracking’ dos corredores, motivado pelas alterações forçadas no percurso, que levou a que três atletas tenham seguido um caminho errado, algo que até levantou uma enorme polémica, já que se verificou que tinham corrido alguns quilómetros a menos. Uma delas foi a polaca Patrycja Bereznowska, a vencedora feminina e terceira à geral - à frente de atletas como João Oliveira.

O erro foi detetado, a organização fez o mea-culpa, mas deixa a garantia de que não se repetirá. "Tenho que me penalizar pela falha que levou a toda a questão com a Patrycja. Não é admissível, foi um erro grave. Infelizmente não nos afeta como organizadores, não é isso que nos vai limitar, pois de certeza que vamos crescer no próximo ano, mas toca na imagem de uma pessoa íntegra. Ela tem zero de culpa nisto e toda a polémica criada é por causa de um erro nosso que não poderia ter acontecido", assume.

Basicamente, por conta das alterações de última hora no percurso, foi necessário fazer ajustes no GPS dos atletas, mas o problema foi que, por ter sido feito tardiamente, o carregamento da versão em inglês - para ser seguido pelos atletas estrangeiros - acabou por não ser feito. Por isso, na hora de partir, tanto Patrycja, como Luca Papi e Debbie King levaram o 'tracking' errado, fazendo com que se tivessem desviado do percurso que os outros atletas seguiram. Paulo Garcia revela até que foi mesmo obrigado a ir atrás de Papi, já que a determinado momento "ia em direção a uma serra que estava a arder". "Quando o Papi vai naquela direção começámos a tentar perceber o que se passava. Até que no dia seguinte o Pedro Santos, o nosso controlador, nos diz o 'track' em inglês não estava coincidente com o do site. É grave, não podia ter acontecido e não vai voltar a acontecer de novo", assegura.

Agora, uma semana depois da longa aventura, ainda que haja muito para analisar, Paulo Garcia espera conseguir descansar e recarregar baterias. Tudo porque, tal como os atletas, também a PT 281+ foi uma longa aventura para si. "Dormi umas 5 horas desde quarta até domingo. Tentámos dormir aqui e ali, mas o telefone toca, é isto e aquilo, e não é possível dormir muito. Para terem noção, há bases de apoio que estão abertas entre 24 e 30 horas. Levámos secas terríveis, às vezes temos diferenças de passagem de corredores de três horas. É nessas alturas que tentamos descansar, mas nem sempre dá...".

Por Fábio Lima
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