UTMB: A experiência de Pedro Rocha no CCC

Atleta português, que acabou na 67.ª posição, conta na primeira pessoa a sua aventura

Chamonix, 30 de Agosto de 2019 

A prova do UTMB CCC começa bem antes do dia 30 de Agosto de 2019, foram 29 semanas de preparação, de treinos bi-diários, treinos intensivos, regrados, programados e orientados pelos melhores profissionais, foram vários os técnicos responsáveis pela minha preparação física para esta prova, aos quais presto um agradecimento muito especial. Os patrocinadores que me acompanharam neste percurso também exercem um importante papel, garantindo toda a comodidade e conforto possível em todos os produtos disponibilizados. Não posso deixar de agradecer à Compressport Portugal e à Runners, marcas que me representam em todas as provas, à Airelax e à 4Moove. 

Foram tempos de privações, de algumas contrariedades e obstáculos, tempos de definição de metas e objetivos a atingir, de autocontrolo emocional, sim, porque a ansiedade apesar de ser um motor para a ação, vai-te corroendo por dentro e tira-te a clareza mental que necessitas para manter o foco no que é verdadeiramente importante. Os dias que se antecederam ao UTMB foram considerados a verdadeira prova de fogo. As emoções estavam à flor da pele, tinha uma vontade incontrolável de chorar, só pensava que não tinha treinado o suficiente para esta prova, que era considerada a prova da minha vida. Não queria defraudar as expetativas de quem me estava a apoiar e que esteve sempre a meu lado, mas acima de tudo não concebia que pudesse falhar comigo próprio. Esse turbilhão de emoções foi acalmando, a adrenalina foi subindo e gradualmente comecei a focar-me em mim próprio e naquilo que me trouxe ao vale de Chamonix. Para isso, também contribuiu cada mensagem de apoio que eu ia recebendo, li uma a uma e retirei a máxima energia de cada uma delas. 

Na meta em Courmayeur vivia-se um clima de adrenalina indiscritível, foi ali que senti que estava mesmo a participar na mítica prova do UTMB, sentia a agitação dos outros atletas, a troca de olhares constantes, o medo refletido no rosto dos meus colegas, a adrenalina a apoderar-se do meu corpo e o coração a disparar… Depois do tiro de partida, tudo se tornou mais fácil, foi como se me tirassem um peso dos ombros, sentia-me mais leve, com mais atitude, dinamismo e segurança, apesar dos pensamentos intermitentes que invocavam o medo de falhar, de não estar à altura de tamanho desafio. 

O arranque da prova até Refuge Berton foi formidável, mas também para duros. Deparei-me logo com uma subida sem fim em que mais parecia que o céu era o limite, foi uma experiência nova pois nunca tinha iniciado uma prova logo com esta exigência, mas rapidamente me adaptei e marquei um bom ritmo. A prova ia decorrendo na normalidade, as sensações eram revigorantes, sentia-me muito bem com a minha performance. No final da primeira subida tinha obrigatoriamente que acelerar para recuperar posições e chegar ao final da descida de Arnouvax com uma boa classificação. Procurei não falhar no plano de alimentar pois sabia o que me esperava de seguida.

Ao passar em Arnouvaz tínhamos de nos dirigir para Grand Col Ferret, aí só tive de fazer a gestão do esforço, fazendo uma subida controlada para me preparar imediatamente para uma descida longa que me ia causar muito desgaste físico. As paisagens brutais com que nos íamos defrontando davam-nos o estímulo necessário para manter a garra. Comecei a subir com boas expectativas e a ultrapassar alguns atletas. Ao passar em Grand Col Ferret, maciço fronteiriço entre a Itália e a Suiça, tudo começou a ficar decisivo, a prova começava mesmo ali, era a mais pura das verdades. Avizinhava-se uma descida de aproximadamente 20km, na qual procurei gerir o esforço de acordo com as condições em que me encontrava pois estava sem suplantação energética na mochila e só teria reforço em Champex-lac.  Decido abrandar o ritmo para não deitar tudo a perder. Realizar uma prova com estas características sem equipa de assistência, é considerada uma proeza, é muito difícil nos aguentarmos sem os abastecimentos estratégicos. Felizmente contei com o apoio de uma alma caridosa que me deu ajuda em certos abastecimentos garantindo a minha continuidade em prova. 

Ao cruzar a etapa de Champex-lac, sentia-me quase no vermelho, necessitava de me hidratar e de ingerir alguns alimentos para recuperar forças e ganhar energias para os próximos quilómetros verticais que me esperavam.

Quando regresso ao trilho, após o abastecimento, começo a calcular o caminho a percorrer e se conseguiria cumprir com o objetivo inicial que era cruzar a etapa de Trinet às 8h:30 de prova. Analisando o percurso anterior e tendo em conta que fui perdendo algum tempo de prova devido à falta de abastecimentos, vi-me forçado a reformular a estratégia e repensar a hora de chegada à etapa de Trinet recalculando o tempo para 9h:20, contrariamente ao inicialmente esperado.

Já próximo da reta final da prova, deparei-me com 3 subidas muito exigentes, bastante duras, alternadas com descidas muito complexas, especialmente a última que era bastante técnica, do pior que já fiz. No penúltimo abastecimento, observo que alguns atletas iam desistindo e começo a questionar-me porque estariam a fazê-lo na reta final, se seria com receio do aproximar da noite. Esta situação causou-me alguma estranheza e indignação, deixou-me surpreso e ao mesmo tempo expectante com o que pudesse vir a encontrar dali em diante. No entanto, nada me demoveria do meu objetivo.

Quando tudo parecia acalmar e a meta começava a ficar cada vez mais próxima, eis que surge a desafiadora etapa de Tete Aux Vents, este nome vai-me ficar gravado na memória por ter sido a última grande subida. O cansaço era extremo, o corpo começava a dar de si, as forças começavam a desaparecer, mas tinha de me manter mais firme do que nunca. Só vos posso garantir que esta última subida teve a capacidade de me "derreter" por completo. Tratava-se de uma subida de grau de dificuldade elevado que continha degraus que sobrepunham a minha cintura, o que se revelou num grande obstáculo pois não sou muito alto, o que me exigiu um esforço acrescido para conseguir ultrapassar aquela contrariedade.

No último abastecimento encontrava-me na 69ª posição, procurei acelerar um pouco a partir daí para ver se conseguia recuperar alguns lugares.

Ao me aproximar do vale de Chamonix tinha a certeza que estava prestes a concretizar o sonho de cruzar a meta do UTMB, naturalmente invadido por um aglomerado de emoções. Aquela era a altura para deitar tudo cá para fora, de extravasar e libertar um conjunto de emoções que me acompanhavam desde os momentos que se antecederam à prova até à reta final. Mais à frente vejo uma cara familiar a correr na minha direção para me acompanhar e cruzar a meta a meu lado, era o Romeu Gouveia. Foi uma sensação fora de série, um sentimento de amizade pura... não me saía da cabeça o pensamento de que este miúdo é mesmo especial.

Não foi fácil chegar aqui, não foi fácil preparar-me para estar ao nível deste desafio, no entanto não me arrependo nem por um segundo de todas as privações, contrariedades por que passei, obstáculos que tive de contornar e sobretudo, por ter dado tudo de mim mesmo quando muitos acreditavam não ser possível. Não poderia ser diferente, tinha de ser assim, manter a força, garra e determinação no grande objetivo.

A dificuldade desta prova não reside propriamente na ultra distância, mas prende-se mais com os 6.000m D+ que temos de percorrer entre o maciço montanhoso do Mont Blanc ??, são subidas muito acentuadas distribuídas por 5 picos, que não nos dão descanso, que nos tiram o fôlego e impedem de recuperar, temos de ser inteligentes na gestão do esforço para aguentarmos o ritmo que nos é imposto. Trata-se também de um percurso muito técnico, carregado de obstáculos, que nos dificultam a vida e fazem pensar... "eu sabia que era difícil, eu preparei-me para o pior, mas nunca pensei que fosse tão difícil".

Sentia-me mais do que preparado para este desafio, sei que conseguiria um resultado mais vantajoso, mas nem sempre o nosso corpo responde à nossa vontade de fazer mais e melhor e quando isso acontece, temos de respeitá-lo, gerir o esforço e fazer as coisas com cabeça pois nunca sabemos o que podemos encontrar e as situações que teremos de gerir.

Concluí a prova ao fim de 13h:30, garantindo a 67ª posição na geral e a garantia de que foi uma experiência brutal, das mais gratificantes, prazerosas e a que mais me enriqueceu como atleta.

TETE AUX VENTS

Quando tudo parecia acalmar e a meta começava a ficar cada vez mais próxima, eis que surge a desafiadora etapa de Tete Aux Vents. Este nome vai-me ficar gravado na memória por ter sido a última grande subida. O cansaço era extremo, o corpo começava a dar de si, as forças esvaneciam-se e esta última subida teve a capacidade de me derreter por completo. Deixei ficar tudo o que tinha naquela duríssima subida…

Autor: Pedro Rocha

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