Golden Trail Championship: atletas saíram "destruídos" mas gratos pela oportunidade de competir

Grande decisão das Golden Trail Series levou os atletas ao limite, mas todos partem satisfeitos

Durante cinco dias, a ilha do Faial, nos Açores, foi o centro do trail mundial, com a disputa de uma edição única da final das Golden Trail Series, desta feita organizada num formato de quatro etapas (o primeiro dia foi de prólogo) devido às condicionantes da pandemia de Covid-19, que levaram ao cancelamento de várias provas na agenda do campeonato. E mesmo sendo realizada num formato totalmente distinto, a verdade é que esta grande decisão do mais importante circuito de trail mundial não poupou na emoção e na competitividade.

No final, como é dos vencedores que reza a história, foram para casa com o troféu mais desejado o polaco Bart Przedwojewski e a helvética Maude Mathys, dois atletas que para lá do triunfo final levaram também um bem chorudo prémio monetário tanto pela vitória como pelos triunfos em etapas e nos mais variados segmentos. No total, Mathys leva 8000€ e Przedwojewski 7500€, mas também memórias que jamais irão esquecer dos Açores.

Tanto pelo triunfo, que num circuito tão importante como este nunca se esquece, mas também pelas bem exigentes condições que encontraram no Faial. Chuva, vento e lama, muita lama. Mas nunca ninguém lhes disse que seria fácil e, mesmo que voltem a casa "destruídos", como o vencedor masculino assumiu após a prova, a sensação é de alegria extrema pelo facto de terem finalmente tido a oportunidade de competir.

"Estou estupefacto e ao mesmo tempo cansado. Bem, na verdade estou destruído. Sei que vou estar como um zombie nos próximos dias, mas valeu bem a pena. Treinei duro durante todo o ano e tentei manter-me focado mesmo nos dias mais sombrios do confinamento", assumiu o vencedor, da Team Salomon, que nesta edição especial das Golden Trail Series venceu duas das quatro etapas disputadas.

Segundo colocado na classificação, e vencedor da derradeira etapa, Jim Walmsley deixou os Açores com a sensação de que este foi um desafio que o levará para outro nível. "Foi a minha primeira vez aqui. Não sabia o que esperar, pois era um novo terreno para mim, muito desafiante e difícil. Esteve sempre tudo muito húmido e senti-me muito fora da minha zona de conforto. Ainda assim, foi uma excelente experiência, diverti-me imenso. Enfrentei uma competição muito forte. Tinha esperanças de vencer, mas o Bart esteve extrememente forte. Começou muito forte, bateu-me em três dos quatro dias, por isso foi difícil de tirar-lhe tempo. Tiro-lhe o chapéu, pois foi muito sólido e consistente ao longo de toda a prova", elogiou o norte-americano, que à partida era o nome mais sonante de todo o pelotão.

Na prova feminina, tal como no caso de Przedwojewski, também Mathys dominou e levou para casa a vitória em duas etapas. No final, a Record, a helvética mostrou-se satisfeita pelo triunfo, mas assumiu que passou por algumas dificuldades. "Estou muito feliz, porque antes da prova senti que a Tove [Alexandersson] estaria mais forte do que eu. Na primeira etapa ela esteve muito bem e pensei para mim que seria impossível batê-la. Mas na segunda etapa achei que seria melhor seguir o meu ritmo. Houve uns dias em que quebrei na descida e subida, mas fui capaz de seguir quem ia à minha frente e acabei por triunfar", assumiu a atleta helvética, da Team Salomon.

Portugueses "fora da zona de conforto"

Para lá da acesa discussão pelo topo da tabela, também houve portugueses a destacarem-se nos lugares da frente. Nessa luta particular pelo melhor atleta luso acabaram por se evidenciar Bruno Silva e Inês Marques, o 26.º e o 20.º das respetivas classificações, depois de provas feitas de uma forma consistente e em progressão.

Nesse sentido, Inês Marques foi aquela que fez uma prova de maior evolução, já que depois de ter sido 30.ª na primeira jornada foi subindo paulatinamente até ao 20.º posto final na chegada à Ribeirinha, na derradeira etapa. No final, a atleta da Salomon Suunto Caravela assumiu que foi obrigada a puxar dos galões para superar as complicadas condições encontradas nos trilhos do Faial. "Foi muito duro. As condições atmosféricas tornaram os trilhos ainda mais difíceis do que o normal, difícil progressão, árvores partidas, na zona da Caldeira com rajadas de vento muito fortes e eu quase que voo com os meus 49 quilos... Mas foi espectacular. Temos de agradecer à organização de ter tido a coragem de organizar esta prova, terem tido a ousadia de juntar atletas de tantos países, cumprindo sempre as normas. Acho que todos estão contentes de fazer o que mais gostam, independentemente da competição que se gera. Tenho-me superado a cada etapa. Há dois dias comecei a acreditar no top-20 e hoje consegui superar-me e dei tudo o que tinha na última etapa. Trilhos muito técnicos, muita lama. É preciso ser bicho do mato e eu não sou muito... Muita lama e eu não treino neste género de trilhos e é aí que sou mais ultrapassada, pois não tenho tanta agilidade, como por exemplo as atletas nórdicas que estarão mais habituadas a estas condições."

Já Bruno Silva, o mais regular entre os homens (28.º, 41.º, 25.º e 27.º), seguiu pelo mesmo discurso e assumiu ter-se sentido sempre fora do seu habitat natural, especialmente por causa da forte concorrência que enfrentou. "Estou satisfeito. Foi uma prova por etapas, algo que nunca tinha feito. Além de ser de etapas, é de elite mundial, com os melhores do Mundo. Fica mais difícil andar os dias todos no máximo, é uma superação dia após dia. Acabar cansado, tentar recuperar alguma coisa, para no dia seguinte voltar a dar tudo e tentar aguentar até final. Hoje [ontem] custou-me um bocadinho mais, por ser o quarto dia, mas foi aguentar sem respirar e só a pensar em acabar. O meu objetivo quando vim era dar o máximo e aprender ao máximo, andar com os melhores, superar-me. E saber que sou capaz. É preciso forçar e nós só vamos conseguir evolução ao sair da zona de conforto. E isto para mim foi sempre andar fora da zona de conforto durante quatro dias", disse o atleta do Furfor Running Project.

Por Fábio Lima
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