O senhor Fernando

A crónica de António Carraça

Quem vive do futebol sabe que o caminho, por vezes, torna-se deveras acidentado. E quando assim acontece, são as pessoas que nos rodeiam, aquelas com quem trabalhamos todos os dias, que nos ajudam a escalar a montanha. Numa equipa, são os valores que falam mais alto. É o caráter e o espírito de grupo a base de todo o processo. A solidez do coletivo e o espírito solidário trabalham-se e desenvolvem-se de acordo com a capacidade de aglutinação que o líder faz progredir em todas as suas intervenções. E liderar é estar atento aos detalhes e às pessoas. É ter consciência do que pode acontecer quando tomamos decisões. É conduzir com sabedoria e serenidade. É ser justo.

Fernando Mendes era assim. Um verdadeiro líder, um amigo e um Senhor. Daí o respeito, a admiração e a amizade que sentíamos por ele. Foi meu treinador no Belenenses e no Farense. Ensinou-me coisas que, muitas vezes, o mundo triturador do futebol deixa para trás e não valoriza. Que a vitória só faz sentido e tem sabor quando é conquistada lealmente. Que o sucesso é possível, partilhando alegrias e tristezas. Que vale a pena lutarmos pelo que acreditamos.

E o Senhor Fernando também acreditava que os homens do futebol tinham a obrigação de marcar a diferença. Mostrou-nos isso no Farense, num momento em que os resultados estavam abaixo do que era expetável quando tínhamos sido uma das equipas sensação na primeira volta do campeonato.

Antes do treino, nas vésperas de um jogo em casa, nas cabinas do São Luís, reuniu-se connosco e discursou:

– Esta não é a minha equipa. A nossa equipa. Perdeu a humildade e o espírito de sacrifício que sempre foi o nosso farol. Está perdida. Estamos perdidos e necessitamos de voltar a achar o nosso caminho. Temos de olhar para o que se passa à volta. Para o que se passa mesmo ao nosso lado e perceber o que está a acontecer. Sabem aquele miúdo que muitas vezes vem aqui assistir aos treinos? O que sentirá quando olha para vocês a correr e a jogar à bola e ele naquela velha cadeira de rodas? Mesmo assim, não vêem o seu sorriso a acompanhar as vossas jogadas, os vossos dribles, os vossos golos? A felicidade que lhe dão...! Este domingo vamos jogar por nós e por ele. Temos de lhe dar ainda mais felicidade com a nossa vitória. E amanhã tragam um envelope com o vosso donativo para o ajudarmos a comprar uma cadeira de rodas nova.

Fez uma pausa e perguntou:

– Estamos entendidos? Alguém quer dizer alguma coisa?

Silêncio total. Tínhamos captado a mensagem. Agora dependia de nós.

No dia seguinte, as notas foram religiosamente entregues para o fim a que estavam destinadas. No domingo, o jogo foi diferente. Não ganhámos mas empatámos com o Sporting e recuperámos a nossa verdadeira equipa. Lutámos até à exaustão, conseguindo o empate nos últimos minutos.

Mais importante que o resultado do jogo fora a lição de cidadania, solidariedade e coragem que o nosso mister Fernando Mendes nos deu. O Senhor Fernando era assim. Um homem bom e um profissional de grande dimensão! Até sempre e a minha indelével gratidão. Por ter sido seu jogador e amigo.

Por António Carraça
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